Estética do desaparecimento

Daniela Bousso

Publicado em: 23/01/2012

Categoria: Reportagem, visuais

Seis artistas discutem a passagem do tempo e o desaparecimento através da fotografia

A memória é um dado cada vez mais precário na atualidade. Ninguém sabe ao certo quanto tempo uma foto digital pode durar. Embora comprovadamente mais durável, a foto analógica nem sempre garante permanência. Selecionamos aqui seis artistas que discutem a passagem do tempo e o desaparecimento. São seis modos e processos diversos de criar imagens, que vão da aproximação com o pictórico à instantaneidade da antropologia urbana.

Da série El Testigo (A Testemunha), 2011, impressão com pó de carvão sobre metacrilato

Estetica_desap

Esta obra integrou a exposição individual “Impresiones Débiles” (Impressões Frágeis) realizada este ano, em Madri, pelo artista colombiano. O desaparecimento das figuras (chefes guerrilheiros dos anos 1950) e a desmemória que apontam ganha dramaticidade com a testemunha anônima, que parece fitar a câmera com um olhar perdido. O efeito do tempo é tema essencial na obra de Muñoz, que aborda o caráter efêmero da representação e a nossa fragilidade extrema diante da dissolução inevitável do momento presente.

A Coleta da Neblina, 2001, fotografia digital

Neblina

Brígida Baltar esculpe camadas de invisibilidade e temporalidades distintas. A artista registrou em fotos e vídeos a coleta de névoas úmidas presentes no ar das praias, montanhas e matas. Usou diversos frascos nessa busca do imponderável. A neblina, para ela, é rastro e vestígio do tempo recém-passado. Matéria impalpável, apagou personagens, fez sumir a paisagem e a vegetação. Resta a natureza encoberta, suspensa no tempo e no espaço, a obstruir a visão e o momento próximo, o devir.

Água Invertida 1, 2009, fotografia digital

Agua_invertida

A foto, extraída do vídeo 1978 – Cidade Submersa, filmado no Remanso, Bahia, atesta a passagem do tempo e de vidas em lugares que se esvaem. Destaca uma questionável noção de progresso, que desvia cursos de rios e afoga paisagens, monumentos e cidades, gerando espaços fantasmagóricos e desoladores. Dias reafirma, com esta imagem e no conjunto de sua obra multimeios, uma ação cidadã como indivíduo e artista em tempos globais.

Fragmento de um Campo III – 9.120 μSv, 2009, cópia positiva de negativo radiográfico

Fragmentos

A artista expôs uma película radiográfica à radiação provocada pelo acidente nuclear de Chernobyl (Ucrânia) e não à luz, como no processo habitual de sensibilização do negativo fotográfico. Nesta imagem, que é uma reprodução positiva da chapa radiográfica original, as manchas claras são as marcas da radiação, em geral invisível a olho nu. O número 9.120, no título do trabalho, quantifica a dose de radiação recebida pela imagem, em exposição que durou dois meses e meio, de maio a julho de 2009.

Figura Sentada, 2009/2010, instalação

Figura_sentada

Que imagem é esta? Onde está o referente? Fantasmagorias, ilusão e sugestão são ferramentas recorrentes nas obras de Luiz Zerbini. Cinema, fotografia e representação pictórica se confundem a partir de um jogo que o artista estabelece entre a opacidade da cor e a refração da luz. Esse recorte do mundo da representação por espelhamento, característica da fotografia, ganha acréscimos da contemporaneidade pela apropriação de linguagens e processos originários dos meios digitais.

Memória Nacional, 1977, fotografia analógica

Memoria_nacional

A fotógrafa carioca Essila Paraíso, atualmente residente em Milão, investigou nos anos 1970 o conceito de memória e permanência da imagem na fotografia. Para isso, usava imagens de monumentos do Rio de Janeiro tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional. Antes de fazer a ampliação, ela velava o papel fotográfico virgem. Dessa forma, a imagem ampliada ia gradativamente desaparecendo quando exposta à luz natural. A imagem aqui apresentada ainda existe porque foi guardada em álbum.

*Publicado original e lindamente na edição impressa #3.

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