Estrela solitária

André Fischer

Publicado em: 23/04/2013

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

Ao contrário do que muitos podem pensar, há muitos gays que são fãs de futebol e seguem com interesse o Brasileirão

Fut_gay

Legenda: Quase-barreira II (2012), nanquim sobre papel, de Francisco Hurtz

Ninguém se surpreende com o interesse das lésbicas por futebol, até espera que elas batam um bolão. No entanto, sofremos um leve preconceito, vindo principalmente de outros gays, que transparece em forma de surpresa dos que veem incompatibilidade entre orientação sexual e o nobre esporte bretão. Não me venham com a bizarrice de que o motivo seria atração ou fetiche pelos jogadores. Ainda que os cortes de cabelo tenham melhorado, os brasileiros estão muito longe do padrão Beckham/Cristiano Ronaldo. E não conheço ninguém que por causa disso torça pelo Paris Saint-Germain ou Real Madrid. Seria muita viadagem.

Gosto de futebol tanto quanto um office-boy corintiano. Acredito que a diferença esteja na abordagem. O sentimento que os héteros têm por seus times talvez esteja mais próximo de uma paixão irracional, enquanto para a maioria dos homo surja mais associada a um culto pela mística da equipe. Para mim, pelo menos funciona assim. Ter um time de futebol próprio era uma questão de identidade pessoal na minha casa. Nasci botafoguense, filho de pai flamenguista e mãe tricolor. Minha irmã, claro, é vascaína. A estrela solitária preto e branca me hipnotizou desde que me entendo por gente e me identifico profundamente com seu significado literal. Para coroar a mitologia pessoal alvinegra, a primeira vez que fui ao Maracanã foi justamente na histórica vitória do Fogão sobre o Flamengo por 6 a 0. Meu pai, em vez de ficar aborrecido com a derrota fragorosa do seu time, festejou a vitória do meu. Hoje entendo que já estavam ali os sinais do que aconteceria 15 anos depois. Quando me assumi e apresentei meu namorado cruzeirense, ele nos presenteou com um fim de semana em um resort de Búzios. Na infância e adolescência, eu era um perna de pau, estava sempre entre os últimos a serem escolhidos na divisão dos times. Sofri um certo bullying por ser pereba, não percebo homofobia nesses abusos. Meu forte aparecia nas mesas de futebol de botão, o que de certa forma me redimia.

No ano em que o Glorioso caiu para a Segunda Divisão, fiz uma tatuagem com o escudo do Botafogo em chamas no braço esquerdo como forma de apoio ao time e manifesto estético. Torcer pelo Botafogo morando em São Paulo ainda renova o status de minoria, que é um componente fundamental da minha persona. Futebolística e mais além disso. zou desde que me entendo por gente e me identifico profundamente com seu significado literal. Para coroar a mitologia pessoal alvinegra, a primeira vez que fui ao Maracanã foi justamente na histórica vitória do Fogão sobre o Flamengo por 6 a 0. Meu pai, em vez de ficar aborrecido com a derrota fragorosa do seu time, festejou a vitória do meu. Hoje entendo que já estavam ali os sinais do que aconteceria 15 anos depois. Quando me assumi e apresentei meu namorado cruzeirense, ele nos presenteou com um fim de semana em um resort de Búzios.

Na infância e adolescência, eu era um perna de pau, estava sempre entre os últimos a serem escolhidos na divisão dos times. Sofri um certo bullying por ser pereba, não percebo homofobia nesses abusos. Meu forte aparecia nas mesas de futebol de botão, o que de certa forma me redimia.

No ano em que o Glorioso caiu para a Segunda Divisão, fiz uma tatuagem com o escudo do Botafogo em chamas no braço esquerdo como forma de apoio ao time e manifesto estético. Torcer pelo Botafogo morando em São Paulo ainda renova o status de minoria, que é um componente fundamental da minha persona. Futebolística e mais além disso.

*André Fischer é criador do MixBrasil, um dos principais portais de informações e cultura popular englobando os diversos setores que formam a comunidade GLBTT do Brasil.

*Publicado originalmente na edição impressa #11.

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