Eterno enquanto dure

Nina Gazire

Publicado em: 13/03/2012

Categoria: Reportagem, visuais

Exposição às intempéries geológicas e interferência humana abrem debate sobre o destino de Spiral Jetty,  obra-prima de Robert Smithson

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A obra Spiral Jetty em 2008 (Foto: The Salt Lake Tribune)

Foi no ano de 1970 que o artista norte-americano Robert Smithson realizou sua obra-prima às margens do Great Salt Lake, um enorme lago de águas salgadas localizado no estado de Utah, nos Estados Unidos. Spiral Jetty é uma espiral em sentido anti-horário feita com bassalto, terra e cristais de sal a partir da margem do lago, e possui 1500 metros de comprimento e 15 metros de largura. Essa obra é o tratado exemplar para aquilo que Smithson denominou de Land Art ou Earthwork: “a libertação da arte do espaço da galeria e o reconhecimento das estruturas geológicas da Terra como uma forma de arte monumental que não cabe em museus”, declarou ele em entrevista a revista Artforum, em 1972.

Quarenta anos depois, quando há muito a arte se expandiu para fora do cubo branco e das paredes dos museus, sobre Spiral Jetty há sempre uma polêmica reincidente. No início do mês, em um debate acontecido dentro do evento Forum for questioning minds, em Salt Lake City – capital do estado de Utah e mesmo Estado onde a obra de Smithson se encontra. Hikmet Loe, uma professora de história da arte de uma universidade local advogou que o monumento nunca esteve tão ameaçado de desaparecer como agora, devido à crescente exploração de óleo natural feita no lago Salt Lake.

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Obra Sun Tunnels, de Nancy Holt (Foto: Anna Pujadas)

Loe também citou como exemplo a obra Sun Tunnels, de Nancy Holt, viúva de Smithson e também artista. Nesta obra, quatro tubos de concreto estão posicionados em uma área desértica do Utah de acordo com quatro constelações estelares. Loe argumenta que ao redor do trabalho, localizado antes em uma área essencialmente vazia, pneus usados em uma borracharia vizinha estariam sendo acumulados em torres. Apesar de defensora da preservação dos trabalhos, a professora fez uma importante ressalva durante o debate que envolveu cidadãos locais na discussão sobre a preservação destes marcos da Land Art: “Robert Smithson queria mostrar que a arte acabará quando o planeta Terra acabar”, declarou ela ao jornal The Salt Lake City Tribune. 

De fato, no próprio vídeo em que documenta a realização de Spiral Jetty, em 1970, Smithson declara que a “história da Terra é como uma história escrita em um livro onde cada página está rasgada em mil pedaços e grande parte dos pedaços estão desaparecidos”. Spiral Jetty seria muito mais do que um statement quanto ao status quo da arte presa aos museus, mas uma história da arte que “leva em conta o efeito direto dos elementos naturais, tal como existem no dia a dia”, afirmou o artista. E nesse contexto a história da Terra, cujas mudanças lentas provocadas pelas intempéries climáticas e geológicas, se enquadraria nessa ideia de uma arte onde nada é permanente. E provavelmete, se estivesse vivo, supõe-se que o artista acharia interessante as mudanças que Spiral Jetty sofreu ao longo das décadas.

http://www.youtube.com/watch?v=fTx4Pp4aPXA&feature=related

A questão sobre como preservar essa obra foi levantada também no ano de 2009, em uma matéria do The New York Times sobre o tipo de conservação possível deste tipo de arte. A Dia Art Foundation, fundação de arte nova-iorquina selecionada pelo estado de Utah para ter a custódia de Spiral Jetty e também de trabalhos de Nancy Holt, tem-se dedicado a documentar por meio de fotografias e anotações diretas as mudanças que as obras vêm sofrendo. Segundo alguns profissionais responsáveis pela manutenção da área onde está Spiral Jetty, a espiral poderá desaparecer em cerca de 10 anos devido à drenagem de óleo no lago onde está localizada. E a documentação é tudo o que a fundação pôde fazer no últimos anos. O lago onde a enorme espiral está deitada possui mais de 4,400 km² e sofre mudanças constantes, como longo períodos de cheias. A última cheia, por exemplo, a manteve mergulhada em águas salgadas por quase 30 anos. Emergida totalmente apenas no ano de 2010, a obra, mais do que nunca, parece cumprir a missão para a qual seu criador a destinou.

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