Eu sou você e nós somos um

Ronaldo Bressane

Publicado em: 27/11/2012

Categoria: Perfil, Reportagem

A incrível história de amor entre dois artistas que se fundiram numa só pessoa: o músico Genesis P-Orridge e a dominatrix Lady Jaye

Cortesia Marie Losier-adopt Films

Lade Jaye e P-Orridge. Foto:cortesia marie losier/adoptf

“Ela disse que me via como uma imagem espelhada dela, e que nós deveríamos ser as duas metades de uma.” Foi o que Genesis P-Orridge ouviu de
sua futura esposa, Lady Jaye Breyer, depois que ela o vestiu com suas roupas, o maquiou e colocou nele uma peruca para que se parecesse com ela.
Isso foi em 1993 – o primeiro passo para um projeto artístico de transformação física que o casal chamaria de pandroginia. P-Orridge é um performer e músico conhecido por seu trabalho nas bandas de rock industrial Throbbing Gristle e Psychic TV .

Na ativa desde 1967, ele é considerado um precursor do punk e do rock industrial, gênero cristalizado pelos grupos The Young Gods e Nine Inch Nails. Já Lady Jaye, à época do primeiro encontro com Genesis em Nova York, dividia seu tempo cuidando de crianças em estado terminal de manhã, enquanto à noite trabalhava como dominatrix chicoteando velhos executivos. A pandroginia tornou-se ainda mais verdadeira do que eles planejaram, conforme registrado no documentário A Balada de Genesis e Lady Jaye, de Marie Losier, que estreou em julho nos EUA .

Uma década depois do casamento, os dois começaram o processo de um se  tornar o outro por meio de cirurgias estéticas – a começar pelo implante de seios idênticos, no Dia dos Namorados de 2003. “O plano não era mudar de sexo. Nada seria removido dos corpos, só adicionado”, insiste P-Orridge. “O corpo não é sagrado. Como Lady Jaye costumava dizer, é uma ‘mala barata’ que carrega o seu eu real: a sua consciência, sua mente, seus  pensamentos, aspirações e sonhos”, diz o artista de 62 anos, falando a seLecT por telefone de Nova York. “Esse contêiner deve ser tão maravilhoso o quanto você conseguir.”

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“Fizemos cursos de Neurolinguística para reprogramar nossa linguagem para que fosse uma. Tentamos unir nossas consciências”, diz P-orridge. Foto: cortesia marie losier/adoptf

Depois de conhecer o casal durante a turnê europeia do Psychic TV , a cineasta experimental francesa Marie Losier filmou oito anos de suas vidas: no palco, em casa, no metrô, tirando onda pelo Brooklyn. Marie reconheceu uma história incrível desde o começo. “Havia uma incrível ‘cola’ entre Gen e Jaye, um jeito muito curioso de nunca deixar as mãos um do outro, usar as mesmas roupas e cabelos, um completar as frases do parceiro”, lembra Losier. P-Orridge, um dos nomes mais fortes da contracultura, foi pioneiro da body modification nos anos 1970, quando teve seus genitais espetados por piercings, imagem que foi parar nas páginas de vários jornais londrinos.

“Para nós, o processo todo foi inicialmente privado, íntimo”, lembra P-Orridge. “Fizemos cursos de neurolinguística para reprogramar nossa linguagem para que fosse una. Tomamos muitos psicodélicos juntos, para encontrar pontos c omuns em outras dimensões. Fomos ao Himalaia anualmente para aprender técnicas para estar fora do tempo e do espaço. Tentamos, literalmente, unir nossas consciências. É por isso que o processo ainda está em curso. O ponto crucial foi nos encontrarmos após a morte física, de um modo como os lamas tibetanos se reencarnam.”

A balada de Genesis e Lady Jaye durou 14 anos. A missão compartilhada de se tornar as duas partes de um único ser pandrógino foi um projeto artístico e uma carta de amor sem igual – interrompida tragicamente quando Lady Jay, nascida Jacqueline Breyer, morreu de câncer no estômago, em 2007. Desde então, P-Orridge sempre se refere à morte da mulher como “quando Lady Jaye abandonou seu corpo”. Embora sua doença e morte tenham vindo repentinamente, P-Orridge conservou uma biblioteca de sons e textos gravados pela mulher para usar em canções da Psychic TV .

Quando o Throbbing Gristle se reuniu para o Coachella em 2009, P-Orridge cantou Almost a Kiss, ajustando as letras em tributo à sua mulher e
beijando a tatuagem de seu rosto em seu braço. Apesar da morte da parceira, ele diz que os planos em comum tornaram-se realidade. “Ela dizia que queria ser lembrada como parte de uma grande história de amor”, diz P-Orridge. “Fico feliz por perceber que o único desejo de Lady Jaye em vida foi realizado.”

Artista móvel

Genesis sempre enfatizou a mudança e a mobilidade como pilares de seu processo artístico. Nascido Neil Andrew Megson, em Manchester, usou ainda os nomes DJ Doktor Megatrip, Megs’on, P. Ornot, PT001 e Vernon Castle. Desde a infância tem vivido em dezenas de cidades diferentes – qualidade que, de acordo com Timothy Leary em sua biografia Flashbacks, torna uma pessoa mais evoluída mentalmente. Ocultismo, prostituição, serial killers, pornografia e implosão do limite entre gêneros sexuais davam a tônica de suas primeiras performances nos anos 1960, tornando-o um personagem amplamente controverso e temido.

Nos anos 1970, um deputado proclamou esse protopunk um “destruidor da civilização” em pleno Parlamento inglês. “Mudanças vêm juntamente com a reflexão”, diz P-Orridge, calmo como um lorde. “Conforme mudávamos, refletíamos sobre essa mudança. Em princípio, o documentário era mero registro de nosso cotidiano. Mas, quando Lady Jaye deixou para trás seu corpo, o filme tornou-se minha cruzada para demonstrar a arte como a evidência de um processo, e não uma coisa acabada em si. E a mudança não é um processo linear. O truque é não se tornar viciado no objeto, e sim manter-se focado em um futuro possível”, concebe o artista. 

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O mutante genesis P-Orridge e Lady Jaye, em cenas do filme de Marie Losier. Foto: cortesia marie losier/adoptf

Ele enfatiza que a pandroginia é um desenvolvimento do cut-up, técnica de colagem criada por Brion Gysin e desenvolvida por William Burroughs, seus amigos desde os anos 1970. Mas como seguir vivendo, se metade de você está morta? “Lady Jaye representa para nós o imaterial, enquanto nós ainda estamos no material. E ela está em ambos os lugares. É por isso que dizemos ‘nós’”, afirma o(s) artista(s). E pensaram em como criar um canal de comunicação quando um deles morresse? “Sim, pensamos em três pontos: deveria acontecer fisicamente, deveria ter testemunhas e deveria ter um significado secreto que só nós poderíamos saber.

E aconteceu! Três dias após o corpo de Lady Jaye ser enterrado, estávamos na sala do apartamento com minhas duas filhas, mais Alice, do Psychic TV, que queriam me convencer a ir para a Califórnia, onde cuidariam melhor de mim. Eu disse que só iria com uma foto especial de Jaye.” Eles foram à Parede de Beijos, painel com dezenas de fotos do casal se beijando em vários lugares do mundo, e ele escolheu uma foto tirada em Katmandu. “Levamos a imagem para a sala e nos sentamos em semicírculo, com a foto de face para baixo, e dissemos: ‘Que Jaye diga onde fiquemos’.

Então a foto se levantou, atravessou a sala, veio até mim e virou o rosto para cima. Todos viram isso! E tudo se encaixou. Assim, decidimos não ir
para a Califórnia”, conta o artista. P-Orridge revela que em todo aniversário de Jaye ou do casamento faz algo especial. Este ano, tatuou um ás de espadas no mesmo lugar onde ela tinha um, só que apontado na outra direção. No Dia dos Namorados, o aniversário do implante de seios de
ambos, tatuou as sobrancelhas. Recentemente, ele diminuiu seus seios para que estivessem do mesmo tamanho que os dela quando ela partiu. “No fim,
entendemos que o corpo humano é um projeto inconcluso. Como espécie, temos de nos tornar algo uno, ou então seremos destruídos. Esse processo
de mudança é o que nos define como humanos”, conclui Genesis P-Orridge, o mutante.

Matéria publicada na edição 07, agosto 2012.

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