Eu vim pra confundir

Ronaldo Bressane

Publicado em: 29/11/2012

Categoria: Perfil, Reportagem

Símbolo das contradições do Brasil, Mr. Catra, dito Operário do Funk, lança disco de samba em que fala de maconha, violência, política – e até de amor verdadeiro

Mr Catra

“Nosso cérebro tem várias gavetas, é só se organizar. Ou você acha que eu vou parar com uma mulher pra ficar com a outra?”, pergunta Mr. Catra à guisa de explicação para o susto: como é que o rei do funk carioca lança um disco de samba? Para quem não acompanha a carreira desse carioca de 42 anos, pode parecer jogada de marketing. Mas o disco, Com Todo Respeito ao Samba, é na verdade uma espécie de súmula musical desse funkeiro mais conhecido por suas letras polêmicas e peripécias românticas (é casado com quatro mulheres e pai de 20 filhos) do que respeitado pela originalidade artística.

Entertainer nato, frasista de fina verve, alma de Chacrinha em biótipo de Mano Brown, Mr. Catra sintetiza as contradições do Brasil. Sua figura é seu discurso: olhos caídos e sorriso constante pela permanente adição de THC, cuja legalização defende sem pudor, voz grave que transita entre o zombeteiro, o sensual, o assustador e o professoral, músculos talhados pelo boxe tailandês e pança lapidada por incontáveis brejas e churrascos (ele diz que não tem barriga tanquinho, e sim “máquina de lavar” – “Porque já vem com mangueira, tá ligado?”).

Surgido na Rua Doutor Catrambi, na Tijuca, daí o apelido, Wagner Domingues Costa foi adotado desde o berço por uma família de classe média. “Estudei nos melhores colégios do Rio e descobri o funk quando subi o Borel atrás de uma jaqueta do Mickey Mouse que me tomaram”, conta. Começou em banda de mpb, depois foi vocalista de um grupo de hard rock e surgiu no funk cantando os chamados proibidões, funk-relatos que narram a guerra entre facções criminosas e a polícia.

No primeiro disco, segura uma Bíblia na contracapa (todo show ele louva a Deus) e canta coisas como O Fiel: “Minha facção é o bonde de Deus/ já fui ladrão e conheço o breu/ …/ Minha facção claro que é o CV / …/ se ajoelhou, mano, vai ter que orar.” Anos depois, ao fazer um show em Israel, teve uma iluminação e se descobriu hebreu – não tira do pescoço um grosso colar de ouro com o Leão de Judá.

Monarquista, machista e liberal, a figura de Catra casa a expressão artística mais moderna, o funk, com a cartilha arcaica que glorifica o polígamo provedor que exalta o sexo sem fronteiras – desde que todas as cachorras estejam salomonicamente em seu nome. Sua voz baixa, rouca e profunda é um buraco negro que tritura funk Miami Bass, soul carioca, refrões de samba e hinos evangélicos.

Nos últimos anos, tem feito 50 shows por semana para pagar as contas das quatro famílias– apresentações de meia hora em que mistura funks de apelo altamente erótico com recriações de clássicos da mpb. Lançado em agosto, o novo álbum foi precedido pela inacreditável Mama, dueto com Valeska Popozuda que enaltece as delícias do adultério – o vídeo foi visto milhões de vezes. A exaltação do prazer sensual Happy End é cantado de jeito blues, mas a melodia acelerada funkeira faz contraste com a cama de teclados e a batida ralentada típicas de
um pagodão responsa.

A complexa Mangueira É uma Mãe pareceria mero samba-exaltação à Estação Primeira não fosse cantada em dicção próxima ao rap, com direito a guitarras pesadas. Outros hits potenciais são o samba-rock Chapa Quente e o pagode-denúncia Baseado na Lei, que defende a legalização da maconha. O disco é o primeiro de uma trilogia a ser lançada este ano, que se completa com um CD de rap com a Sagrada Família e MPBC atra, em que ele, hum, revisita clássicos como Manhã, de Dorival Caymmi: “Tira o meu calção de banho/ vem pra cama pra mamar/ e o meu pau ficou deste tamanho/ Não deu nem pra acreditar/ …/ É bom, uma mamada de manhã/Halls com sabor de hortelã/ Pra relaxar dá dois no can/ Num natural de Amsterdã.” Entendeu?

Matéria publicada na edição 08, outubro de 2012

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