Excessos e pieguices

Ao tentar retratar a artista Maria Martins, documentário tira vantagem da qualidade de sua produção e curiosa história pessoal

Luana Fortes

N° Edição: 37

Publicado em: 06/01/2019

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

A atriz Lucia Romano lê cartas de autoria de Maria Martins, sentada em cenário elaborado com registros de obras da artista (Foto: Divulgação)

Um documentário que propõe retratar a vida e a obra de Maria Martins esbarra num entrave. Como falar sobre o romance da artista com Marcel Duchamp sem parecer fofoca? O desafio dos diretores Francisco C. Martins e Elisa Gomes em Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos era justamente falar sobre a artista sem deixar que ela caísse em títulos como “amante de Duchamp”, ou “embaixatriz, esposa de Carlos Martins”. No entanto, as entrevistas realizadas no filme, com pessoas como seus familiares, o curador Paulo Herkenhoff e o diretor do Museu de Arte da Virgínia (EUA), Michael Taylor, ficam mais instigantes conforme se aproximam da vida pessoal e amorosa de Maria. O filme falhou em contrabalancear produção artística vs. intimidade.

Considerando sua obra, que muito lidava com formas livres e orgânicas apesar de figurativas, a rigidez com que o documentário exibe cada trabalho provoca desarmonia. Fundos excessivamente brancos acompanhados de filmagens hiperpoderosas fazem parecer que nem ao ver uma escultura à sua frente seria possível enxergar tamanha riqueza de detalhes. A trilha sonora, uma espécie de clichê do jazz-música-de-elevador, completa o conjunto e adere ao requinte excessivo.

Cartas e entrevistas de autoria de Maria ou Duchamp são lidas no decorrer do filme pelos atores Lucia Romano e Celso Frateschi, enquanto ambos sentam em cenários elaborados com registros de trabalhos da artista. Certas vezes olham para o papel em suas mãos, outras, para o próprio espectador. Mas o que deveria conferir um elo de ligação com o público escorre por tons teatrais e dramáticos. Ouvem-se, assim, as respostas de Maria Martins a Clarice Lispector, que soam como pieguices.

Não fosse a qualidade da produção da artista e o sintoma contemporâneo de se interessar pela vida pessoal de qualquer um, Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos somente deixaria a desejar. Mas, já que isso é dado de bandeja aos diretores, o mérito do documentário é escolher um assunto que intriga e entretém.

Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos (2017) Direção – Francisco C. Martins e Elisa Gomes Entrevistas – Malu Mader. Atores – Lucia Romano, Celso Frateschi, 81 minutos, a partir de novembro

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