Exercícios experimentais de liberdade

O programa de residências Labverde mistura arte, natureza e ciência em diálogo com a floresta

Felipe Stoffa

N° Edição: 33

Publicado em: 02/02/2017

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Expedição pela Floresta Amazônica durante a edição de 2016 do programa Labverde, que contou com 18 artistas selecionados (Fotos: Cortesia Marcelo Moscheta)

Mario Pedrosa foi um pensador que voltou sua atuação para ouvir, observar e entrelaçar escolas e visões de arte dissonantes. Nos anos 1960, ao perceber que a crítica formalista não daria conta do que despontava no Brasil, cultivou a ideia da arte como “exercício experimental da liberdade”. O crítico Lorenzo Mammi, organizador do volume Arte: Ensaios (Cosac Naify, 2015), pontua que o conceito não chegou a ser plenamente explicitado, dado que, com o AI-5 e o exílio, Pedrosa foi levado a afastar-se da atividade crítica militante. O exercício experimental da liberdade permaneceria, então, como um conceito extremamente promissor (mas não inteiramente desenvolvido), que inspirou, nas décadas seguintes, novas gerações de críticos, artistas, intelectuais e leitores. No campo da pedagogia de arte, essa semente parece fertilizar hoje projetos inovadores como o programa Labverde, na Amazônia.

Labverde
A partir de um rigoroso estudo sobre diferentes modelos de residências ao redor do mundo, o programa Labverde nasceu de uma parceria entre o coletivo Manifesta Arte e Cultura e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Baseada nas propostas de microrresidências e com uma metodologia que envolve imersão na floresta e diálogos com distintos saberes, o projeto procura desenvolver e instigar processos a partir de um forte embate pedagógico. A primeira edição contou com mais de 160 inscrições. Os artistas Marcelo Moscheta, Lívia Pasqual, Simone Fontana Reis, Thiago Rocha Pitta e Rodrigo Braga experimentaram a viagem. “Não estamos voltados para a produção de obras, como acontece nas Residências convencionais. Queremos amadurecer o processo criativo dos artistas, criando um ambiente próspero para investigação, experimentação e formação em rede”, diz à seLecT Lilian Fraiji, idealizadora e coordenadora do programa.

Fotografia de Marcelo Moscheta, integrante da edição de 2016 do Labverde

Fotografia de Marcelo Moscheta, integrante da edição de 2016 do Labverde

 

A ideia é estimular o contato e a relação com a natureza e o homem. Durante dez dias, os artistas permanecem imersos na Amazônia, na maior floresta tropical do mundo, vivenciando o local e uma rotina de palestras e seminários mediados por especialistas nas áreas de humanidades, biologia, artes, ecologia e ciências naturais. São também propostas caminhadas e discussões coletivas sobre os processos de trabalho. Por ser um projeto recente, seu conteúdo teórico ainda está sendo testado e aprimorado para conseguir oferecer aos artistas a liberdade de investigação necessária em diálogo com as rigorosas etapas de formação. “Na terceira edição, que acontecerá em julho de 2017, estamos programando uma agenda mais equilibrada, com momentos de discussão de conteúdos, atividades em conjunto e mais livres”, confirma Fraiji, entendendo a necessidade do ócio para a reflexão criativa. Desfazer o mito romântico da Floresta Amazônica é também um objetivo do projeto. “Queremos promover discursos contextualizados e condizentes com os conflitos reais que abarcam a região”, completa.

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