Existe crítica de arte hoje no Brasil?

Publicado em: 31/07/2015

Categoria: Fogo Cruzado, Reportagem

Fala-se muito na efemeridade das publicações especializadas em arte e na evasão do espaço dedicado à crítica nos periódicos de grande circulação no Brasil. Há motivos para o alarme? Agentes dos sistemas artístico e editorial brasileiros discutem o estado da crítica de arte hoje no País.

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Legenda: Rodrigo Moura (Foto: Daniela Paoliello)

Rodrigo Moura 

Diretor artístico do Instituto Inhotim

Não haver crítica de arte no Brasil seria um desastre, na hipótese de que seja verdade. A crítica é um componente fundamental do sistema das artes tal como o conhecemos e, portanto, me parece que sua contribuição será sempre da maior importância. Ela é o que garante que o sistema seja criticado de dentro e que as ideias circulem também para além das trocas. Se há decadência na crítica militante, ela pode ser atribuída parcialmente à falência dos projetos editoriais da grande imprensa. Para reparar isso, seria necessário criar mecanismos de estímulo à crítica, por exemplo, exigindo que as pessoas do meio de arte leiam mais. Será que isso é pedir demais?

Marcos Augusto Gonçalves 

Jornalista, editor do caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo

A crítica de arte certamente não acabou, mas tem passado por transformações. No Brasil, onde as instituições e as condições gerais são mais precárias, vê-se que são crescentes as dificuldades para um crítico exercer sua atividade de maneira digna e independente – o que requer meios materiais condizentes. Os jornais, como se sabe, enfrentam uma crise estrutural. Muitos desapareceram e os que permanecem dedicam pouco espaço à crítica de mais fôlego. O próprio leitor, em meio à dispersão midiática, tende a impor uma demanda por informações mais rápidas e pragmáticas, voltadas para a orientação do consumo, do tipo “vale a pena ou não eu sair de casa para ver isso?”. Em países mais ricos, como os EUA, ainda subsiste uma crítica importante na imprensa, que pode ser considerada ruim ou boa, mas exerce uma função. Os grandes jornais, como The New York Times e Los Angeles Times, publicam textos críticos sobre os principais eventos do circuito, e há revistas e blogs especializados. Outro espaço tradicional da crítica é o meio universitário. Aqui, de certa forma, o ambiente é mais propício do que o da imprensa, mas há outros problemas. A universidade tende a ser refratária ao que identifica como cultura de “mercado” e parte da produção acadêmica é cifrada e voltada para o público interno. Não circula como poderia e acaba em muitos casos sendo estéril. Uma tendência que se consolidou nos últimos anos e ganhou força no Brasil foi a transformação do crítico em curador. A curadoria não deixa de ser uma forma de crítica ao propor uma seleção, um recorte, uma reflexão. Mas, apesar dessa afinidade, não é uma instância crítica propriamente – nem tem o distanciamento necessário para isso.

Jochen Volz 

Curador da 32ª Bienal de São Paulo

Existe, mas a questão é onde e de que forma ela ocupa um lugar. Os jornais brasileiros priorizam matérias sobre restaurantes e viagens em vez de resenhas sobre artes visuais, literatura, teatro e dança. A crítica costumava ser reconhecida como uma forma literária autônoma, introduzindo análises regulares como um pilar da cultura, para um vasto círculo de leitores. A crítica séria ocupa hoje um espaço dedicado a circuitos específicos e mais exclusivos. Isso não é bom, porque a arte não pode se distanciar da sociedade, e a crítica também não pode se separar da educação geral.

Celso Fioravante 

Crítico e editor do Mapa das Artes

A crítica de arte deixou de existir no Brasil há algumas décadas, desde que o mercado começou a assumir o lugar dos museus, das universidades, dos jornais… A crítica de arte pode até voltar a existir, desde que caiba em 140 toques ou possa ser resumida em uma carinha amarela com um sorriso.

Patricia Canetti 

Artista e editora do site Canal Contemporâneo

É comum ouvirmos a afirmação de que não existe espaço editorial para a crítica de arte no Brasil. Entretanto, percebemos que o jornalismo independente criou seu espaço na internet brasileira, assim como ocorre com a crítica de cinema. Mas o mesmo não ocorreu com a crítica de arte. O atual curador do Instituto Tomie Ohtake, Philip Larratt-Smith, afirmou em matéria na Folha que “não existe nenhum artista fora do mercado, hoje”. Seria então possível afirmar que não existe nenhum crítico de arte fora do mercado, hoje? E, se assim for, qual seria o espaço de ação e a relevância para a crítica de arte atualmente?

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Legenda: Charles Cosac. (Foto: Bob Wolfenson)

Charles Cosac 

Fundador da editora Cosac Naify

Naturalmente, eu e a editora já tivemos inúmeras experiências de trabalhar com vários críticos de arte brasileiros de grande envergadura aqui e no mundo, tais quais Rodrigo Naves, Ferreira Gullar, Paulo Venâncio Filho, Angélica de Moraes, Lorenzo Mammì e Luiz Camillo Osorio, entre outros. Também trabalhei com críticos estrangeiros íntimos da cultura visual do Brasil – esses foram Guy Brett e Carlos Basualdo. Na última década, os canais digitais e físicos aumentaram enormemente o espaço para a crítica, outrora restrito às insuficientes colunas dos jornais diários. Periódicos e afins, no passado, poucos e de circulação limitada, atualmente podem ser encontrados ou até mesmo lidos por toda parte. Saliento também os inúmeros cursos de história e teoria das artes visuais que nascem em diversos departamentos de universidades, e mesmo independentes dessas (como o curso de História da Arte de Rodrigo Naves, por exemplo), que não só refletem o aumento de leitores como também o de futuros autores/críticos de arte. Vejo que, no Brasil, a crítica de arte vem se especializando e se proliferando, assim como o próprio interesse do brasileiro pela nossa arte e pela arte em geral. O momento não poderia ser mais propício.

Anna Maria Maiolino 

Artista visual

Eu me indago o que motivou essa pergunta. Como me questionava quando me era perguntado nos anos 1960: a pintura acabou? E eu não tinha respostas absolutas, como falar de arte de forma categórica? Quando, justamente, é nesse território que o homem pode usufruir da sua máxima potência como criador e colocar nele suas diferenças. Um crítico sincero é também um artista, portanto, ele também goza desse privilégio. Por outro lado, o pensamento filosófico é vivo no Brasil e, quando ele se expande para a crítica de arte, torna esses os melhores momentos. Como em todas as disciplinas, temos altos e baixos.

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