Exposição-imagem

Visitas mediadas pelo celular e visualização de arte pela internet inspiraram o uso do chroma key na mostra Hábito/Habitante

Leandro Muniz

Publicado em: 14/06/2021

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

O tempo e o sono vazio, 2000, de Ernesto Neto, em EAV - Mostra HábitoHabitante (Foto: Alice Loureiro)

Sobre o chão e as paredes pintados de chroma key, fotografias de intervenções urbanas, esculturas que evocam elementos arquitetônicos e fragmentos de cartazes lambe-lambe. Em outra sala, o mesmo verde ácido domina o espaço destinado a uma programação de vídeo de mais de três horas, que também é reproduzida em um site.

Há muitos núcleos de questões na exposição Hábito/Habitante, nas Cavalariças do Parque Lage, com curadoria de Ulisses Carrilho, diretor da Escola de Artes Visuais. A mostra foi pensada para responder ao 27º Congresso Mundial de Arquitetos, este ano sediado no Rio, e aberta no dia dos trabalhadores. O título é baseado na obra homônima da artista Martha Araújo, de 1985, e a maior parte dos artistas participantes foram ou são professores e alunos da casa, como Anna Bella Geiger e Ricardo Basbaum, mas esta não é uma regra. Nas possíveis relações entre as obras, uma fotografia de Ernesto Neto e um biombo de Manoela Medeiros que têm o mesmo branco e organicidade; fotografias de Diambe Silva e Ronald Duarte registram ações com fogo no espaço público, propondo um alinhamento histórico entre esses artistas; um espelho de grandes dimensões tem impressa uma selfie de Aleta Valente, colocada próxima às xerox/performances de Hudinilson Jr..

Mas o chroma key é o grande protagonista da exposição. A intervenção cromática modifica a percepção das obras e esta pintura parece mais próxima da atividade artística, com seus gestos inaugurais, do que da orquestração própria à prática curatorial.

“A mostra pretende atuar como um convite à imaginação coletiva: do cubo branco ao fundo infinito, como expandir e renegociar nossa própria ideia de coletividade?”, escreve o curador. Se a diversidade de questões — coletividade, arquitetura, o próprio chroma key, etc — perde em síntese e articulação entre as partes, o verde cintilante parece um sintoma sobre os modos de ver e expor arte hoje. Também vale mencionar que o espaço das Cavalariças não é exatamente um cubo branco, considerando a série de informações arquitetônicas, visuais e históricas presentes naquele lugar.

Habito Habitante, 1985, de Martha Araujo (Foto: Divulgação)

Cubo verde
O chroma key cria uma percepção virtualizada do espaço, o que desnaturaliza o hábito de ver exposições fazendo fotos antes mesmo do olhar direto. Mas em que medida o fundo infinito de fato radicaliza essa experiência, de modo a expor tanto os aspectos regressivos quanto inovadores dessa forma de visualização?

Uma obra que sintetiza a tensão entre matéria e imagem é a série Projeto (2018), de Vanderlei Lopes. Nesse trabalho, o artista funde em bronze folhas de papel amassado, que depois pinta com guache, embaralhando a percepção do material, o que se torna ainda mais enfático quando visto sobre o chroma key. Outras obras do artista na exposição, que representam água jorrando ou tecidos, não operam com a mesma força naquele contexto cromático.

Também há uma série de ativações ao longo da mostra que acontecem no espaço físico e on-line. Em uma delas, Felipe Abdala morde um dos cantos da sala até o desgaste, exibindo novamente o branco da parede. No fundo infinito, o artista reproduz sua própria imagem durante a performance, gerando um loop entre ação real e virtual.

A diversidade de programas, questões e propostas em Hábito/Habitante parece própria ao contexto de uma escola de arte, em que se prioriza a experimentação sobre a síntese ou a pesquisa. O peso de alguns dos temas e o próprio uso do chroma key, no entanto, poderiam ser mais aprofundados, gerando uma intervenção mais contundente e reflexiva.

Serviço
Hábito/Habitante
Exposição coletiva, até 28/6, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, R. Jardim Botânico, 414, Rio de Janeiro | eavparquelage.rj.gov.br/pagina-inicial/habito-habitante/

Ernesto Neto, O tempo e o sono vazio, 2000 (Foto: Renan Lima)

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