Exu abre caminhos: arte, política e escolas de samba

O cortejo da Grande Rio foi revolucionário não só esteticamente, mas ao marcar uma perspectiva decolonial 

Leonardo Antan

Publicado em: 09/05/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Ator Demerson D’alvaro interpreta Exu na comissão de frente da Grande Rio, coreografada pelo casal Hélio e Beth Bejani (Foto: Vítor Melo)

Em 2022, Exu venceu. No centro da maior manifestação artístico-cultural do país, estava o orixá mais demonizado pela colonialidade europeia. O orixá mensageiro abriu os caminhos para o inédito título dos Acadêmicos do Grande Rio, sendo materializado no pivô da Comissão de Frente da agremiação, coreografada pelos bailarinos Hélio e Beth Bejani. A imagem do ator Demerson D’Álvaro foi estampada nos principais veículos de imprensa, se tornando um emblema da discussão sobre a intolerância e racismo religioso em nível nacional. Tudo isso pautado por um desfile de escola de samba, uma manifestação também marginalizada pela cultura e pela arte brasileira. 

Apesar de reunirem várias linguagens artísticas em um único cortejo, as escolas de samba muitas vezes não são compreendidas como espetáculo produtor de múltiplos saberes artísticos, unindo produção visual, musical, literária, cênica e performática. A imagem de Exu, interpretada pelo ator na abertura do desfile, é apenas um dos exemplos da potência do que pode ser entendido como uma “linguagem artística” do carnaval brasileiro e da valorização e reconhecimento dos artistas que realizam anualmente as escolas de samba. 

Responsáveis pela idealização e materialização visual do cortejo, a dupla de carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad tem estabelecido um estreito contato entre a sua produção com as artes institucionalizadas (as que ocorrem em museus e galerias, não na Sapucaí). Já realizaram um enredo inspirado na poética de Bispo do Rosário, em 2018, em sintonia com exposições que aconteceram em centros culturais e museus na cidade do Rio de Janeiro, mostrando um trânsito ainda raro entre o carnaval e as instituições.

Portanto, ao proporem o enredo Fala Majeté! As 7 Chaves de Exú, Bora e Haddad se colocaram em diálogo com múltiplas potências sociais e artistas. Lançado em um dia 13 de junho, dia comemorativo do orixá, o enredo selou um encantamento da dupla com a divindade, que já havia sido citada nos três desfiles anteriores da Grande Rio. Este ano, o casamento se consagrou, ao ser concedido à escola do município de Duque de Caixas seu sonhado primeiro título.

A apresentação foi revolucionária em diferentes sentidos: tanto do ponto de vista artístico, musical e plástico, quanto pela relevância do discurso apresentado, que consolida o papel que as escolas de sambas representam em relação às sociedades em que estão inseridas. 

Enredos negros e plataformas políticas
O enredo da Grande Rio foi apenas um dentre um universo gigante de narrativas que versavam sobre a cultura afro-brasileira no Carnaval de 2022, chamada genericamente de “enredo afro”. Dentre as dozes agremiações do Grupo Especial carioca, oito escolas apresentaram propostas dentro desta temática, em narrativas partindo de homenagens a figuras históricas e ícones pretos da contemporaneidade, passando pela religiosidade e chegando a propostas para repensar a diáspora atlântica.

Desfile Grande Rio no carnaval 2022

Algumas dessas narrativas foram anunciadas entre maio e junho de 2020, no calor das discussões sobre o racismo estrutural suscitadas pelo assassinato de George Floyd, e antes que o Carnaval 2021 fosse cancelado no período mais crítico da pandemia da Covid-19. Como muitas outras vezes na história, as escolas de samba se mostraram antenadas ao cenário social do Brasil e do mundo, firmando-se como um espaço privilegiado de debate por seu alcance político. 

Escolas de samba são uma plataforma política desde que surgiram, em 1932. São fruto da iniciativa de populações negras e marginalizadas para buscar restabelecer laços perdidos pela diáspora africana, num contexto de pós-abolição da escravatura. Desde seu surgimento, as agremiações sempre negociaram diretamente com o poder público. 

Os carnavais de crítica social e política não surgiram nos últimos anos, como nos famosos desfiles do Paraíso da Tuiuti, em 2018, e da Estação Primeira de Mangueira, em 2019. Na década de 1980, os carnavais da Caprichosos de Pilares e do artista Luiz Fernando Reis já traziam pautas da época, como as Diretas Já e outros debates urgentes. Em 1989, um dos maiores protestos que a arte brasileira já viu aconteceu na Avenida: o lendário Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, de Joãosinho Trinta.

Curadorias de imagens
O povo da rua, que tomou conta da Sapucaí em 1989, é uma das referências de Haddad e Bora para o desfile da Grande Rio em 2022. Na traseira da quarta alegoria, que representava as manifestações de Exu na folia brasileira, um mural realizado pelo artista Guilherme Kid reinterpretou uma das palavras de ordem da obra de Joãosinho Trinta. Este é um dos elementos para pensar o trabalho da dupla de artistas como um processo criativo que dialoga com a curadoria. 

Mural de Guilherme Kid na traseira da quarta alegoria da Grande Rio

A cada desfile, a dupla articula um repertório de imagens e artistas que serão referenciados para contar a história pretendida naquele enredo. Eles já fizeram referências e citações a Ayrson Heráclito, Nelson Leirner, Mulambö, Basquiat e Tarsila do Amaral. Tudo isso é fruto de criação coletiva com o pesquisador Vinícius Natal, o designer Antônio Gonzaga e o diálogo com muitos outros artistas. Foi por meio dessa pluralidade que o enredo Fala Majeté! As Sete Chaves de Exu foi construído. A narrativa propôs múltiplas interpretações de Exu, pensando o orixá em sua perspectiva filosófica e dividindo-se em sete chaves interpretativas: diáspora, luta negra, feira e mercados, malandragem e vida noturna, Carnaval de rua, as formas de artes e personagens marginalizados pela sociedade. 

Na última alegoria, entrou em cena uma figura síntese da temática em elo direto  com a comunidade de Caxias: Estamira, trabalhadora do aterro sanitário de Gramacho. A cada enredo que desenvolve, a dupla conhecida como “Boraddad” demonstra o entendimento de que criar um desfile carnavalesco não é uma tarefa parnasiana, mas precisa se conectar com uma entidade cultural que possui uma identidade própria e um corpo de componentes. Foi assim que encontraram o fio condutor que ligava Exu à cidade de Duque de Caxias em Estamira, protagonista do documentário dirigido por Marcos Prado, em 2006.

Potência e transformação
O “lixão” onde viveu Estamira foi um elemento visual que marcou a estética cíclica do cortejo. O tempo de Exu não tem início nem fim, e assim a narrativa visual e musical tampouco teve. A letra, entoada por Evandro Malandro, não teve refrões de repetição, evocando ciclicamente  o início da obra, no verso “eu levo fé nesse povo que diz / boa noite, moça”. Assim foi feito também na estética que relacionava o tripé da Comissão de Frente e a última alegoria, ambos realizados com materiais de fantasias e esculturas de outros carnavais e restos encontrados na Cidade do Samba.

A reciclagem de materiais foi uma constante no cortejo, mostrando a potência e transformação do orixá mensageiro. O trabalho foi realizado por um grupo de alunos da Escola de Belas Artes da UFRJ, profissionais jovens que ambicionam trabalhar com a festa e encontraram na oportunidade uma porta de entrada para conhecer o universo dos barracões. Nesse sentido, o trabalho da Grande Rio se torna mais uma vez importante, agora pela formação de novos artistas para o Carnaval. 

Desfile Grande Rio no carnaval 2022

A estética acumuladora do cortejo criou um conjunto visual de alto nível, poucas vezes visto na história da festa. Brilhante e inspirado de ponta a ponta, vimos um conjunto de alegorias e fantasias bastante ousado e grandioso. Há na proposta de Boraddad, uma exacerbação da estética “barroca” da festa, com expoentes como Arlindo Rodrigues, Rosa Magalhães e Joãosinho Trinta. 

Nas alegorias, um primoroso e numeroso trabalho escultórico, realizado por Andrea Vieira e Marina Vergara, duas artistas formadas pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Com o acúmulo dos materiais empregados na construção das fantasias, se propunha uma quebra da estética clássica do Carnaval, uma linguagem visual hegemônica pautada em materiais tradicionais da festa, estabelecidos por esses carnavalescos supracitados. Tudo muito arrojado e com propostas visuais inovadoras. 

Exu nas escolas
O desfile da Grande Rio mostrou excelência nos vários elementos que constituem uma escola de samba, a chamada “linguagem carnavalesca”,  fruto da reunião de múltiplos discursos. Desde a performance da Comissão de Frente até a Bateria de mestre Fafá, assim como o mestre-sala e a porta-bandeira formado por Taciana Couto e Daniel Werneck, o cortejo da Grande Rio foi revolucionário. Uma apresentação histórica, tanto do ponto de vista artístico, como em termos simbólicos.  Falar de Exu foi um grito contra a intolerância religiosa às culturas afro-brasileiras. Uma mensagem potente, que chegou às arquibancadas, aos jornais, às revistas, às redes sociais. Virou notícia. 

Para o escritor e educador Luiz Rufino, a “pedagogia das encruzilhadas” propõe novos caminhos de percepção e entendimento do mundo, a partir de um olhar decolonial. Exu é uma das entidades mais atingidas pelo racismo religioso, então sua valorização marca antes de tudo uma nova perspectiva.

A encruzilhada e seu cruzo são a própria potência de Exu. São as possibilidades do encontro, da transformação e da coexistência. Exu é, portanto, não só espaço físico, mas lugar simbólico de fronteiras e potência de mundo. Conhecimentos ambivalentes e inacabados, não fruto de uma verdade absoluta (majoritariamente masculina e branca), mas de experiências periféricas que encruzam saberes. 

O desfile da Grande Rio é encruzilhada. É diáspora, corpo em transformação e metamorfose. A maior gira para Exu já realizada, um grito pela arte do Carnaval, pela arte negra e popular, é um grito contra o racismo e a intolerância. Um grito pelo país que ainda somos, pela Baixada Fluminense e por povos marginalizados. É o país que precisamos e queremos ser. Exu é potência.

Graças a uma Escola de Samba, em 2022, Exu venceu.  

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Leonardo Antan é historiador da arte, curador e escritor. Graduado e mestre em História da Arte pela UERJ, onde pesquisou a linguagem artística dos desfiles das escolas de samba. É editor do projeto multi-plataforma Carnavalize, que realiza exposições e eventos sobre a festa. 

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