Fábrica de museus

Enquanto franquias de museus celebridades são disputadas em diversas partes do mundo, a China posiciona-se como uma grande indústria de museus

Andrea Lombardi

Publicado em: 10/02/2016

Categoria: Colunas Móveis

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Enquanto franquias de museus celebridades são disputadas em diversas partes do mundo, a China posiciona-se como uma grande indústria de museus. Grandes, pequenos, públicos e privados, de Pequim a Hong Kong, e até nas pequenas províncias, eles proliferam. De acordo com a State Administration of Cultural Heritage da China, os números não param. Até no fim de 2014, o país contabilizava 4.510 museus e, em 2015, cerca de 400 foram criados, sem nenhum sinal de desaceleração.

A rápida e cada vez mais frequente construção de edifícios pautados pelo gigantismo e assinados por grandes grifes da arquitetura seria impensável no Ocidente – especialmente no contexto da América Latina e do Brasil, onde a maioria dos museus habita prédios que não foram construídos para esse fim. Mas a situação é rotineira na China, onde, desde 1905, o museu vem sendo construído como símbolo de civilização e instrumento cultural.

Um tanto complexo, esse símbolo sempre funcionou como sinal de modernidade e desenvolvimento econômico. Ampliação, reforma e construção de novos alicerces arquitetônicos são, naquele país, acontecimentos midiáticos que contribuem para a geração de novos centros urbanos e para o aumento direto ou indireto do capital circulante.

O primeiro indicativo de aceleração na construção de espaços museológicos ocorreu em 1949, quando o Partido Comunista assumiu o controle. A China, então, tinha apenas 25 museus. O rápido processo de crescimento e urbanização que acompanhou o período de reforma e abertura política, após 1978, instaurou um boom, que fez muito mais do que simplesmente substituir o que foi perdido e queimado durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Com o slogan “Cada município deve ter um museu e cada província uma sala de exposição”, o governo comunista criou mil museus, até o fim de 1980. Durante esse processo de edificação, em que o país experimentou a reconstrução de sua história, também veio à tona uma confusão de identidade nacional.

A abertura de museus privados é outro fenômeno totalmente novo. Até o fim de 2014 são contabilizados 1,5 mil museus privados – 535 ainda não registrados oficialmente. As políticas emitidas pelos governos centrais e locais oferecem benefícios aos museus privados em uso de terra, apoio financeiro e aquisição de coleções. O último dado divulgado pelo Ministério das Finanças da China, em 2013, informa que foram destinados 100 milhões de yuans (aproximadamente, US$ 16,4 milhões) em apoio aos museus privados. Mas sem apresentar uma gestão administrativa experiente, é difícil evitar que museus privados sejam glorificados como caixas-fortes faraônicas, sem um propósito maior do que apenas ostentar o poder individual.

Levando-se em conta o novo mercado de arte na China e o fato de o país ter a segunda maior economia mundial, a perspectiva de novos museus parece interminável. Como eles vão se desenvolver, ainda é uma incógnita. Este é um momento crítico para avaliar o museu e seu potencial papel na China contemporânea. A definição do que deva ser um museu não é fácil. Mas é simples definir o que ele não pode ser. Não se deve exibir a cultura como troféu, nem como mero orgulho da identidade nacional.

Andra Lombardi é pesquisadora e mestranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com enfoque em novas mídias em museus. Trabalha no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

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