Faça como as árvores

Festival Arte Serrinha chega à 20ª edição com exposição no Centro Cultural de Bragança, obras ao ar livre, e vasta programação

Juliana Monachesi

Publicado em: 19/07/2022

Categoria: Arte e Educação, Da Hora, Destaque

ao vento (2022), instalação de Laura Vinci no Parque Natural Arte Serrinha [Foto: Divulgação]

O resultado de quatro expedições pelo Brasil profundo, empreendida por um grupo multidisciplinar de dez artistas reunido por Fabio Delduque, diretor do Festival Arte Serrinha, está por toda parte na edição 2022 do evento: do Centro Cultural em Bragança Paulista até o Parque Natural da Serrinha, as bandeiras brancas alongadas de Laura Vinci, as fotografias em grandes dimensões de Luiz Braga, e as artes do corpo de Haroldo Alves imantam os caminhos de quem visita ou participa das oficinas e demais ações do festival.

Em sua 20ª edição, e celebrando a volta das atividades presenciais pós-pandemia, o Festival Arte Serrinha realiza pela segunda vez uma exposição no Centro Cultural Teatro Carlos Gomes, no centro de Bragança. O edifício, construído no final do século 19, abrigou, de 1927 a 1967, o Colégio Diocesano São Luiz e passou os 30 anos seguintes semi-abandonado, até ser tombado pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Bragança Paulista, em 1999. Demorou dez anos até a cidade conseguir contratar a restauração do edifício, em junho de 2010, mesmo mês em que foi seriamente danificado por um incêndio de grandes proporções. Mais outros dez anos se passaram até, em 2020, o centro cultural ser entregue à população. Na ocasião, prestes a completar 20 anos de existência, o festival concebeu para o espaço a mostra de aniversário, que ocorreu em outubro de 2021.

Vista da mostra Brasis – Expedição Serrinha [Foto: Divulgação]

A mostra Brasis – Expedição Serrinha marca a continuidade dos diálogos e parcerias entre o festival e o único museu de arte da cidade de Bragança, evidenciando como iniciativas culturais podem se fortalecer mutuamente e demarcando um novo capítulo na história da arte contemporânea no município do interior de São Paulo, a 90 km da capital. A exposição reúne obras da trupe, formada pelo maestro e pianista Benjamim Taubkin, o cineasta Beto Brant, o escritor Diógenes Moura, o designer e escultor Hugo França, a artista visual Laura Vinci, a coreógrafa Lú Brites, o fotógrafo Luiz Braga, a chef de cozinha Neka Menna Barreto, o estilista Ronaldo Fraga, além do próprio Delduque, que viajou junta nas quatro “expedições” retratadas, que têm em comum a pesquisa de regiões que traduzem os grandes ciclos econômicos do país: a Zona da Mata Sul (PE), com seus engenhos de cana-de-açúcar, a Ilha do Marajó (PA), com a história da borracha e dos vaqueiros marajoaras, a Serra da Moeda (MG), marcada pela mineração e exploração do ouro, e finalmente a Serrinha (SP), reconhecida região cafeeira.

As “expedições” foram feitas ao longo de quatro anos, informa Fabio Delduque, e tiveram como disparador os convites que o diretor do festival recebia para dar consultorias em outras regiões do país sobre a criação de um evento que conecta arte e natureza, considerado case de sucesso após mais de uma década (as viagens aconteceram entre 2015 e 2018) de realização ininterrupta. “Pensei em transformar esses convites em um projeto de pesquisa, envolvendo outros participantes e também os criadores e agentes culturais de cada local a que fossemos”, explica Delduque, que também assina a curadoria de Brasis – Expedição Serrinha. Foi assim que a trupe se formou e pensou oficinas e outras ações para acontecerem nas localidades de Pernambuco, Pará e Minas Gerais. O percurso dos dez artistas e agregados está narrado em dois momentos da exposição: no documentário Modo Ave Expedição Serrinha (2022), dirigido por Beto Brant, e no painel de diários de viagem, no final da última sala expositiva, que reproduz páginas dos cadernos dos participantes, correspondência etc. 

Saindo do centro de Bragança, num percurso que leva cerca de 15 minutos no sentido da Rodovia Fernão Dias, que delimita a fronteira entre a cidade e o bairro rural da Serrinha, chega-se à fazenda onde ocorre anualmente, sempre em julho, o Festival Arte Serrinha. No dia em que a reportagem da seLecT visitou o festival, Dudi Maia Rosa comentava os trabalhos dos participantes da sua oficina de aquarela e desenho no ateliê principal, os integrantes da jornada interior OcaTaperaTerreiro II, proposta por Bené Fonteles e Lucina Carvalho, se adornavam com folhas e galhos de árvores para o encerramento da oficina, e ao cair da tarde, o DJ Nuts testava o som das pick-ups em frente ao Galpão Busca Vida.

Além da farta programação do festival, o visitante tem um museu a céu aberto para percorrer: inaugurado no final de 2021, o Parque Natural Arte Serrinha tem obras de Ana Paula Oliveira, Stela Barbieri, Jean Paul Ganem, Eduardo Srur, coletivo BijaRi, Michelangelo Pistoletto, e Fernando Limberger entre seus destaques. Este ano, obras de Laura Vinci, Luiz Braga, e Mauricio Adinolfi se somaram ao acervo impermanente do parque. “Não temos a preocupação de conservar as obras exatamente como eram quando foram instaladas. Gostamos de pensar esse espaço como um lugar experimental para os artistas, em que cada obra vai ter o tempo de duração que precisar ter”, afirma Fabio Delduque em entrevista à seLecT. Todo o terreno da fazenda, que pertencia ao bisavô de Delduque, hoje é área de reflorestamento e reserva ecológica. A fazenda já foi plantação de café, já sediou olaria, mas se reorientou para as urgências do mundo atual na quarta geração da família. 

Oficina do Festival Arte Serrinha [Foto: Fabio Delduque]

Do alto do mirante do Parque Natural Arte Serrinha, com vista para a represa do Rio Jaguari, que demarca a região de mananciais no início da Serra da Mantiqueira, Delduque concluiu a visita contando que os povos originários daquele local eram os Maronomi, e apontando uma montanha, chamada Guaripocaba, onde foram encontradas gravações rupestres que remontam 10 mil anos AP. Ao cair da tarde, dezenas de artistas, visitantes e participantes do festival se reúnem em torno de Bené Fonteles, que faz um recital do álbum que gravou em 2019 com a cantora e compositora Lucina Carvalho, Canções para Pescar Almas. Ainda paramentado com a pintura indígena do encerramento de sua oficina na Oca Xinguana da Fazenda Serrinha, Bené embalou com a música Dê Flor, seu refrão cantado pela plateia em coro, com coreografia e tudo. “Poética / Eu sempre tive uma queda por ética / Estética / Na palavra ela vem embutida / imbuída, sofrida de amor / E quando estiver estressado / Faça como uma árvore / Dê flor!”

 

Festival da Serrinha esta semana:

Turista Aprendiz
Ronaldo Fraga | 18 a 23 de julho

Expressão Corporal
Haroldo Alves | 18 a 23 de julho

Residência Musical
Benjamin Taubkin, Guilherme Kastrupp, Paulo Santos, Carol d’Ávila e Meno del Picchia | 19 a 23 de julho

Imersão Criativa na Fotografia
Luiz Braga | 20 a 23 de julho

Filme Expedição Serrinha Musicado Ao Vivo
Filme de Beto Brant no Ateliê Fazenda Serrinha | 22 de julho

Desfile na exposição Brasis – Expedição Serrinha (encerramento oficinas de Ronaldo Fraga e Haroldo Alves) | 23 de julho, às 16h

Bala Desejo + Dj Dolores – show no Galpão Busca Vida | 23 de julho

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