Face pública de um acervo biográfico

Com peças do século 2º a.C. até os anos 1970, a Coleção Ivani e Jorge Yunes é profissionalizada pela nova geração de colecionadores

Paula Alzugaray
Retrato do Príncipe Regente João VI, Giuseppe Troni (1738-1818), no núcleo Brasil Império da coleção (Fotos: Cortesia Coleção Ivani e Jorge Yunes)

O primeiro museu de arte da história nasceu de uma coleção particular. Mais precisamente do gabinete de curiosidades do colecionador Elias Ashmole, doado no século 17 para a Universidade de Oxford, dando origem ao Ashmolean Museum (1683) de arte e arqueologia. Desde então, as listas de inventários e coleções pessoais que viraram museus só aumentaram, a exemplo do Ermitage de São Petersburgo (1764) e do Museu de História Natural de Paris (1793), formado a partir do jardim medicinal do rei Luís XIII. No Brasil, essa história não se repetiu, mas, por seu caráter historiográfico, uma coleção que vem hoje a público talvez seja o mais próximo que já se chegou por aqui de um museu no sentido “Metropolitan Museum” do termo.

Com um arco cronológico que vai do século 2º a.C. até a década de 1970, a Coleção Ivani e Jorge Yunes, de São Paulo, abarca os cinco continentes e está dividida em 20 núcleos históricos. Até o início de 2018, guardava um caráter bastante reservado e dava-se a conhecer apenas a um núcleo restrito de especialistas. “Profissionalizar a coleção chamando 20 pesquisadores de diversas áreas é, para mim, um grande diferencial, afinal, não quero uma catalogação quantitativa, e sim qualitativa”, diz à seLecT a herdeira Beatriz Yunes Guarita, diretora-administrativa da Pinacoteca do Estado de São Paulo, patrona do MAM-SP e do Masp, representante brasileira do ciclo internacional de amigos do Centre Pompidou, de Paris, e gestora da coleção desde o falecimento de Jorge Yunes, seu pai, em setembro de 2017.

Sob a tutela de Beatriz Yunes, definiu-se um recorte de 30 mil obras para o início dos trabalhos de catalogação, pesquisa, conservação e restauro, de acordo com padrões museológicos internacionais definidos pelos ICOM (International Council of Museums, da Unesco). “Na catalogação, usamos, por exemplo, um mesmo modelo de ficha catalográfica. Isso possibilita que todas as peças, produzidas ao longo de 22 séculos, conversem entre si. Desde a urna funerária asiática até uma tela de Bandeira”, diz Francis Lee, diretora do acervo.

Embora a Coleção Ivani e Jorge Yunes (CIJY) não seja aberta ao público, o acesso é concedido a pesquisadores e a comunicação com o público dá-se em várias frentes. A primeira, por meio de empréstimos de obras a exposições. Embora o casal Yunes já emprestasse, a prática intensificou-se. Em 2018, sob a guarda de Beatriz, foram cedidas pinturas, desenhos, marfins, talhas barrocas, revistas e catálogos para 15 exposições em diferentes instituições brasileiras, entre elas um Ismael Nery para a mostra Alucinações Parciais, no Instituto Tomie Ohtake. Outras vias de respiração são publicações em produção e o projeto Caixa de Pandora, organizado por Camila Yunes Guarita, filha de Beatriz, que em maio colocou trabalhos do artista carioca Barrão em diálogo com o acervo e em setembro expõe Ana Luiza Dias Batista, em mostra paralela à 33ª Bienal de São Paulo. “Isso mostra a vontade da família de extroverter o acervo”, diz Francis Lee.

  • Sem Título (Duas Figuras), óleo sobre tela de Ismael Nery que foi cedido para a exposição Alucinações Parciais - Exposição-escola com Obras-Primas Modernas do Brasil e do Centre Pompidou
  • Mascara Epa Iorubá, da Nigéria
  • Ateliê do Artista (1883), de Rodolfo Amoedo, do núcleo Arte Acadêmica Brasileira
  • Beata Beatrice d'Este em Êxtase da Sagrada Família (entre 1540 e 1560), óleo sobre tela de pintor do círculo provinciano de Parmigiano
  • Tela identificada no catalogo raisonée de Tarsila do Amaral como "primeiro óleo pintado por Tarsila de seu ateliê da Rua Vitória, em São Paulo"

Gabinete de curiosidades
Ao trabalhar com um acervo monumental, que não estava catalogado, a equipe de pesquisadores envolvida é frequentemente surpreendida por descobertas. É o caso de uma pintura de Tarsila do Amaral, de 1918, que representa a porta do ateliê da artista, onde se reunia o Grupo dos Cinco (a saber, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti e Tarsila). A obra está no catalogue raisonée de Tarsila, mas seu paradeiro era desconhecido.

Da pintora moderna a CIJY guarda ainda uma caixa de documentos raros, entre telegramas, fotografias e seu convite de casamento com Oswald de Andrade. Outra raridade é uma tela de Lasar Segall, de linguagem impressionista, que hoje se suspeita ter integrado a sua primeira individual em Campinas, em 1913, quando o artista lituano estava apenas de passagem pelo Brasil.

Em termos de Brasil, muitas surpresas ainda estão por vir, a julgar que a CIJY conta histórias do ponto de vista da arte colonial, Brasil Império, artistas viajantes, arte acadêmica, modernismo, Grupo Santa Helena e abstração lírica. Em termos de mundo, a Coleção é a própria Caixa de Pandora. De lá saem pinturas e esculturas da categoria Oldmaster, objetos art déco, art nouveau, mapas, peças sacras, etnografia africana e curiosidades como uma coleção de Netsukê, delicadas peças de quimonos japoneses, esculpidas em marfim.

Acervo biográfico
Walter Benjamin disse que, para o colecionador, cada coisa particular se converte em uma enciclopédia que contém toda a ciência de uma época. Há ainda as histórias das coleções dentro da Coleção. Imagine uma história do Brasil do século 20 contada a partir de uma coleção. Em cinco décadas de aquisições, o casal Yunes comprou lotes e

conjuntos diretamente de P.M. Bardi, Ciccilo Matarazzo e Yolanda Penteado. Do editor Adolpho Bloch comprou uma tela de Antonio Bandeira (entre as peças mais emprestadas da Coleção) e itens de tapeçaria portuguesa, entre outras obras que estavam dentro da Casa da Manchete.

A icônica casa da esquina da Rua Groenlândia com a Avenida Europa, na região dos Jardins, em São Paulo, que hoje abriga a CIJY, foi construída em 1937 pelo empresário e diplomata Horácio Lafer. Adquirida pelo diretor do Grupo Bloch no fim dos nos 1960, foi durante duas décadas sede da revista Manchete, em seus tempos áureos de semanal mais vendida do País. Perto dos anos 2000, após a falência da Bloch Editores, o imóvel foi adquirido por outro editor. 

Jorge Yunes foi proprietário da Companhia Editora Nacional, que havia pertencido a Monteiro Lobato nos anos 1920. Nos anos 1960, Yunes guinou para a produção de livros didáticos e tornou-se líder nesse mercado. Seria possível biografar o colecionador – e seu tempo – a partir de suas escolhas. Suas buscas e seus achados nos ajudam a traçar o seu perfil.

Foi de Ivani Yunes a iniciativa de formar uma biblioteca em suporte à coleção de arte. Ela formou um acervo bibliográfico de 2.500 títulos, com uma biblioteca de literatura brasileira, uma biblioteca de arte, uma biblioteca de livros raros e uma hemeroteca (coleção de jornais, revistas, periódicos e obras em série). “A biblioteca é o espelho da coleção”, diz Renata Rocco, diretora-geral de pesquisa e do núcleo Brasil Século 20. “Sobre qualquer item que estamos pesquisando, encontramos pelo menos um tomo.” Para uma família de editores, afinal, a formação de um acervo bibliográfico é algo de suma importância. 

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