Fala, Box Brown

Ramon Vitral

Publicado em: 27/11/2014

Categoria: Entrevista, Reportagem

Uma entrevista exclusiva com o novo expoente da HQ alternativa norte-americana

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Legenda: Excerto de André The Giant: Life and Legend, de Brian “Box Brown”

Fã de wrestling desde pequeno, o artista Box Brown juntou sua paixão pelo esporte com seu trabalho como autor de histórias em quadrinhos. Em André The Giant: Life And Legend (André O Gigante: A Vida e a Lenda, em tradução livre) ele conta a vida do lutador francês André René Roussimoff. A obra entrou na lista de mais vendidos do New York Times para livros ilustrados e foi aclamada por críticos de histórias em quadrinhos. Em entrevista exclusiva à Select, Brown contou sobre as origens do projeto, a dificuldade de expor a vida conturbada de seu biografado e as suas expectativas por uma edição brasileira da obra.

Na introdução do livro você conta como começou seu interesse por wrestling, mas quando você notou que o Andre poderia ser o protagonista de uma história em quadrinho?

No começo eu fazia apenas algumas histórias pequenas protagonizadas pelo Andre, mas quanto mais eu lia sobre ele, mais histórias eu descobria que queria transformar em quadrinhos. Uma hora eu acabei percebendo que isso poderia resultar em um livro inteiro.

É difícil saber o que é verdade e mentira no mundo do wrestling e na vida dos lutadores, até onde vai o personagem deles. Foi muito difícil encontrar uma versão do Andre que você acreditasse ser a mais real possível?

Foi difícil porque no mundo do wrestling as pessoas estão constantemente mentindo umas pras outras e engrandecendo suas histórias. Então precisei fazer uso do meu melhor julgamento para saber o que era real e o que era falso. Na verdade essas são as minhas impressões sobre o Andre a partir das minhas pesquisas. Alguém que tenha conhecido ele pessoalmente talvez tenha uma impressão diferente.

A sua intenção foi fazer um trabalho jornalístico?

Eu gosto de pensar o livro como jornalístico e acadêmico, mas eu também estava moldando uma história. Além disso, o conceito de verdade no mundo do wrestling é algo incompreensível. Mesmo nas auto-biografias dos lutadores, como nas de Hulk Hogan e Bret Hart, é impossível para os leitores saber o que é realmente verdade. O Hulk Holgan é um personagem e ele ainda está trabalhando e investindo no personagem de Hulk Hogan. Então mesmo que ele tenha escrito um manuscrito em primeira pessoa, é extremamente suspeita a veracidade do livro. Sou bastante influencidado por documentários. Os melhores documentários são imparciais, expõem a verdade e deixam a audiência chegar às suas próprias conclusões e foi isso que tentei fazer com livro.

A indústria que parece não ser tão popular quanto já foi. Isso procede? Você vê algum motivo pra isso?

Bem, houve alguns períodos de maior popularidade nos Estados Unidos. No meio dos anos 80, quando Hulk Hogan virou um nome presente na cultura mainstream, e também no final dos anos 90, quando The Rock e Stonecold Steve Austin eram populares. Acho que hoje a WWE (World Wrestling Federation Entertainment, principal promotora de eventos de wrestling no mundo) está estabelecida. Eles conseguem índices de audiência consistentes e maximizaram seus ganhos com marketing. Não vejo crescimento e a verdade é que ele não ocorre há anos. Quando você é uma empresa gigantesca e monolítica como a WWE, é impossível que outras companhias possam competir. Acho que isso realmente atrapalha o negócio em geral.

Recentemente houve um imenso debate no Brasil sobre a relação entre um biógrafo e seu biografado. O Andre teve uma vida muito polêmica. Em algum momento você ficou preocupado de estar expondo ainda mais a vida dele?

Sim, com certeza. Mas também senti que não mostrar alguns fatos não seria a coisa certa a fazer. Eu sabia sobre eles, então eles já haviam afetado o meu ponto de vista sobre o Andre. Falando especificamente sobre o Andre, acho que ele nunca foi visto como um ser humano pela maioria das pessoas. Ele sempre foi colocado à margem da sociedade e tinha dificuldade para interagir com outras pessoas da forma como qualquer um conseguiria. Acho que incluir suas falhas de personalidade permite que ele seja visto como um ser humano como todos nós. Todos nós temos falhas.

Antes de Andre The Giant você publicou muitos quadrinhos independentes. Como foi trabalhar com a First Second? Você já tinha o livro pronto quando eles optaram por lançar ou o trabalho foi conjunto desde o começo?

Eu tinha metade do livro pronto quando levei para a First Second. É incrível trabalhar com eles. Não me faltam adjetivos para elogiar o trabalho deles. A minha editora, Calista Brill, esteve aberta para me guiar sempre que precisei. E várias vezes eu acabava esquecendo que o livro é principalmente para pessoas que não necessariamente sabem sobre o mundo do wrestling profissional, então a Calista sempre me lembrava quando eu precisava explicar um pouco mais sobre esse universo.

O livro entrou na lista de bestsellers do New York Times e recebeu várias críticas positivas. Durante a produção do quadrinho você esperava essa repercussão?

De forma alguma. Eu nunca imaginei que receberia tantas coisas positivas. Fiquei maluco com o retorno. Recebo pelo menos uma mensagem sobre o livro todo dia. Tem sido uma jornada intensa. Minha experiência com quadrinhos antes dessa havia sido muito mais simples.

Você sabe se há alguma previsão de André ser lançado no Brasil?

Não sei! Mas é definitivamente possível. Vai sair em espanhol, italiano e francês, então se alguma editora brasileira ou portuguesa tiver interesse eu iria adorar. Sei que tenho alguns leitores no Brasil e uma editora pequena publicou alguns quadrinhos curtos meus no Brasil. Quem sabe?

*Leia a resenha da HQ mencionada na edição #21

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