Fala, Bruguera

Tania Bruguera questiona difusão, recepção e apropriação de obras de arte

Paula Alzugaray

Publicado em: 01/09/2011

Categoria: Da Hora, Entrevista, Reportagem

Foto: Cortesia da artista

A artista cubana Tania Bruguera tem diversos vídeos na Coleção de Novas Mídias do Museu Nacional de Arte Moderna, do Centro Georges Pompidou, em Paris. Mas, em setembro de 2010, ao ser convidada para o projeto Voir/Revoir (Ver/Rever), que dava carta branca aos artistas para explorar a coleção do museu, ela simplesmente relevou o fato de estar entre os mais valorizados artistas do circuito internacional. Com o projeto IP Détournement (Desvio da propriedade intelectual), Bruguera colocou em questão os modos de difusão, recepção e apropriação de obras de arte. A artista contatou cem artistas da Coleção do Centro Pompidou, solicitando autorização para vender copias pirateadas de seus trabalhos a 1 Euro cada. 63 responderam positivamente e a artista montou uma banquinha na piazza em frente ao museu. “Este dispositivo conduz a uma reflexão sobre a circulação de obras de vídeo e novas formas de apropriação”, avaliza Etienne Sandrin, curador do Departamento de Novas Mídias do Centro Pompidou, em texto publicado no site do museu. Mais do que isso, coloca em discussão a urgência do mercado e das instituições repensarem a noção de valor em uma um mundo cujos bens, por serem produzidos em formato digital, tiveram abolidas as diferenças entre original e cópia. Tania Bruguera, que desde 1986 desenvolve uma obra performativa e eminentemente política, fala a seLecT:

O compartilhamento é prática fundamental da cultura digital e do código aberto. Mas isso altera a posição de artistas, instituições e sociedade em relação aos direitos autorais?

Nas culturas digital e de código aberto há uma mudança em relação a ideia de compartilhar. Mas essa ideologia, originalmente ligada à internet, é criminalizada quando sai do âmbito pessoal e entra no campo do “produzido”. Parece que se quer deixar claro que qualquer um que tente criar uma sociedade (virtual ou real) baseada em critérios diferentes de acumulação de capital será sinalizado como suspeito e rastreado. Essa perseguição da solidariedade me faz pensar na ideia que está sendo infiltrada por alguns na internet a respeito da liberdade de expressão. Por sorte, a internet é infinita, o que a torna mais resistente a uma unidade ideológica imposta por poucos. Mas a cumplicidade entre Estado e corporações está gerando uma batalha legal que reduz a delinquentes aqueles que pensam de maneira diferente. Soma-se a isso a internet-lixo, que prolifera como um vírus. Nesta época de economia do conhecimento, acesso e acumulação de capital significam acesso e acumulação de informação. Mas acho entediante que estejam usando os mesmos sistemas de câmbio da velha sociedade de economia capitalista. O que está sendo feito de interessante na internet é criar maneiras de conceber valor, de criar moedas que não sejam barras de ouro, mas atitudes em relação a outros seres humanos. Ambos são conceitos igualmente abstratos, mas, enquanto o ouro pertence ao campo da geologia, a ideia de compartilhar pertence ao conceito de sociedade e isso tem de evoluir. A predisposição do mundo da arte, dos artistas e das instituições em relação aos direitos autorais? Depende do que cada um aspira como status social e qual é sua ideia sobre a arte como produto. Talvez alguns, influenciados pela energia que emana do compartilhar virtual, revejam suas posições, mas não estou segura de que isso seja um processo proselitista. Esse é um tema que todos falavam a portas fechadas e agora eles têm de se posicionar publicamente. Aí começa o jogo das hipocrisias institucionais e aí incluo os artistas.

Por que pedir permissão ao Centro Pompidou para vender DVDs falsos no projeto IP Détournement? Esse ato não deveria ser proibido, para ser um verdadeiro ato de pirataria? 

Os DVDs não eram falsos, mas sim material original pirateado, para ser distribuído ao preço de 1 euro na piazza e nos arredores da instituição. Copiamos os trabalhos filmando-os sem autorização no centro de documentação do museu. Outros foram enviados diretamente pelos artistas contatados, pois para alguns era importante garantir a qualidade da cópia. Só distribuímos obras que pertenciam à coleção. A instituição distanciou-se do que aconteceu no espaço “exterior” ao museu e toda responsabilidade, no caso de acontecer um problema legal, recairia sobre mim. Esse foi o acordo. A carta enviada aos artistas foi assinada por mim e revisada pela instituição, para assegurar-lhes que não estariam legalmente envolvidos. Mais que nada, essa obra é uma crítica institucional, usando a arte de conduta como meio (Arte de Conducta é um projeto artístico que Tania Bruguera desenvolve em forma de aulas e grupos de estudos, que considera a conduta como meio de expressão). A crítica institucional não era ao museu ou à sua coleção, mas aos artistas e sua participação nesse jogo de valores agregados. A obra se fazia em dois momentos: primeiro, quando os artistas reagiam à carta, posicionando-se de um lado ou de outro, pois a condição para participar da exposição era autorizar a venda. Depois, quando as pessoas compravam o DVD fora do museu, entrando na fantasia do proibido e do jogo com anarquia. Mas há também todo o processo de negociação com a instituição, e como muitos dos que trabalhavam lá compravam secretamente os DVDs copiados. Em um momento, falou-se inclusive em incluir na coleção os DVDs em versão pirateada. Em caso de compra, minha opinião era de que o museu também pagasse 1 euro. Foi muito interessante visualizar os processos de valorização e cumplicidade intrínsecos ao trabalho das instituições no mundo da arte. E constatar que, realmente, é ridícula a forma como se tentam impor, a mídias como o vídeo, valores aplicáveis às obras únicas. É como se essa fosse uma estratégia para sentir-se popular dentro de uma classe especializada. A reação das pessoas ao trabalho foi incrível. Como pirateávamos dia a dia, as pessoas vinham diariamente ver o que havia de novo. Foi maravilhoso ver como negociavam, reservavam os discos, e a ansiedade que tudo isso gerou. Também houve aqueles que trataram de alterar o sentido da obra, ao me proporem a compra da coleção de discos e do pedaço de lençol sobre o qual estiveram expostos dentro do Centro Pompidou, como relíquia. Eu recusei, porque isso negava o gesto que essa obra queria provocar naquele lugar.

Qual foi sua motivação ao promover a interação entre o museu e o comércio ilegal?

Foi uma maneira de me posicionar sobre a propriedade privada e sobre a função institucional de preservá-la. A metodologia de trabalho e de exibição implicava em fazer coincidir os momentos de produção e os momentos de consumo, pois durante a semana de exposição estava-se simultaneamente expondo, filmando, digitalizando, duplicando, empacotando, distribuindo e consumindo os materiais. Ou seja, durante essa semana, estávamos infringindo a lei. O único detalhe negociado com a instituição foi ocultar os vendedores, que eram jovens artistas, caso a polícia chegasse. A legalidade cumpre o seu papel estabilizando e regulando o caos que é a diversidade de critérios. Mas nunca a entendi como um dogma, mas como algo que pode ser rompido, sempre e quando o argumento proposto com a ruptura seja claro e deixe espaço para que os demais possam intervir, opinar ou discordar. A lei substituiu a religião, em seu papel de regulador da moral. Mas o fato de que seja lei e que contenha aplicabilidade não significa que caiba a todos, nem que seja irremovível, ou que deva ser aplicada sempre e a todas as situações. Para mim, o mais importante é a liberdade de expressão como ser social e, às vezes, a lei não nos permite senão uma maneira restrita e alienada de atuar. A lei é a linguagem do poder, do establishment, portanto, como artista e como ser social eu tenho todo o direito – e até o poder – de infringir as leis que não me parecem funcionar em minha cosmogonia social.

Quais foram os argumentos dos artistas com obras na coleção do Centro Pompidou que não quiseram participar da ação? 

Aqueles que não quiseram participar simplesmente pediram que suas obras não fossem expostas. Alguns explicavam sua posição, outros explicavam como haviam vendido os direitos de suas obras e que, portanto, já não podiam decidir sobre elas. Em alguns casos, foram suas galerias que responderam (eu havia escrito diretamente a cada artista para evitar a mediação das galerias e dos herdeiros), outros simplesmente não responderam. Um dos artistas (um dos primeiros a responder) copiou em sua resposta a curadora da coleção e o diretor do departamento para envolve-los e, de certa forma, delatar meu comportamento, atrevimento e posição sobre o tema. Foi fascinante ver um artista se comportar de uma maneira que eu só imaginava possível em sociedades totalitárias. Também teve um artista chinês que, pelo contrário, deu uma resposta simples: por que você está pedindo permissão? O que é perfeito, porque evidencia as diferenças de relação com a propriedade, de uma cultura para outra. Alguns disseram que não e, depois que viram o entusiasmo que essa obra gerou, acabaram me enviando. O panorama de reações foi o que mais me interessou.

Finalmente, você planeja publicar um livro digital sobre o trabalho, para ser baixado gratuitamente? Já está on line?

Ainda não, estamos trabalhando nisso.

Clique aqui para ler a entrevista original em espanhol

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