Fala, Neymart

Meio moleque, meio homem, o garoto que amava o Mickey e o Cebolinha é apaixonado por cinema e videogame e leva educação muito a sério. Em entrevista a seLecT, o astro Neymar Jr. fala de sua vida cultural e surpreende

Giselle Beiguelman e Paula Alzugaray

Publicado em: 26/05/2013

Categoria: Perfil, Reportagem

Neymar no CET Rei Pelé, conversa com seLecT (Cia de Foto)

Nesta segunda, dia 26 de maio, Neymar Jr. assina contrato com o Barcelona. Pouco tempo antes, quanto a notícia era apenas um rumor, o jogador concedeu entrevista à
seLecT
e foi capa de nossa edição 11. Na despedida, com os melhores votos de sucesso, transcrevemos nossa conversa. Sucesso, Neymarte!

Melhor Jogador das Américas, na seleção do jornal espanhol El País, Troféu Mesa Redonda de Melhor Atacante do Campeonato Brasileiro, Bola de Ouro Hors-Concours, pelo canal ESPN e revista Placar. Neymar Jr., do “alto” de seus 21 anos recém-completados, acumula prêmios e elogios da mídia, dos canais especializados e do público. Esses que citamos são alguns dos vários de 2012. Mal o ano de 2013 começou e ele já era capa, com rasgados cumprimentos, da revista Time, que o elevou à categoria de símbolo do novo Brasil e um novo Pelé.

De bem com a vida, tranquilo, sorriso fácil e meigo, Neymar impressiona pela agilidade na conversa. O garoto que na infância foi fã de Cebolinha, Mickey e Tico e Teco diz que ainda é louco por desenho animado. “Assumo”, diz rindo. Fala de games e de suas preferências no cinema com desenvoltura e alegria. O ar descontraído e brincalhão assume tom quase solene, quando fala dos pais, “muito rigorosos com as notas na escola”, e por quem demonstra um profundo respeito e gratidão. Ilumina-se a toda menção ao seu filho e demonstra maturidade ímpar quando o assunto é inclusão social e educação.

Recentemente, surpreendeu com mais um ataque inesperado o lançamento do Instituto Neymar Jr., cujas obras devem começar entre abril e junho, devendo ser inaugurado em 2014, e já pode ser considerado um de seus melhores gols, porque tem como alvo a formação de crianças carentes. O espaço prevê um campo profissional, um ginásio e uma piscina. Na conversa com seLecT, queremos saber o que ele privilegiaria, caso pudesse oferecer atividades culturais às crianças de 7 a 14 anos. Cinema, games, música, teatro…? Neymar não se acanha e baixa a bola. Explica que a região do Instituto é muito pobre e que falar em cultura alí passa por noções de alimentação, de linguagem, e que isso pressupõe uma estratégia clara.

“O investimento em cultura está direcionado para os pais, e são basicamente palestras. O que mais queremos atingir são as famílias. Não adianta você levar as crianças, tentar educar – ensinar a comer, a falar – e aí elas chegam em casa e é tudo totalmente diferente. É um bairro onde eu morei e conheço bastante. E é bem pobre mesmo”, diz Neymar.

A ação, por isso, tem de ser bem pensada. “O mais legal que queremos fazer é dar muito para eles, mas ao mesmo tempo não iludir. Se você vai para um lugar onde tem acesso a várias coisas, e aí chega em casa e percebe que não tem nada disso… É muito triste . Sei exatamente como é, porque vivi isso. Em casa, a gente não tinha nada e na casa dos meus amigos tinha videogame, iam ao cinema… Eu chegava em casa e ficava totalmente triste. Nossa intenção, por isso, é ajudar. E aos poucos vamos nos organizando, mostrando o que existe, como videogames, que toda criança adora. Vamos aprender também, não só eles.”

Acima de tudo, a motivação de fazer o Instituto é uma visão pragmática e sensível dos processos de inclusão social: “Eu sentia falta, quando era criança, de ter um lugar para brincar, onde meus pais pudessem se envolver mais com tudo”, conta. Tudo mudou muito rápido na vida de Neymar Jr. e hoje ele tem acesso a inúmeras possibilidades de lazer e cultura. Dizemos a ele que gostaríamos de saber suas preferências culturais e ele fala de sua paixão por videogames e cinema. “Estou sempre jogando e ir ao cinema é uma coisa que faço sempre. Adoro. Vou com minha família, com meus amigos. Gosto de ir ao cinema.” Sobretudo se forem filmes estrelados por Will Smith.

“Sou muito fã do Will Smith. É um cara que admiro muito. É um ator que faz de tudo, ação, comédia, drama. É um excelente ator. Todo filme em que ele está eu gosto. À Procura da Felicidade, Hancock, Conselheiro Amoroso, enfim, todos. Vejo no cinema e depois assisto em casa. Sempre dou risada e sempre acabo gostando mais.”

Tristeza parece ser uma palavra que não faz parte do dicionário de Neymar. A palavra risada pontua toda nossa conversa, verbalizada ou como ação. Ele parece realmente feliz com tudo. O único momento em que faz referência ao tema é na lembrança do roubo do seu X-Box. “Fiquei super triste. É melhor perder o celular”, diz. Agora está com um Play Station 3 da Sony em casa.

Como pai, Neymar diz não acreditar que games sejam prejudiciais à educação. “Não acredito que games atrapalhem os estudos. O problema não está no game, mas na educação que se recebe em casa. Sempre joguei todos os tipos de jogos – de tiro, avião, futebol, luta etc. e acho que os games me ajudaram muito. Meus pais nunca me proibiram de jogar. Mas eu tinha regras. Primeiro vem o tempo de estudar, fazer as tarefas da escola, e depois o de lazer, o tempo do videogame”, afirma com a seriedade de um expert e com a serenidade de um paizão.

O filho é personagem central de sua história, que ele compartilha com suas legiões de seguidores no Twitter e no Instagram, e já parece dividir alguns gostos com o progenitor, apesar da tenra idade. Precoce, “ele já assistiu à Galinha Pintadinha. E gostou muito. Eu também, admito”, diverte-se.

A primeira grande viagem com o pequeno já tem destino certo, a Disney. O craque é fiel a seus antigos ídolos. Indagado sobre seu personagem favorito, responde de imediato. “O Mickey!” Por nenhum motivo especial. “Porque achava ele bonitinho. O Tico e Teco também.” A galeria de Mauricio de Souza não fica de fora. “Gostava… Minha mãe sempre me dava para ler os livrinhos com a Magali, Mônica, Cebolinha, Cascão. Mas o que eu mais gostava era o Cebolinha.”

“Se o futebol fosse uma arte, seria uma pintura bem realista. Aliás é o tipo de pintura que mais gosto”

A vida pessoal e profissional parece misturar-se com diversão, mas estudar é fundamental, especialmente a vivência escolar, para ele mais decisiva que o currículo em si. Perguntamos se estudar é importante e ele diz, categórico: “É muito importante. Toda pessoa tem de ter um momento escolar. É um momento em que você está crescendo, descobrindo coisas novas. Você sai da escola e sente falta. Eu sinto falta até hoje. Não diria que sinto falta das matérias, porque estaria mentindo. Nunca fui um excelente aluno, mas nunca dei trabalho. Meus pais eram muito rigorosos com as notas”, diz ele, assumindo o tom solene e reverente, que lhe muda a voz toda vez que faz menção aos pais.

A matéria favorita na escola era, como se pode imaginar, educação física. “Mas eu gostava muito de história. Primeiro, porque eu gostava – e gosto – de escrever e história é uma matéria em que tinha de escrever bastante. Mas também porque tinha essas coisas de você ir até 1900, depois saber e entender que aconteceu uma guerra… Eu gostava de viajar na maionese… Chegava na prova e sempre ia bem. O que menos gostava era álgebra, geometria, matemática. Ish… Era cruel. Número para tudo quanto é lado”.

Artista da bola, Neymar não nos dribla – ainda bem –, mas nos dá um xeque-mate inesperado no fim da entrevista, concedida no Centro de Treinamento Rei Pelé, em Santos. Tanto se fala em futebol arte, expressão que se torna um pleonasmo quando o vemos jogar, que decidimos inverter o jogo. Afinal, se o futebol fosse uma forma de arte, que arte seria?

“A pintura. Uma pintura bem realista. Aliás é o tipo de pintura que mais gosto”, revela. E então ele parte para o ataque, disparando a câmera do celular para registrar a entrevista, inclusive a foto feita para a capa de seLecT. Capturada do visor da máquina de nossos fotógrafos, virou sua foto de perfil no Twitter e no Instagram no mesmo dia. Game over e abraço do craque.

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