Fala Renato Cymbalista

Giselle Beiguelman

Publicado em: 23/12/2014

Categoria: Entrevista, Reportagem

O arquiteto e professor da FAU-USP fala sobre as relações entre o modernismo soviético e o brasileiro

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Legenda: Projeto de residências móveis russas dos anos 1980 (foto: Divulgação)

A exposição Uma Modernidade Paralela serviu de “canteiro” didático para o arquiteto e professor da FAU-USP, Renato Cymbalista. A partir de uma série de visitas, sua classe executou uma nova legendagem para a mostra em cartaz no Centro Cultural São Paulo. O processo valeu uma reabertura da mostra, que ganha, assim, montagem inédita. Em entrevista à seLecT, Cymbalista fala sobre as relações entre o modernismo soviético e o brasileiro.

É possível dizer que há uma certa semelhança estética e “retórica” na arquitetura exposta em Uma Modernidade Paralela, em obras como a FAU, em São Paulo, e a Escola Parque de Salvador? Por quê?

Um dos mitos que a exposição derruba é o de a arquitetura soviética equivaler a padronização e homogeneização. Na verdade, a arquitetura soviética pós-stalinista foi muito variada e diversificada, foram possíveis experimentações de várias ordens, houve a ressignificação de linguagens tradicionais. Mas é possível, sim, identificar relações entre a versão brasileira do modernismo brutalista e algumas das vertentes da arquitetura soviética do pós-Segunda Guerra Mundial. A valorização dos elementos pré-fabricados e a busca pela industrialização da construção são dois elementos muito presentes, isso se verifica no Brasil e também na URSS. Muitos dos arquitetos modernistas brasileiros eram também comunistas ou simpatizantes. É o caso do Villanova Artigas, do Lelé (João da Gama Filgueiras) e do próprio Niemeyer. Todos esses arquitetos visitaram a União Soviética, conheciam essa arquitetura. Todos eles depositavam no Estado as expectativas de viabilização da produção arquitetônica sofisticada que eles queriam produzir, e essa é outra semelhança.

O que há de mais parecido entre a arquitetura soviética dos anos 1950/1970 e a brasileira?

Não há só uma arquitetura soviética, assim como não há só uma arquitetura brasileira nesse período. O que é interessante são interfaces entre correntes de produção arquitetônica que buscavam as mesmas coisas. A pré-fabricação era uma das obsessões de Lelé, e aparece por todos os lados na URSS como resposta à necessidade de produção massiva de habitação. A busca de continuidade dos pressupostos do modernismo europeu pré-Segunda Guerra Mundial aparece na escola paulista de arquitetura e também no trabalho de arquitetos que são nossos desconhecidos (mas são celebridades do lado de lá), como Eduard Bilski, da Ucrânia, ou Ivan Bovt, de Minsk, na Bielorrússia.

O que há de mais diferente entre elas?

Na URSS, entre os anos 1950 e 1990, praticamente inexiste a noção de cliente privado do arquiteto. Todos trabalham para o Estado, ou para o partido, que são os vocalizadores das demandas da sociedade para os arquitetos. Isso não significa que os consumidores finais da arquitetura foram anulados em todas as situações, mas que o Estado aparece como o grande mediador, de forma muito mais onipresente que no Brasil.

*Entrevista que complementa o texto Margem Leste. Foi publicada originalmente na edição #21. 

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