Falsos testemunhos de lugares reais ou vice-versa

A presença de artefatos produzidos na China na composição das obras de Alberto Baraya favorece pensar o ponto cego entre o autóctone e o estrangeiro, o original e a réplica, a realidade e a representação

Ana Maria Maia

N° Edição: 12

Publicado em: 21/06/2013

Categoria: A Revista, Crítica

Cinco séculos separam os primeiros relatos do expedicionário Hans Staden sobre o continente americano e a atividade de Alberto Baraya, artista colombiano que, desde o início dos anos 2000, trabalha em torno de procedimentos como viagens, coleta de materiais – principalmente plantas – e organização de taxonomias científicas. Apesar do longo intervalo de tempo que os separa, o conjunto de práticas de Baraya demonstra o seu interesse por revisitar o legado das expedições botânicas e de belas artes que, entre os séculos 16 e 17, foram um importante instrumento na construção do imaginário europeu sobre as colônias, suas fauna e flora “exóticas”, sua população “selvagem”.

Como em um exercício de espelhamento, ou numa reencenação histórica, Baraya assume o papel de expedicionário, ou viajero, para questionar tais atribuições (o exótico, o selvagem, o primitivo, o virgem, o descoberto) e a assimilação delas como documento verossímil e correspondente à realidade. A mostra individual do artista na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, reúne tudo o que ele coletou e organizou, com rigor metodológico e muita ironia, em três de suas últimas viagens pelo Oceano Pacífico: Nova Zelândia (2009), Austrália e Machu Picchu (2013). O resultado são vitrines, composições didáticas, anotações e exemplares de amostragens que, juntos, criam o ambiente de um herbário ou de um catálogo de espécies, aos modos do tipo de display que se costuma encontrar em um museu de história natural.


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Objetos encontrados “made in china”, desenhos e selos em papel, da série Expedição Nova Zelândia (2009) (Fotos: cortesia Galeria Nara Roesler)

As vegetações artificiais, através das quais esses museus recriam hábitats naturais para fins educativos – em instalações circulares e parcialmente imersivas chamadas de dioramas ou panoramas –, mais do que referência, viraram material da coleta de Baraya. Em um mês de estada ao sul da Austrália, o artista frequentou alguns desses espaços e extraiu deles diversas espécies de plantas do mar e da savana, todas feitas em plástico, tecido ou vidro. Retiradas do seu contexto, em que se procura exatamente a ilusão de realidade, elas se tornam visivelmente falsas. O artistas as analisa e disseca, para efeitos de estudo e comprovação de sua existência. Torna evidente, com isso, toda sorte de falácia que o conhecimento científico é capaz de encobrir e validar, inclusive ao fundamentar projetos de recenseamento e controle, como as missões coloniais e os museus positivistas que nasceram no auge do Iluminismo francês.

Desmonte de narrativas

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Fotografia da série Expedição Machu Picchu: Antropometrias aproximadas (2013) (Reprodução)

Os registros da viagem à Nova Zelândia, realizada por Baraya em 2009, agregam outro dado dessa lógica de desmonte das narrativas expedicionárias à exposição. Nessa iniciativa, o artista dedicou-se a introduzir na natureza do país uma coleção de folhagens cenográficas, imitações de diversos tipos de fetas, ou samambaias, que se diferenciam de outras plantas por não terem sementes ou reservas nutritivas e, por isso, dependerem de condições ambientais muito favoráveis para se reproduzirem. Em um gesto simbólico, plantou-as em recantos das serras e florestas neozelandesas, indicando um desejo de hibridização daquela paisagem. De lá para cá, é provável que o ambiente não só não as tenha fecundado, mas tenha, pelo contrário, iniciado seu processo lento e incontornável de decomposição, transformação de matéria estrangeira em solo nativo.

Ao mesmo tempo que Baraya comprova a inexistência da tão proclamada “terra virgem”, ou de qualquer lugar destituído de autoimagem ou passivo de convívio sem disputa, ele também sinaliza para o efeito contrário, que o traz com toda força para o seu presente. Não se trata mais de sustentar apenas as idiossincrasias das ex-colônias em seu ainda inconcluso processo de emancipação cultural, mas também de perceber um vetor de pasteurização que, na dinâmica da economia global, torna a América, a Europa e a Oceania igualmente made in China.

A presença dos artefatos produzidos nesse país na composição das obras de Baraya, tanto as da Nova Zelândia quanto as da Austrália, torna-se mais uma variável para se pensar o ponto cego entre o autóctone e o estrangeiro, o original e a réplica, a realidade e a representação, o lugar e o não lugar, como os shopping centers e os aeroportos similares em qualquer parte do mundo. A origem dos materiais é descrita nas fichas técnicas de cada trabalho. Respaldado pelo cartesianismo do botânico-catalogador, o artista não se furta de inscrever esse desvio de rota (antes de tudo comercial, dada a competitividade da indústria chinesa) entre as dúvidas e contradições do seu projeto, todas ditas com a retórica da assertividade.

Seja como personagem inventado, seja sob a alcunha de uma suposta instituição responsável por um herbário de plantas artificiais de quase 15 anos, Alberto Baraya poucas vezes tornou a sua presença explícita no resultado de suas obras. Na expedição para Machu Picchu, ele fugiu a essa regra deixando-se fotografar repetidas vezes, sempre de perfil, por visitantes do sítio arqueológico peruano. Nessa situação, também incomum pelo curto tempo de duração, apenas uma semana, o artista abordou os turistas individualmente ou em grupo, ofereceu-lhes um antropômetro e pediu-lhes que testassem o instrumento nele, para medir o tamanho do seu crânio, como faziam os expedicionários e antropólogos em tribos indígenas.

Nas fotografias, as extremidades do antropômetro primeiro aparecem tocando da ponta da testa ao queixo de Baraya, mas logo a informalidade dos encontros começa a deturpar a cena documental. O instrumento oscila para mais e para menos, a depender de quem o porta. A empatia relaxa e humaniza ambas as partes, apesar dos poucos instantes de contato. A sequência de fotos não deixa explícitos referenciais de uma catalogação demográfica, mas ratifica a perda do domínio do viajero e a crise de sua ética de trabalho. A reencenação histórica, neste caso, cumpre o papel de aguçar a crítica sobre o passado colonial e suas reminiscências e, talvez principalmente, sugerir o pequeno passo e a grande responsabilidade que hoje acarreta não mais se assumir como vítima ou ponto passivo, e sim como agente de/em outra geopolítica.

Serviço:

Expediciones pacíficas – Alberto Baraya

De 22 de junho a 20 de julho

Galeria Nara Roesler

Avenida Europa, 655 São Paulo
segunda a sexta 10h – 19h
sábados 11h – 15h

*Ana Maria Maia é Jornalista e mestre em História da Arte. Curadora assistente do Panorama de Arte Brasileira do MAM-SP, é também integrante do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake.

*Publicado originalmente na #select12.

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