Favela: moderna ou contemporânea?

Arquitetos de todo o mundo participam de mostra itinerante em São Paulo e se dividem entre ver a favela dentro do ideário moderno ou em considerá-la um novo modelo de urbanização e sociedade

Fernando Serapião

N° Edição: 5

Publicado em: 26/06/2012

Categoria: A Revista, Reportagem

Simulação na paisagem da Serra da Cantareira, em São Paulo, de um Conjunto Habitacional assinado pela equipe da ETH, principal faculdade de arquitetura suíça, liderada por Rainer Hehl (Imagem: Rainer Hehl)

Atualmente São Paulo é um laboratório urbanístico para solução das favelas. Se essa frase pode causar espanto na maioria dos paulistanos – que certamente desconhecem essa informação –, para os mais importantes técnicos do mundo que se debruçam sobre o tema a notícia não é nova: Harvard, Columbia, ETH e outros polos universitários de ponta estão acompanhando com atenção os desdobramentos do trabalho que envolve mais de 50 equipes de arquitetos – alguns dos quais destacados escritórios paulistanos, como MMBB, Brasil Arquitetura e Una.

A prova de que a cidade está na vanguarda do pensamento urbanístico para solução do problema da favela – que atinge um quinto da população mundial – é o projeto Jornada da Habitação – São Paulo Calling, que inclui exposição e debates. “Eu nunca vi uma exposição como esta”, afirmou Joseph Grima – editor da revista italiana Domus, bíblia italiana da arquitetura e do design. Em sua primeira visita ao Brasil, Grima veio acompanhar o lançamento do projeto que durante cinco meses – de janeiro a junho – vai percorrer cinco favelas, promovendo trocas de experiências entre brasileiros e profissionais que enfrentam o mesmo problema em outras sete cidades, como Nairóbi, Medellín e Mumbai.

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Por trás da São Paulo Calling está o italiano Stefano Boeri – arquiteto, curador e atual secretário da cultura de Milão. Durante uma tarde no fim de janeiro, Boeri conversou com seLecT. Segundo contou, para se fazer uma intervenção em área de ocupação irregular deve-se “adaptar o conhecimento técnico às regras da favela – ou seja, você tem de saber as razões porque ela nasceu, como cresceu e se desenvolveu”.

A afirmação é uma evidência de que as coisas mudaram desde o auge da arquitetura moderna – leia-se, primeira metade do século 20, quando se acreditava que para resolver o problema habitacional bastava construir conjuntos mamutes nas periferias dos grandes centros, usando peças pré-fabricadas para desenhar lâminas compridas, com poucos andares sob pilotis.

A crença nessa fórmula fazia parte do ideário da arquitetura moderna: ao construir milhares de habitações necessáriasna Europa devassada pela Segunda-Guerra, foram colocadas em prática as teorias desenvolvidas por arquitetos e urbanistas da primeira metade do século 20. Distantes no espaço (mas não no tempo), os brasileiros deram contribuições significativas para o debate. Aqui, o problema não era a guerra, mas pressões de migração interna da zona rural e pobre para os grandes centros em desenvolvimento.

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A obra-prima da contribuição brasileira para o debate foi o célebre conjunto Pedregulho, no subúrbio carioca, perpetrada por Affonso Eduardo Reidy, que também desenhou o MAM-RJ. Trata-se de um conjunto com 328 apartamentos dispostos em lâminas diferentes, além de creche, escola, área esportiva e centro comercial – com direito a painéis de Portinari e jardins de Burle Marx. O destaque do conjunto é o maior prédio, uma serpentina de 260 metros de extensão que se adapta à topografia de forma graciosa e precisa. Apesar de ter sete andares, essa lâmina não possui elevador: o acesso se dá através de uma passarela que conecta o prédio ao terreno no terceiro piso: quem está para baixo desce, para cima, sobe.

De lá para cá, o pensamento urbanístico se transformou: o problema mostrou-se cada dia mais gigantesco e as esperanças de acabar com todas as favelas ficou no passado. Assim, ecoando ideias de Jane Jacobs – que para proteger o Village nova iorquino escreveu um dos principais manifestos antimodernos da história – Vida e Morte de Grandes Cidades (editora Martins Fontes), os urbanistas compreenderam que o ambiente construído de forma irregular poderia ter algum valor. Hoje, em linhas gerais, eles acreditam que as favelas estão consolidadas. Então, o que fazer? Prover infraestrutura (água, esgoto, luz, asfalto etc.), regularizar a situação fundiária e remover apenas as construções que estão em área de risco (encosta, beira de córrego etc.).

Com isso tudo, os urbanistas acreditam que podem transformar as favelas em bairros de uma forma espontânea, pois, com a regularização, há uma tendência natural que o ambiente melhore, uma vez que a comunidade percebe aquela situação como definitiva e não mais temporária. De uma forma geral, a parte mais significativa desse processo é invisível: fotos de infraestrutura dificilmente rendem votos.

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Projeto da Brasil Arquitetura (Imagem: Eduardo Colonelli)

As cerejas do bolo continuam a ser os novos blocos habitacionais que aparecem como elemento forte no contexto. Contudo, é justamente nesse ponto que ocorre o paradoxo desse processo: se os urbanistas acreditam que a acupuntura pode transformar as favelas, a maior parte dos arquitetos (que desenham os prédios) ainda tem como paradigma a lâmina moderna do Pedregulho. Na leva recente de projetos paulistanos, exemplos não faltam – lâminas na encosta, com entradas em meio nível, tal como fez Reidy – como na favela do Bamburral, criada pela Brasil Arquitetura, ou na do Real Parque, de Eduardo Colonelli – que desenhou a reforma da Pinacoteca junto com Paulo Mendes da Rocha.

Não falta pressão do contratante para que o desenho dos blocos entre em sintonia com a proposta urbanística: “O arquiteto paulista ainda é muito moderno”, opina Elisabete França, que responde na prefeitura pelas intervenções nas favelas e a grande responsável por esse laboratório. “Não acreditamos na hipótese de mimetizar a favela”, disse Edson Elito, responsável pelo conjunto de quase mil apartamentos, construído em Paraisópolis. O conflito torna-se mais evidente quando confrontamos os projetos de blocos de apartamentos – ainda no papel – criados por estrangeiros para São Paulo. Neste caso, dois exemplos são simbólicos, ambos criados por suíços. O primeiro é da safra de Christian Kerez, um dos mais interessantes arquitetos da atualidade. Para desenvolver um conjunto localizado na favela do Jardim Colombo (atrás do colégio Porto Seguro), Kerez passou semanas numa das mais privilegiadas zonas de São Paulo, acompanhando o líder comunitário – que não fala inglês nem alemão, tentando entender a espacialidade do lugar. O resultado são dois volumes que se mimetizam na paisagem, incorporando a linguagem existente.

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Primeiros estudos de conjunto habitacional projetado pelo arquiteto suíço Christian Kerez para a favela Jardim Colombo, em São Paulo.

O outro projeto é de uma equipe da ETH (a principal faculdade de arquitetura da Suíça), liderada por Rainer Hehl. Vencedor de um concurso aberto – o maior realizado no país –, o projeto, localizado nas franjas da Serra da Cantareira, dispõe os novos blocos de forma concentrada em torres de plantas quadradas. O volume externo, revestido com diferentes tipos de tijolos aparentes, revelava individualidade das diferentes unidades, algumas dúplex. Entre o olhar estrangeiro – que pode ser folclórico e enxergar certo romantismo na pobreza – e o olhar nacional – que não consegue se desvencilhar do paradigma moderno –, esse processo, para ser completo, pede uma terceira via que dialogue com a espacialidade da favela.

Fernando Serapião é crítico de arquitetura, colaborador de Folha S.Paulo e editor da revista Monolito. Autor de A arquitetura de Croce, Aflalo & Gasperini (Paralaxe).

*Publicado originalmente na #select5.

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