Feira Parte para novo formato

Em tempo de mercado desaquecido, a Parte apresenta novo modelo de negócio com três núcleos temáticos em uma casa ocupada nos Jardins

Leandro Muniz
Grupo Quinto Andar na Feira Parte (Foto: Monica Tinoco)

Na edição de 2019, a Feira Parte – que acontece anualmente desde 2011 – está testando um novo formato que, segundo a diretora do evento, Tamara Brandt, é um laboratório. Ao longo de três semanas, uma casa no bairro dos Jardins, em São Paulo, ganha três tipos de ocupação: primeiro, por galerias; depois, por grupos de estudos, coletivos de artistas e ateliês compartilhados; e, por fim, da próxima quinta 6 até domingo 9/8, por artistas populares e de arte urbana.

A realização é feita em parceria com uma construtora que patrocina o evento. O imóvel estava fechado há cerca de dez anos e o novo formato do evento, em uma escala doméstica, permite maior descontração e alivia a pressão das vendas, favorecendo a criação de novos contatos e relações entre os participantes e o público. Para Brandt, o modelo das feiras de arte enfrenta uma fadiga: se, por um lado, é favorável para a circulação e vendas, por outro, se torna um problema para o artista que tem que produzir obras especificamente para este contexto, para as galerias que passam por uma pressão de vendas para cobrir os custos do evento e para o público que está condicionado a uma experiência repetitiva, pelo formato dos stands e pelo excesso de obras.
“Há um desaquecimento do mercado e a instabilidade exige maior experimentação. O sistema precisa de informações novas”, diz a diretora, enfatizando que ainda não tem previsão de que este seja o formato definitivo da feira, mas que vê consequências produtivas deste laboratório, como a exibição de obras que ainda estão em processo e um ambiente mais leve que favorece a troca entre diferentes atores do meio de arte sem hierarquias.

Intervenção de Maria Livman no banheiro da Casa Parte (Foto: Divulgação)

O pequeno formato da feira também reflete o momento político do país. Brandt reforça que nesta edição o formato de vendas e precificação foi renovado, enfatizando a transparência da feira para estabelecer uma confiança mútua com os artistas e as galerias. Para a artista Monica Tinoco, que coordena o Grupo Quinto Andar com alunos da graduação em artes plásticas na UNESP, a experiência na feira propicia um aprendizado prático para os estudantes que têm que lidar com todo o processo de venda e exibição – desde a precificação, organização de tabelas, até a negociação com possíveis compradores. A artista Thais Graciotti, que tem ateliê no Edifício Califórnia, comenta que os próprios artistas têm buscado alternativas que favoreçam as trocas
entre eles e o público, como a realização de dias de ateliê aberto, convites a curadores para visitas e, agora, a participação na feira, que ocorreu por convite.

Intervenção com gemas de ovos (2019) de Natalie Braido (Foto: Monica Tinoco)

Por se tratar de uma casa, cada participante da Parte ocupa um cômodo, o que às vezes gera uma experiência conflitante entre um formato expositivo convencional e a série de informações da arquitetura – como azulejos, frisos, degraus ou grades –, mas também podemos ver soluções inventivas que dialogam com o espaço. Os estudantes na UNESP realizaram intervenções no jardim, no banheiro e dentro da adega utilizando luzes, esculturas e pinturas. A montagem dos trabalhos replica algo do funcionamento dos ateliês na universidade e percebe-se pontos de contato entre suas produções, como um interesse predominante pela pintura, com citações rápidas à história da arte e um apelo tátil das composições. O grupo de acompanhamento Hermes, dirigido por Nino Cais, Marcelo Amorim e Carla Chaim, produziu um display em tapume rosa e cada um dos alunos fez uma edição de um múltiplo sobre papel A1, cada um com sua linguagem, fazendo do stand um grande arquivo que o visitante podia manipular livremente.

Além das transações de exibição e venda, a Parte também realiza uma série de falas, apresentações de filmes, shows, debates e performances, bem alinhada ao formato expandido de feiras que temos visto nos últimos anos. O atual modelo, mais modesto, pode ser lido como um sintoma de uma crise econômica que atinge diversas estruturas do sistema de arte, no entanto, iniciativas como essa problematizam a imagem de produtividade e podem gerar novas relações e dinâmicas de trabalho.

Obras dos participantes do Grupo Quinto Andar (Foto: Maria Livman)

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