Felicidade Clandestina

Em intervenção no Viaduto Santa Ifigênia, Felippe Moraes celebra o carnaval de todos os órfãos da fantasia

Giselle Beiguelman

Publicado em: ANO 10, Nº 49, Jan/Fev/Mar 2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Agoniza Mas Não Morre (2021), de Felippe Moraes (Foto: Divulgação)

Em Felicidade Clandestina (1971), Clarice Lispector lembra um carnaval que a transportou para a sua infância. No conto Restos do Carnaval, ela recorda dos dias que antecediam a festa, quando uma agitação a tomava, “como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.”

Essa sensação de posse do prazer acima de tudo é o patrimônio do Carnaval e o segredo de sua força. Neste 2021 que prossegue assombrado pela coronavida, o artista Felippe Moraes consagra a data num rito ao direito de ficar “tonto de felicidade”, como descreveu Clarice.

Samba Exaltação é sua resposta à melancolia que nos espreita. Em um jogo de quatro neons, Moraes recupera versos de canções que enaltecem as escolas de samba e sua potência cultural e social. Eles serão colocados na janela do seu apartamento no edifício Mirante do Vale a partir desta sexta-feira, dia 12/2, véspera de Carnaval, ao longo de 52 dias, contemplando quatro sambas: Agoniza Mas Não Morre, Para Ver as Meninas, Baianidade Nagô e Quero Morrer no carnaval.

A respeito de suas escolhas, Moraes comenta em conversa com a seLecT: “Escolhi essas canções porque foram essenciais pra garantir a minha sobrevivência física e mental durante a pandemia. Cada uma delas, à sua maneira, me transportava para o torpor do Carnaval perdido, uma espécie de promessa de tempos vindouros em que poderíamos tomar o espaço público de delírio e lirismo. Gosto da ideia de serem músicas tão conhecidas que, ao lermos uma frase, começamos a cantarolar mentalmente e somos tomados pelas emoções que construímos ao redor delas. Me interessa evocar esse frio na barriga que o Carnaval é capaz de proporcionar, não só pela melancolia do momento atual, mas como potência da brasilidade em resistência à casa grande.”

Agoniza Mas Não Morre (2021), de Felippe Moraes (Foto: Divulgação)

Serviço
Samba Exaltação – Felippe Moraes
De 12/2 a 4/4, no Viaduto Santa Ifigênia. Com exceção da inauguração, dia 12/2, marcada para as 19h, a programação é sempre a partir das 18h.
Programação completa, textos críticos de Ana Roman, Alexandre Sá e Daniel Rangel e fotos no Instagram do artista @felippemoraes

Giselle Beiguelman é artista e professora da FAUUSP. Foi editora da revista seLecT de 2011 a 2014. É colunista da Rádio USP e da Revista Zum. Site: http://desvirtual.com. Ig/Twt/FB: @gbeiguelman

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