Fernanda Gomes: rigor e dispersão

Exposição da artista na Pinacoteca reúne obras de mais de quatro décadas apresentadas em um embaralhamento entre presente e passado

Leandro Muniz

Publicado em: 10/01/2020

Categoria: Da Hora, Destaque, Review

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Vista da exposição de Fernanda Gomes na Pinacoteca (Fotos: Romulo Fialdini / Cortesia Pinacoteca de São Paulo)

Fernanda Gomes produz objetos com uma paleta em que predominam os tons de branco e o cru da madeira. Ela recolhe materiais do seu cotidiano ou nas caçambas do entorno de seu apartamento, que organiza em composições simples, a partir de procedimentos como empilhar, colar e suspender. Outros objetos são projetados, como duas colheres presas pelas hastes, que parecem ter sido encontradas no lixo, embora sejam feitas de prata. O rigor na construção de cada uma das peças guarda uma abertura para arranjos provisórios e decisões rápidas, que resultam em uma obra eminentemente processual, já que vida cotidiana e arte, exposição e experimentação não se distinguem. Não há hierarquia entre meios e fins. 

Sua individual na Pinacoteca de São Paulo leva adiante essa dinâmica, sendo o resultado de mais uma série de interações entre a artista, as obras e as especificidades do espaço ao longo de três semanas de montagem, como um ateliê temporário. A exposição reúne peças realizadas ao longo de mais de quatro décadas, mas seria um paradoxo chamar de retrospectiva um projeto no qual o tempo cronológico não existe, embaralhado continuamente. Os trabalhos não estão identificados com legendas e vários, na verdade, nunca haviam sido mostrados. 

 

No texto do catálogo, o curador José Augusto Ribeiro analisa a inserção de Fernanda no circuito internacional da arte nos anos 1980, em meio a uma série de expectativas de “brasilidade” que o debate multiculturalista num incipiente sistema globalizado criava. Para o curador, a obra de Fernanda não responde a esses clichês ou a uma genealogia imediata da arte brasileira. Ainda que marcada por signos de classe – os resíduos da obra são ligados ao universo burguês, a uma vida de classe média, como os restos dos tacos dos apartamentos de Copacabana, rolhas de vinho ou páginas de livros em francês – há um sujeito anônimo e reflexivo que permeia os trabalhos. 

Os paralelepípedos e quadriláteros pintados de branco ou feitos de madeira crua rebatem na própria arquitetura da instituição, gerando múltiplas narrativas e discussões  em cada uma dessas pequenas mônadas e na posição reflexiva que assumem sobre o próprio espaço em que estão localizadas. O chão de madeira da Pinacoteca e os recortes de uma sala para a outra parecem o espaço ideal para a apresentação de um trabalho com essa natureza. Nas salas do meio uma concentração maior de objetos nos faz ver os diversos quadros estabelecidos pelas passagens de um lugar a outro. Não como uma mera crítica ao “cubo branco”, mas como uma ampliação da percepção daquele espaço, que passa-se a ver como não neutro, na medida em que as falhas das paredes, as variações tonais e as mudanças de luz são temas centrais do trabalho. 

 

A concentração no centro também leva a pensar numa organização do espaço como círculos concêntricos, nos quais vemos o que enquadra o nosso olhar. Um espaço dentro do espaço. Essa reflexão sobre o local e suas relações internas, longe de gerar uma aridez tautológica, faz pensar sobre a lógica de museus e da própria arte, suas convenções e histórias, que ora são reiteradas  – como nos plintos empilhados, nas embalagens de obras ou nas caixas de acrílico – ora desconstruídas, quando embaralha-se o que é pessoal e coletivo, íntimo e público.

 

Na obra de Gomes, há um sentido de educação estética, na medida em que as variações dos tantos brancos, das tantas cores ditas cruas, ou dos elementos do espaço que muitas vezes passam despercebidos tornam-se protagonistas, como as luzes e suas variações, os cantos ou os espaços de passagem. Uma pilha de moedas num canto do rodapé ou uma trama de fio dental suspensa em um ponto da sala, modificam o espaço e chamam nossa atenção sobre ele na mesma medida que mesas de formatos irregulares, ainda que geométricas, ou uma sala de paredes falsas construída para um corpo só. O que poderia ser monótono, no entanto, é marcado por dinâmicas e uma série de momentos inesperados.

Não há limites claros entre o que é ou não trabalho, tanto na exposição, quanto na gênese dos objetos individualmente. Se em um instante, sob determinada luz, a certa distância, um arranjo de restos de madeira parece incrivelmente potente, no fim da exposição ele pode ser descartado ou simplesmente reproduzido depois. 

 

Este pensamento que indistingue processo e resultado e não cria hierarquias entre dentro e fora, também é reproduzido no catálogo da mostra. Desenhado pela própria artista, ele replica o modus operandi de Gomes, misturando fotos do ateliê, cor e preto e branco, passagens entre páginas vazias, imagens de trabalhos isolados e registros de exposições diversas, para além da representação bidimensional – impossível – da experiência no espaço da Pinacoteca. 

Uma noção de prática, mais do que de produção, permeia os espaços criados por Gomes, nos quais o tempo parece mais alargado, mais poroso e ramificado. A suposta dispersão do conjunto guarda extremo rigor na articulação interna de cada peça e sua relação com o entorno. Isso não significa mudez, um espaço fora da sociabilidade e da comunicação, ou mesmo uma aparente recusa de temas sociais urgentes. Esses objetos não respondem às urgências da vida social e política para nos colocar imersos em uma experiência de presença física e mental radicais. 

Serviço
Fernanda Gomes
Até 24/2/2020
Pinacoteca
Praça da Luz, 2
pinacoteca.org.br

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