Festa e destruição

Museu do Ipiranga faz festa enquanto continua fechado; no Rio, incêndio de grande proporção destrói o Museu Nacional

Márion Strecker
Vista da entrada do Museu Nacional no Rio de Janeiro, na segunda-feira após o incêndio de grandes proporções que atingiu a instituição. Foto: Carl de Souza, AFP

Museu do Ipiranga em Festa é o nome do evento com dezenas de atividades culturais gratuitas que vai acontecer nos próximos dias 7 e 8 para celebrar os 196 anos da Independência do Brasil. O objetivo do evento é questionar os significados da Independência nos dias de hoje. O evento é promovido pelo Sesc em parceria com a USP, responsável pelo museu, que está fechado desde 2013, quando um laudo apontou risco iminente de desabamento do forro e o museu foi interditado.

Das 10h às 20h haverá atividades como apresentações de dança, teatro, música, cortejos, performances cênicas, poesia, exposição. Entre 19h e 20h, uma projeção será realizada na fachada do museu, que é o mais antigo de São Paulo. As projeções na fachada terão criação do VJ Alexis Anastasiou (Visualfarm) e curadoria de Giselle Beiguelman, artista e professora da USP.

O Museu do Ipiranga faz parte do conjunto arquitetônico do Parque da Independência, que demarca o local da proclamação da Independência do Brasil. Inicialmente projetado como elemento de propaganda da Monarquia, foi depois encampado pela República. A inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1895, com o nome de Museu de História Natural e já como marco representativo da Independência, da História do Brasil e Paulista. Seu nome oficial é Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

Contém acervo de mais de 450 mil itens, entre objetos, iconografia, documentos, mobiliário, estátuas e obras de arte com relevância histórica. Cobre o período do século 17 até meados do século 20. Sua obra mais famosa é a tela Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo, medindo 4,60 x 7,60 metros de largura. Essa pintura foi comissionada pela Casa Imperial brasileira com o objetivo de valorizar a Monarquia que, aliás, caiu no ano seguinte, quando foi proclamada a República.

O Museu do Ipiranga está vinculado à Universidade de São Paulo (USP) desde 1963, como instituição científica, cultural e educacional que exerce pesquisa, ensino e extensão no campo da História. O Plano Diretor de 1990 definiu como área de especialidade institucional a História da Cultura Material. As linhas de pesquisa são Cotidiano e Sociedade, Universo do Trabalho e História do Imaginário. O orçamento do museu é de cerca de R$ 10 milhões por ano.

Quatro anos depois de fechar as portas do museu, a USP anunciou em dezembro passado os vencedores do concurso nacional de arquitetura para o restauro e a modernização do Museu do Ipiranga. Venceu o escritório paulistano Hereñu & Ferroni Arquitetos, também conhecido como H+F, que ganhou prêmio de R$ 25 mil e o direito de celebrar contrato para o desenvolvimento do projeto executivo das obras.

 

Museu do Ipiranga, no Parque da Independência, em São Paulo. Foto: Helio Nobre, Museu Paulista da USP

O prazo para elaboração do projeto executivo é de 12 meses, ao custo de R$ 5,6 milhões. Depois disso, será realizada a licitação das obras, cujo início está previsto para o próximo ano. O custo da reforma foi estimado em R$ 100 milhões. Em caixa hoje haveria R$ 3,2 milhões, ou 3,2% do total, que inclui patrocínio direto e aportes via Lei Rouanet.

Entre as novidades do projeto estão a criação de um terraço mirante e um prolongamento subterrâneo do edifício-monumento. Mais detalhes do projeto podem ser vistos no website do escritório: http://www.hf.arq.br/projeto/museu-paulista/

A previsão é que museu seja reaberto em 2022, no bicentenário da Independência do Brasil. Enquanto isso, a programação do Museu do Ipiranga em Festa pode ser consultada aqui.

 

Museu Nacional em chamas

Se o orçamento anual do Museu do Ipiranga é de cerca de R$ 10 milhões – e está como está –, o orçamento anual do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, é de R$ 520 mil, valor esse que não vem sendo integralmente repassado desde 2014. Na noite de domingo (2/9/18) o museu ardeu em chamas. Ainda não se sabe a extensão das perdas com o incêndio de grandes proporções.

O Museu Nacional é a instituição científica e o mais antigo museu do país. Acabou de completar 200 anos. O edifício foi residência da família real entre 1816 e 1821. Seus três andares abrigavam 20 milhões de itens, como documentos da época do Império, paleontologia, arqueologia pré-colombiana, arqueologia brasileira, coleção egípcia, fósseis, minerais, móveis da monarquia e assim por diante.

O Museu Nacional é ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), primeira e maior universidade federal do Brasil, reconhecida como centro de excelência em ensino e pesquisa na América Latina, mas não imune à crise econômica e política que vive o país.

O Museu Nacional vinha recebendo pouco menos de 200 mil visitantes por ano e estava obviamente em precárias condições de conservação. A UFRJ vem sofrendo com problemas sistemáticos em seus prédios tombados por falta de linhas de financiamento do governo federal para construções históricas. Além disso, como as demais universidades públicas, a UFRJ vem sofrendo constantes cortes orçamentários.

Desde 2015 a reitoria da UFRJ negocia com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para melhorias estruturais no prédio do Museu Nacional. Os recursos iniciais foram aprovados no ano passado, mas não foram liberados até o momento.

Esta é a situação de dois dos principais museus brasileiros, ligados às duas maiores e melhores universidades do país. Uma situação que retrata bem nossa miséria cultural e deveria envergonhar todos os brasileiros, a começar por aqueles que estão no governo, no Ministério da Educação e da Cultura.

 

 

Incêndio atinge o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, na noite de domingo (2/9); museu é o mais antigo do país e está ligado à UFRJ. Foto: Agência Brasil

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