Festival de Cultura Digital começa com filme 3D de altíssima definição

Angélica de Moraes e Giselle Beiguelman

Publicado em: 02/12/2011

Categoria: cultura digital, Reportagem

EstereoEnsaios desbrava novas visualidades

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Imagem anaglífica produzida a partir do filme. Utilize óculos visualizador de imagens 3D. Divulgação

De hoje a 4 de dezembro acontece no Rio de Janeiro o festival CulturaDigital.Br. A abertura traz, a partir das 19h, no Odeon Petrobrás, Gilberto Gil, embaixador do evento, e palestra do professor de Harvard Yochai Benkler seguida da projeção dos EstereoEnsaios, dirigido por Jane de Almeida. seLecT vai fazer cobertura especial de tudo no Twitter, siga-nos para acompanhar. 

Mas EstereoEnsaios podemos comentar e adiantar alguns pontos. É que o filme, o primeiro realizado no Brasil na mais alta definição de imagem disponível no mercado, com um câmera que capta cinco milhões de pixeis (5k) e em terceira dimensão (3D), teve sessão fechada, exclusiva, para seLecT.

Tudo nele, exceto o comprimento das narrativas é grandioso. O cinema em que o assistimos é uma sala “gigantex, multiplex, megaplex”. A projeção, dependendo do equipamento, pode chegar a 20 milhões de pixeis por frame. 

Colocando as coisas em escala: o que chamamos de TV de alta definição (HDTV) tem 2 milhões de pixeis e não é estereoscópico. Isso deve dar um boa ideia da diferença entre as imagens a que estamos nos acostumando a ver e as que vem por aí, embaladas na tecnologia desse filme, dirigido por Jane de Almeida, professora da pós graduação do Mackenzie e realizado pela RNP (Rede Nacional de Pesquisa) e o Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (LAVID) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). 

A câmera, de 48 quilos, e seu sistema de lentes superpostas, aumenta as dimensões de tudo. Fabio Pestana, fotógrafo e camera man do projeto, que o diga. Afinal, muitas das imagens foram feitas com o equipamento nos seus ombros. Ele comenta: “É cinema do século 21, mas parece que você está lidando com as câmeras de 1910. Pesadíssimas!” 

Olhar desacelerado

O filme, em cinco segmentos mais um prólogo e um epílogo, se organiza em torno de imagens-padrão do Rio de Janeiro (paisagem, futebol, favela e samba), além de imagens inusitadas das estruturas de concreto debaixo da ponte Rio-Niterói e impactante demonstração de guindastes trabalhando na área portuária carioca e do porto em si que parecem chocar-se contra nossos óculos 3D. 

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A busca de imagens convencionais teve o objetivo de retirar a ênfase da potência narrativa da imagem para destacar a tecnologia, mas sem recair na apologia banal do equipamento. Importava mostrar a diferença que a filmagem em 4k e 3D promove na espessura e na definição da imagem.

O projeto aposta na substituição da estética da ansiedade quase demente que comanda a edição dos disaster movies hollywoodianos (notórios clientes dessa tecnologia na atualidade) por um olhar desacelerado, prazeroso, flâneur, que nos reconcilia com a percepção sem pressa da paisagem e das gentes.

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Quem nunca viu uma passista de escola de samba, com seus enormes penachos de plumas na cabeça? Em 3D, essa experiência ganha contornos inéditos: as plumas, filmadas de cima pra baixo, ameaçam tocar nosso nariz. As saias rodadas da ala das baianas da Mangueira, filmadas com a câmera quase no chão, mostram todos seus detalhes decorativos e até o modo como eles foram costurados. O samba no pé exibe cada strass da sandália e o lado interno do salto alto, em closes incrivelmente nítidos.

Os fios de um simples poste de luz da favela (cheia de ligações clandestinas, ou gatos) se estende no espaço tridimensional formando uma escultura cinética. O barco que singra a baía da Guanabara parece estar nos levando na tripulação, na proa.

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Carnaval e experimentação

A desmontagem dos clichês, a partir dos próprios clichês, implicou em momentos muito interessantes na filmagem. Jane de Almeida, a diretora, conta que as sambistas da Mangueira não sabiam o que se passaria na filmagem e ficaram intrigadas ao não ver as câmeras perseguindo seus quadris para o fatal enquadramento em close das coberturas televisivas.

 “Vendo a câmera apontada para seus pés, elas ficavam arrumando a roupa, como se pensassem que havia algo de errado com elas.” As imagens são encantadoras. Inesquecíveis também as do mar. Em alguns trechos, parece que a água vai vazar da tela. 

O projeto, desde o seu início, enfrentou os desafios tecnológicos dos grandes laboratórios de pesquisa. Desde o par único de câmeras, equipamento ainda desconhecido dos especialistas, passando pelo processamento de imagens, com cerca de 10 milhões de pixels de definição, até a exibição do filme em projetores especiais, ainda em fase de estabilização. 

O objetivo da experimentação, esclarece Jane, foi não só “formar uma competência técnica no país para a utilização desse tipo de equipamento mas, também, somar a tecnologia atual à história da estereoscopia, ancestral mais antiga do cinema em terceira dimensão”.

Os professores saíram da teoria para a prática. A iniciativa traz a rara participação de quadros da Universidade na formação de conhecimento para o Brasil atuar no novo cenário de produção de imagens. Um cenário profundamente transformado pela mudança do sistema analógico para o digital e pelo ingresso dos equipamentos 3D na produção, nas salas de projeção e até mesmo nos equipamentos de TV para uso doméstico. 

Um mercado que reafirma a hegemonia de Hollywood e coloca em risco ainda maior a capacidade de produção e conquista de visibilidade da indústria cinematográfica brasileira.

O professor Cícero Inácio da Silva. da Universidade de Juiz de Fora (MG), parceira da iniciativa, é pesquisador e co-roteirista de EstereoEnsaios. Ele observa que “esse cenário de substituição tecnológica acelerada está a exigir dos cineastas brasileiros e especialmente das cadeias exibidoras de filmes uma atualização técnica urgente”. 

Foi o que o grupo de trabalho responsável pelo filme realizou, em parte, ao trazer o estereógrafo norte-americano Keith Collea, para orientar (medir e verificar) os efeitos estereoscópicos dos equipamentos de última geração usados na filmagem.

Keith Collea é especialista em 3D e trabalhou nas filmagens do blockbuster Avatar, do diretor James Cameron. As câmeras Red Epic em 3D que ele trouxe na volumosa bagagem de 22 caixas ao chegar ao Brasil são as mais inovadoras do cinema mundial. Foi a primeira vez que o próprio Collea as utilizou para filmar cinema e não clipes comerciais. O filme tem uma única apresentação hoje no Festival de CulturaDigital.Br, com a presença da diretora e do co-roteirista.

Em sua terceira edição, o Festival acontece no Rio de Janeiro e tem o objetivo de promover o encontro entre agentes e criadores. seLecT participa do Festival de Cultura Digital.Br apresentando seu conteúdo ao público e promovendo cobertura especial do evento. 

Além de pensadores do calibre do professor de Harvard Yochai Benkler, CulturaDigital.Br traz Kenneth Goldsmith, destaque da seLecT #1 e criador da Ubuweb, e da crítica Heloisa Buarque de Hollanda, que dividem a cena com projetos inscritos na rede e ações colaborativas. 

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Confira a programação do Festival CulturaDigital.Br

Todas as imagens de divulgação 3D produzidas com apoio da produtora Célula e Mitocôndria

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