Festival Sesc_Videobrasil assume título de bienal e busca mostrar diversidade

Com artistas de 28 países, a exposição Comunidades Imaginadas destaca produções indígenas e temáticas relacionadas a ancestralidade

Luana Fortes
Still do curta O Espírito Ancestral Matis, Madiwin, e a Festa do Milho, que integra o trabalho Sobre Câmeras, Espíritos e Ocupações: Um Tríptico de Montagem-ensaio (2018), do Alto Amazonas Audiovisual (Foto: Divulgação)

A Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil chega nesta quarta-feira ao centro de São Paulo, no Sesc 24 de Maio, com obras de 55 artistas de 28 países. Após internacionalizar a exposição em 1990, focar na produção de artistas do Sul Global em 1994 e se abrir a todas as linguagens artísticas em 2011, é o momento da mostra fazer outra mudança estratégica e passar a assumir o título de Bienal para sua 21ª edição. 

“O novo nome faz mais que sacramentar uma periodicidade. Ele reflete a percepção de que nossa lógica estrutural, nossa prática investigativa e nossas aspirações curatoriais nos aproximam, mais que de festivais multiculturais, do papel desempenhado hoje pelas bienais internacionais de arte. Em especial aquelas bienais que, sobretudo na última década, vêm contribuindo para desenhar um panorama mais diverso e instigante da produção global”, esclarece a diretora artística Solange Farkas em texto do catálogo da exposição, citando como exemplo a Bienal de Sharjah, de Cuenca, de Dak’Art e de Havana. “Na contramão de bienais espetaculosas e superlativas, cujas escolhas sugerem, cada vez mais obviamente, pouca independência – quando não franca promiscuidade –  em relação ao sistema e ao mercado das artes, essas mostras são construídas a partir de olhares curatoriais plurais, inquietos e dispostos a arriscar”. 

Com curadoria de Gabriel Bogossian, Luisa Duarte e Miguel Angel López, a recém inaugurada Bienal Sesc_Videobrasil tem como título Comunidades Imaginadas, em referência ao estudo do cientista político Benedict Anderson (1936-2015) sobre tipos de organização social e comunitária que existem para além dos Estados-nação. Como de praxe, a seleção de artistas foi feita a partir de uma Chamada Aberta, que já apresentava o tema norteador, e levou 2.280 inscrições de 105 nacionalidades ao comitê de seleção integrado por Alejandra Hernández Muñoz, Juliana Gontijo e Raphael Fonseca. 

  • Imagens de Das Avós (2019), de Rosana Paulino (Foto: Divulgação)
  • Still de O Que Resta Dos Cubos de Açúcar?, de Thierry Oussou (Foto: Divulgação)
  • Still de Hidirtina/Sisters (2018), de Ezra Wube (Foto: Divulgação)
  • Still de I went away and forgot you. A while ago I remembered. I remembered I'd forgotten you. I was dreaming (2017), de Dana Awartani (Foto: Divulgação)

Ancestralidade e memória
Dos 55 nomes escolhidos, Rosana Paulino e Thierry Oussou tiveram obras comissionadas para a exposição internacional. Paulino surpreendentemente apresenta uma videoinstalação, linguagem pela qual é pouco conhecida, chamada Das Avós (2019), em que propõe reflexões sobre ancestralidade e memória. O assunto também aparece na obra O Que Resta Dos Cubos de Açúcar? de Oussou, nascido em Allada, no Benim. O artista veio ao Rio de Janeiro para realizar o vídeo, interessado em coletar imagens e depoimentos sobre a história do Museu Nacional e do Museu Memorial Cemitério dos Pretos Novos. “Para mim é muito importante falar sobre herança, pois parece que cada vez mais querem apagar a nossa história e a nossa identidade”, disse o artista à seLecT. “O incêndio que atingiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro não foi uma perda para o Brasil, foi para muitos outros países, inclusive o Benim”. 

“A (não) elaboração do passado e suas consequências no Brasil atual” é tema de um dos seminários organizados pelo Programa Público da 21ª Bienal Sesc_Videobrasil, que acontece com a participação de Rosana Paulino, da psicanalista e jornalista Maria Rita Kehl e mediação de Luisa Duarte, em 15/10, às 17h30. Outro grande destaque da programação do Seminário Comunidades Imaginadas ocorre em 12/11, às 15h, quando as pesquisadoras Lucy Lippard e Aracy Amaral falam sobre “Os limites e as promessas da arte política”, mediadas por Miguel Angel López.

  • Imagem do curta Estrelando Uma Câmera Reflexiva, que integra o trabalho Sobre Câmeras, Espíritos e Ocupações: Um Tríptico de Montagem-ensaio (2018), do Alto Amazonas Audiovisual (Foto: Luana Fortes)
  • Imagem do curta Estrelando Uma Câmera Reflexiva, que integra o trabalho Sobre Câmeras, Espíritos e Ocupações: Um Tríptico de Montagem-ensaio (2018), do Alto Amazonas Audiovisual (Foto: Luana Fortes)
  • Off the Reservation (Or Minnesota Nice), 2012, de Jim Demnomie (Foto: Divulgaçã)
  • Still de GRIN (2016), de Roney Freitas e Isael Maxakali (Foto: Divulgação)
  • Registros da instalação Jeguatá - caderno de viagem (2018), de Ana Carvalho, Ariel Kuaray Ortega, Fernando Ancil e Patrícia Ferreira Para Yxapy (Foto: Divulgação)
  • Still de Guardiões da Memória (2018), de Alberto Guarani (Foto: Divulgação)

Produções indígenas
“Para falar da exposição, acho importante reforçar a presença fundamental do mundo indígena, não só brasileiro, mas também de representantes do México, Estados Unidos e Nova Zelândia”, chama a atenção o curador Gabriel Bogossian em coletiva de imprensa. De fato, a presença de artistas e coletivos de comunidades indígenas é impressionante. 

O grupo Alto Amazonas Audiovisual exibe a videoinstalação Sobre Câmeras, Espíritos e Ocupações: Um Tríptico de Montagem-Ensaio composta de três curta-metragens interdependentes produzidos na terra Vale do Javari. O trabalho teve início com uma oficina de cinema e é parte do mestrado de Markus Enk na Universidade de Leiden, chamado Espíritos resistem para existir ou existem para resistir? Antropologia e cinema baseado em equivocações colaborativas com os povos indígenas Kanamari e Matis do Vale do Javari, Amazonas, Brasil. Os vídeos dissolvem noções de autoria e desestabilizam tentativas de representações etnográficas. 

“Eu comecei a filmar para eu não perder minha cultura, a diversidade dos povos Matis. Fui fazendo documentários, filmagens várias sobre como eles vivem, o que eles comem, como é a cultura dos povos Matis da terra indígena Vale do Javari”, conta à seLecT Shapu Mëo, um dos autores do trabalho. No curta Política Saudável Para Quem?, imagens documentadas por um grupo Kanamari registram a ocupação de um posto da Secretaria Especial de Saúde Indígena. “Nós estamos preocupados pela saúde dos povos indígenas do Vale do Javari, que não tem medicamentos, não temos funcionários que trabalhem lá nas áreas indígenas. O governo está cortando recursos. Por isso é que a gente veio até aqui falar sobre isso”, relata Shapu. 

Em 24 de setembro deste ano, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava) divulgaram uma carta (acesse aqui) denunciando acontecimentos que têm colocado em risco a vida dos povos que vivem nessa região e pedindo ações governamentais para a garantia da vida digna e da segurança jurídica do território demarcado, reconhecido em 2001 pelo Estado.

Na quinta-feira, 14/11, às 17h30, acontece o seminário Resistência e Imagem na Produção do Mundo Indígena, mediado pelo fotógrafo e cinegrafista Kamikia Kisêdjê, com o pesquisador Mario A. Caro e o ativista Ampam Karakras.

Para conferir a programação completa de seminários, clique aqui.

Serviço
21a Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas
Até 2/2/2020
Sesc 24 de Maio
Rua 24 de Maio, 109 – São Paulo
sescsp.org.br/24demaio
site.videobrasil.org.br

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.