Filhos de Méliès

Juliana Monachesi

N° Edição: 6

Publicado em: 04/09/2012

Categoria: Reportagem, visuais

A infância do cinema influencia artistas da animação, como Thomas Demand, Nathalie Djurberg e Tom Thayer

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Legenda: Foto: The Parade (2011), vista da instalação de Nathalie Djurberg, com música de Hans Berg, no Walker Art Center, em Minneapolis (Gene Pittman / Cortesia Zach Feuer Gallery, New York, e galeria Giò Marconi, Milão)

Os primeiros efeitos especiais, praticados por Georges Méliès no século 19, estão longe de esgotados. A infância do cinema ainda influencia muitos artistas trabalhando com animação nos dias atuais. E o assombro que uma foto como Frances and the Dancing Fairies (1917), de Elsie Wright, que foi utilizada como prova da existência de fadas, causou no início do século 20 continua sendo atualizado por vídeos tecnicamente tão simples, como Rain, de Thomas Demand, exposto em 2011, na mostra Água na Oca, em São Paulo, e até recentemente no Museu Histórico Nacional, no Rio.

http://www.youtube.com/watch?v=j8mCKS8T_Ko

Legenda: Rain, de Thomas Demand (reprodução)

A chuva, no vídeo, foi recriada com fotos de papel de bala prateado amassado e reaberto em centenas de variações registradas pacientemente pelo fotógrafo alemão. O trabalho de Demand consiste, todo, na confecção perfeccionista de pequenos cenários que reproduzem com exatidão espaços arquitetônicos internos desabitados. Quando participou da 26ª Bienal de São Paulo, Thomas Demand expôs a videoanimação Tricks (2004) juntamente com suas fotografias, mas o stop motion é uma variante menos frequente em sua produção.

Já a artista sueca Nathalie Djurberg e o norte-americano Tom Thayer escolheram o stop motion para construir suas narrativas. A técnica é realizada a partir de sequências de tomadas fotográficas em que o efeito animado é obtido pelo registro de pequenos movimentos que resultam no quadro a quadro cinematográfico. Exatamente como foi montada Viagem à Lua (1906), de Georges Méliès.

Ao animar seus personagens de massinha (Djurberg) e papel (Thayer) e criar filmes caseiros com aparência propositalmente amadora, esses Méliès contemporâneos dialogam a um só tempo com a história do cinema e das técnicas ilusionistas e com o universo da fabulação infantil dos livros e desenhos animados. Mas as narrativas tendem a enveredar por roteiros e desfechos inapropriados para menores, sobretudo na obra de Djurberg.

Uma garota se melindra com o comportamento de um tigre, mas acaba levando-o para a cama (Tiger Licking Girl’s Butt, 2004). Crianças tentam atravessar um obstáculo, mas acabam devoradas por crocodilos (Moving on to Greener Pastures, 2008). Uma mulher mata uma morsa, abre sua barriga e mergulha dentro dela (Putting Down the Prey, 2008). O pé de uma mulher fica preso em uma armadilha para animais e uma raposa abocanha sua perna para liberá-la (A World of Glass, 2011). Feitas de plasticina colorida, as figuras de Nathalie Djurberg são remodeladas em uma nova pose para cada tomada e, terminada a obra, costumam ser destruídas.

Legenda: Vídeo para a mostra The Parade, animação Nathalie Djurberg with Music by Hans Berg.

As animações são cheias de solavancos, os cenários são instáveis e os fios de apoio costumam ficar visíveis. Imperfeições na massinha de que são feitas as figuras e erros linguísticos nos textos – que acompanham, por vezes, a narrativa – são deixados sem correção. Esses elementos toscos conferem aos filmes da sueca uma vulnerabilidade que os humaniza.

Djurberg cita as animações húngaras como forte influência. “Um dos meus favoritos é My Green Crocodile, de Yuri Norstein. Eu não gosto da maneira high tech de fazer animação, sobretudo porque ela demanda uma espécie de paciência que eu não possuo. Gosto de estar em contato direto com o meio e ter a possibilidade de mudar facilmente a direção da animação, se eu sentir que outro caminho é mais interessante”, conta em entrevista à seLecT.

Os filmes de Tom Thayer tendem mais à abstração, com seus característicos bonecos toscos de papelão e saturação de cores. Além dos vídeos animados, o artista costuma expor assemblages e pinturas, e seus displays favoritos são tecnologias obsoletas, como os monitores de tevê e toca-discos que utilizou na Bienal do Whitney Museum, em 2012. Nos últimos dez anos, Thayer criou um léxico que funde ingenuidade infantil com divagações psicodélico-visionárias.

Ele está interessado na maneira como gestos humanos aparecem quando são processados em materiais humildes, como papelão. “Quando um material obviamente inanimado, como papelão ou pedaços de papel, é transformado pelo advento de uma qualidade gestual, há algo de mágico que acontece com a comunicação. É como isolar ou extrair algumas das nossas qualidades mais tocantes e examiná-las por um momento. É como ser capaz de olhar para um espelho e ver alguma essência da vida sobre a qual você não pensa todo dia”, conta o artista no audio guide da Bienal do Whitney.

Thayer declara-se interessado na transformação de materiais. “Muitas dessas coisas tiveram uma história funcional. Elas tiveram uma vida anterior ligada a uma função”, afirma, sobre os objetos que compõem a instalação The Psychogeography of a Nearby Highpoint (2012). “Uma pintura muitas vezes é algo que foi filmado como parte do cenário de uma animação e muitas vezes possui elementos pendurados de frente que foram, talvez em outro momento, um boneco ou uma escultura que eram vistos no espaço. As colagens são geradas a partir dos vídeos animados pelo processo de stop motion com cortes de papel”, explica ainda o artista.

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Legenda: Frame do vídeo Didn’t you know I’m made of butter (2011), de Nathalie Djurberg, com trilha música de Hans Berg

Se, para Tom Thayer, os desdobramentos espaciais da obra são uma consequência natural do trabalho com animação, para Nathalie Djurberg, apenas recentemente os objetos ganharam autonomia. O processo começou na exposição individual Turn Into Me (2008), na Fundação Prada, em Milão, quando criou esculturas e instalações para abrigar seus vídeos.

Até o dia 26 de agosto, Nathalie Djurberg estará expondo, no anexo do New Museum (Studio 231), a instalação Parade (2011), criada originalmente para o Walker Art Center, em Minneapolis. A obra consiste em cinco animações projetadas em um espaço que está tomado por 80 esculturas de pássaros coloridos. Curiosamente, o pássaro é uma figura onipresente também na produção de Thayer. Esse fascínio poderia ser explicado pelo fato de o animal ser um dos poucos seres que desconhecem a imobilidade. O pássaro seria, nesse caso, uma metáfora para artistas visuais que estão sempre insuflando vida e movimento em suas criações inanimadas.

E a pulsão parece mais frequente do que se imagina. No ano passado, o Barbican Center, em Londres, realizou uma exposição chamada Whatch Me Move: The Animation Show, que contava a história da animação com filmes que iam de Hanna-Barbera a Pixar, dos irmãos Lumière a Steven Spielberg, de Jan Svankmajer a Tim Burton, de Fernand Leger a William Kentridge. E trazia dezenas de artistas plásticos que fazem ou já fizeram animação, como Francis Alys, Christian Boltanski, a própria Djurberg, Harun Farocki, Terry Gilliam, Julian Opie e Kara Walker, entre outros.

*Publicado originalmente na edição impressa #6.

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