Fluxos, fixos e fluidos

O espaço público como componente ativo no trabalho de Aleta Valente, Cecilia Cipriano, Guga Ferraz e Opavivará!

João Paulo Quintella
Chuva Verão (2014), intervenção urbana do coletivo Opavivará! (Foto: Opavivará!)

“Na verdade, a cidade do Rio não existe ainda” – Le Corbusier, 1936
Esta frase serigrafada no vidro do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro pelo artista Laercio Redondo, em sua recente exposição na cidade, atrita com o que vemos através: o deslumbramento moderno diante das curvas da natureza, que aqui é verde e concreta. Existe um Rio de Janeiro, um projeto de Rio de Janeiro, um passado do Rio de Janeiro. Tudo em uma linha só, cheia de C A N T O S.

Desgovernada, cheia de fraturas. Assim a cidade avança sobre a paisagem natural, em uma espécie de confluência urbana do absurdo. As dobras, ladeiras e cantos são meios perfeitos para a proliferação de microrganismos dentro da cidade imperfeita. Nos encontros fortuitos que surgem nos trânsitos e fluxos dessa cidade é que se instala o trabalho de Aleta Valente.

Por meio de seu avatar no Instagram, EX_MISS_FEBEM, a artista apropria-se do espaço virtual e faz dele arena, devir, cidade. O instantâneo, forte componente da vida social carioca, é a via para a materialização de um trabalho que se faz de unha-sangue-carne-osso – algo ainda estranho ao mundo digital envernizado. Não por acaso, ela foi banida do Facebook diversas vezes, em razão de denúncias de haters engajados (ou com muito tempo livre) e de diretrizes impostas por pudores corporativos.

No Instagram, o tempo é outro, mais colado à RL (realidade). Com o celular como dispositivo e uma plataforma como meio, o escoamento de imagens é mais natural. A superexposição fortalece os sinais vitais da EX_MISS_FEBEM. Os excessos conferem-lhe movimento. A profusão induz a um descontrole (ou seria fluidez?) necessário. E o trabalho de Aleta Valente se faz na diluição do sujeito na experiência, na fluidez corpo-cidade. Quando os fluxos urbanos se confundem com os fluidos do corpo, sedução e sexualidade desentopem veias.

Quando gera um meme com uma foto de uma “quentinha” sobre seu corpo seminu, ela avança sobre o imaginário da figura feminina no Rio de Janeiro, escancarando os pontos de vista arcaicos que aparecem nos comentários. O trabalho faz-se também em suas respostas e nos diálogos sem travas que se desdobram na interface do dispositivo, onde pulsa um corpo vulnerável e exposto aos desfechos da cidade.

  • Trabalho de Aleta Valente no Instagram, onde usa o avatar EX_MISS_FEBEM (Fotos: Cortesia da artista, reprodução Instagram)

Apagar o fixo
A tomada do espaço público como componente ativo do trabalho também acontece no coletivo Opavivará!, para quem a rua é lugar de criação. Seus projetos propõem arranjos, gestos, ritos que potencializam a experiência no espaço. Como os chuveiros instalados a céu aberto (Chuva Verão, 2014), que movimentam as águas paradas do Rio de Janeiro. Na experiência do banho coletivo, eles alternam prática íntima e situação pública. Sem essas dinâmicas que reviram a determinação da ordem urbana estanque, estaríamos fadados “à anulação daquilo que faz das vidas um evento singular no mundo”, como diz Moacir dos Anjos no texto Três Coisas Que Eu Acho Que Sei Sobre Opavivará!.

Em Pula Cerca (2009), oito pares de escadas apontam o conflito de interesses no espaço público da Praça Tiradentes. As grades, hoje retiradas, geravam, na época em que o trabalho foi instalado, um impedimento de uso pela população. Com uma simples escada, o Opavivará! anulava a incongruência irônica de um espaço público com restrições ao uso público, suprimindo a estrutura fixa e propondo um novo fluxo.

Pula Cerca (2009), na Praça Tiradentes; intervenção urbana do coletivo Opavivará! (Foto: Opavivará!)

Demarcar o esquecimento
Na contramão do apagamento e do esquecimento, Guga Ferraz desenvolve uma pesquisa sobre formas de tornar visíveis geografias transplantadas do Rio de Janeiro. Ele parte das operações de remoção e movimentação de terra, que, ao longo da história, redesenharam o território da cidade em nome do desenvolvimento. Oitenta anos depois da passagem de Le Corbusier pelo Rio – deixando a proposta de um viaduto sinuoso e habitável –, o entendimento da cidade pelo poder público continua debruçado na opção rodoviária e na supressão da paisagem natural pelo cimento. Vide o projeto da Transolímpica, via expressa de ônibus que deve ser inagurada, em junho, na Barra da Tijuca, zona oeste.

Em Até Onde o Mar Vinha. Até Onde o Rio Ia. (2014), Guga Ferraz faz da ausência, presença. O projeto consiste em demarcar, com 3 toneladas de sal grosso, os limites da extinta Praia da Lapa, que tocava o Morro do Castelo. Foi ali que os portugueses expulsaram os franceses e retomaram o controle da costa brasileira, em 1560.

Até Onde o Mar Vinha. Até Onde o Rio Ia (2014), de Guga Ferraz, desenha com sal os limites da extinta Praia da Lapa, que tocava o Morro do Castelo, e foi aterrada na reforma do prefeito Pereira Passos, no início do século 20

“A pé, dali, era impossível avançar porque dariam naqueles mesmos pântanos que se interpunham entre a zona do delta e o Morro do Castelo. E as naus, isoladas na baía, não tinham como enfrentar a fortaleza”, anota o escritor Alberto Mussa, em A Primeira História do Mundo (Record, 2014). O Morro do Castelo era, portanto, uma geografia decisiva, subtraída a partir da vontade do Estado, em 1922.

Corte aberto
Talvez o mais grave na história das alterações da paisagem urbana não sejam as remoções de terra, mas das casas e das famílias, atropeladas por projetos urbanísticos. Como revitalizar algo que está vivo permanece um mistério. Entre 2012 e 2015, a artista Cecilia Cipriano frequentou o Morro da Providência, localizado entre os bairros Santo Cristo e Gamboa, na zona central do Rio de Janeiro, onde um projeto de teleférico fazia parte da Operação Urbana Consorciada Porto Maravilha.

Cipriano acompanhou o processo de marcação das casas pela Secretaria Municipal de Habitação, que aconteceu com a pichação dos muros das casas com a sigla SMH. Ao contrário dessa tática embutida de terror psicológico, a artista desenvolveu uma relação baseada no afeto. Em diálogo com os moradores e em sintonia com suas vontades, propôs uma alteração arquitetônica nas casas condenadas ao desmanche. O Corte (2012-2015) permitiu novas perspectivas da cidade. “Pelas frestas abertas em dezembro de 2012, conseguimos dar o zoom na cidade atual, numa cidade refém do mercado, em detrimento do direito de seus cidadãos”, escreve Ana Hupe, artista e curadora da exposição resultante do projeto. A prática de Cecilia Cipriano é feita de visibilidade e não de supressão. Soma novos fluxos a espaços pulsantes. Adere à lógica das justaposições que determina a complexidade dessa metrópole. Em uma fase de intensas e profundas transformações urbanas está em jogo o estado das coisas na cidade.

O Corte (2012-2015), de Cecília Cipriano, intervenção no Morro da Providência, realizada em casas marcadas para demolição (Foto: Mirada Filmes)

O Corte (2012-2015), de Cecília Cipriano, intervenção no Morro da Providência, realizada em casas marcadas para demolição (Foto: Mirada Filmes)

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