Folias psicodélicas ou a cidade como floresta de fungos

Fungos e cogumelos são foco de vários trabalhos artísticos espalhados pela cidade de São Paulo

Paula Alzugaray
Paula Alzugaray é diretora de redação da seLecT, crítica de arte, jornalista e curadora independente (Imagem: Ricardo Van Steen)

Se o projeto da 32ª Bienal de São Paulo é assumir a incerteza como um sistema de orientação, o cocurador Lars Bang Larsen vem afirmar essa tese revelando a micologia (o estudo dos fungos) como movimento cultural e tema recorrente na arte contemporânea. Para a exposição Incerteza Viva, curadoria geral de Jochen Volz, ele convidou pelo menos seis artistas envolvidos com o que poderia ser visto como uma espécie de sociedade secreta da fungicultura.

O time de micologistas presentes na 32ª Bienal é formado por artistas ligados à ecologia, à agricultura orgânica, à psicodelia, ao xamanismo, e críticos ao modelo de desenvolvimento capitalista e sua relação com a natureza. Incluem-se a colombiana Alicia Barney (que realizou instalação com esculturas de cogumelos feitos de papel e resina, no Parque do Ibirapuera), a finlandesa Pia Lindmann (envolvida na pesquisa de culturas de cogumelos e na aplicação de técnicas de cura pré-científicas), o dinamarquês Rikke Luther (autor de instalação que aborda o colapso das utopias modernas, na qual está incluída a escultura de um fóssil de prototaxites – possível ancestral dos fungos que habitaram a Terra há cerca de 400 milhões de anos), Nomeda & Gediminas Urbonas, duo de artistas lituanos residentes nos EUA, onde realizam pesquisa científica no MIT (desenvolve o projeto Psychotropic House: Zooetics Pavilion of Ballardian Technologies, que explora maneiras de conectar o conhecimento humano com a inteligência de outras formas de vida, no caso o fungo micélio); e o camaronês Em’Kal Eyongakpa (que relaciona os reinos da botânica e da vida artificial).

Como se não bastasse, há ainda a polonesa Iza Tarasewicz, que em 2014 realizou o projeto Fungo Follies, evocando o compositor John Cage, notabilizado como o maior entendedor de cogumelos nas vanguardas do século 20, que em 1958 venceu um concurso sobre o tema na televisão italiana e profetizou: “Não há sentido em querer compreender os cogumelos. Eles escapam à nossa erudição. Quanto mais se sabe sobre eles, menos certeza você tem de identificá-los”.

Valle de Alicia (2016), intervenção no Parque Ibirapuera (Foto: Paula Alzugaray)

Valle de Alicia (2016), intervenção no Parque Ibirapuera (Foto: Paula Alzugaray)

Por essa amostragem de pesquisas entende-se que o tema é profícuo – para não dizer fascinante –, mas sua presença nesta primavera paulistana não se restringe aos limites do Pavilhão da Bienal nem do Parque. Adepto e teórico das relações entre arte e psicodelia, o dinamarquês Bang Larsen reuniu-se em setembro no Pivô Arte e Pesquisa com a artista polonesa Paulina Olowska e o curador Milovan Farronato, diretor artístico do Fiorucci Art Trust, em um aquecimento (ou ensaio geral) para a pré-estreia de um evento artístico-teatral-vivencial, o Mycorial Theatre.

Dirigido por Olowska e Farronato, o projeto Mycorial Theatre foi criado em uma antiga casa dos anos 1930, em Rabka-Zdrój, no sul da Polônia, envolta em histórias de fantasmas. Transformada em residência, a Villa Kadenówka recebeu 15 artistas convidados para trabalhar sobre o meio ambiente do entorno, repleto de espécies raras de cogumelos. A vivência partiu de uma caminhada de dois dias pela floresta catando fungos. À noite, no abrigo, as experiências se transportavam para a culinária e, de volta à Villa, as vivências apoiadas em experiências empíricas e transcendentais, eram compartilhadas em rituais dignos das sociedades secretas.

Transferido para o Pivô, o Mycorial Theatre convidou um elenco estrelado por AVAF, Paloma Bosquê, Lucia Koch, Adriano Costa, Anna Bella Geiger, entre outros, para vivenciar a cidade de São Paulo como uma floresta de fungos. A peça, performance ou manifesto encenado no final tem como título The Mycorial Hunt: From Theatre to the Mushroom at the End of the World, que parafraseia um clássico do gênero, o livro The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins, da antropóloga Anna Lowenhaupt Tsing.

Buda e Alexandre I morreram envenenados por cogumelos. Mas nesse retorno à folia psicodélica, a comunidade contemporânea de caçadores de cogumelos não busca a imortalidade. Seria, talvez, a sobrevivência dos modelos colaborativos no contexto da ruína do capitalismo?

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