Fora do mapa da arte

A curadora Daniela Labra reflete sobre desafios e imprevistos envolvidos no processo de realização da Trienal Frestas 2017, em Sorocaba

Daniela Labra
Gordura Trans (2017), de Miro Spinelli: pesquisa sobre a subjetividade e potencialidade do corpo gordo sem identidade de gênero marcada traz crítica aos discursos que restringem a identidade à biologia (Foto: Márion Strecker)

A proliferação de grandes exposições periódicas internacionais, como bienais, trienais e afins, é um fenômeno crescente desde a década de 1990. Até então, além da Bienal de São Paulo (1951), poucas eram as mostras não europeias nesses moldes. Em 1984, a Bienal de Havana foi a primeira focada em artistas latinos e, em 1995 e 1997, a África do Sul realizou a Bienal de Johannesburgo. Hoje há mais de 150 eventos do tipo no mundo e a dita bienalização responde tanto a demandas de maior produção e consumo de arte contemporânea, aliadas à criação de cursos de arte, centros culturais e feiras, quanto ao desejo de inserção, visibilidade geopolítica e ganhos econômicos das cidades anfitriãs.

A Trienal Frestas, realizada pelo Sesc local, é uma iniciativa da instituição e, portanto, não é uma Trienal de Sorocaba. Esse fator define o estatuto do evento e seus objetivos: oferecer uma boa programação com ações de formação de público e capacitação profissional na área artística fora dos grandes centros, mais do que inserir, política e culturalmente, a cidade no mapa internacional das artes. Isso libera o curador das pressões e expectativas das políticas locais, embora também seja um empecilho para negociar obras em espaço urbano, sua manutenção e permanência, uma vez que o apoio público é mais burocrático do que logístico. Tal fato inviabilizou propostas que necessitavam de estrutura e mão de obra fornecida pelo município, como algumas inicialmente pensadas para ocupar marcos da cidade, como construções da antiga EF Sorocabana e a icônica ruína da Basílica de São Lucas (a Aranha do Vergueiro), abortadas por falta de apoio extra para segurança, iluminação e limpeza. Ainda assim, conseguimos apresentar um circuito de intervenções urbanas que foi bem-sucedido.

Uma trienal jovem e não oficial da cidade é identificada internacionalmente como mais uma grande exposição em localidade estranha, o que atrapalhou o contato e a exibição de alguns artistas de peso inéditos no Brasil, blindados por galerias lamentavelmente arrogantes. Por outro lado, contamos com a parceria de estabelecimentos, instituições e colecionadores fundamentais para apresentar obras de Francesca Woodman, On Kawara, Susan Hiller, Wanda Pimentel, Diango Hernandez e Teresa Margolles, entre outros.

Obra de Francesca Woodman (Foto: Luccas Villela)

A curadoria discutiu a impossibilidade de definir Verdade tanto na arte como nos discursos políticos globais, tão manipulados por fake news, memes e dispositivos robóticos. Foram escolhidas propostas e obras, muitas comissionadas, de 60 artistas de diferentes países e gerações que lidam com ambiguidades formais, disciplinares e conceituais, em temas ligados a questões de gênero e sexualidade, performatividade, situações políticas, problemáticas urbanas e narrativas históricas contraoficiais, entre outros. Desse modo, construímos um corpo de obras de arte que colocou em xeque a noção de verdadeiro em várias instâncias culturais e sociais, e também apresentou uma gama de singulares procedimentos de pesquisa em arte.

Nos comprometemos com uma mostra plural e potente em suas perspectivas poéticas e críticas, que narrasse as idiossincrasias do Brasil e do mundo atual com projetos inéditos, sendo alguns processuais. Muitos tiveram forte cunho contestatório e político, e geraram situações de tensão internamente, ora pelo conteúdo que poderia constranger a instituição e a equipe, ora por embates que dificultavam atender aos procedimentos engessados da realização de uma trienal. Imprevistos como materiais não adequados, performances inesperadas, conteúdos polêmicos e decisões artísticas insubordinadas criaram conflitos e tensões, desafiando a curadoria no seu forçoso papel de mediadora e fazendo o próprio Sesc pensar em estratégias de posicionamento e diálogo com artistas.

Grafite de Panmela Castro no edifício da Secretaria de Cultura de Sorocaba (Foto: Indiara Duarte)

Um dos casos foi a rede de arte-ativismo O Nome do Boi, criada só para o evento com artistas militantes e multimídia, arte-educadores, professores e outros, para pensar a deterioração da política brasileira desde o impeachment (ou golpe) contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Algumas ações da rede, articuladas sem conhecimento da instituição e até da curadoria, causaram previsível desconforto, atingindo alas conservadoras da política e da sociedade local. Houve receio entre a equipe da exposição de que a rede ganhasse destaque sensacionalista na mídia e provocasse reações de ódio, gerando escândalos que ofuscariam a totalidade do projeto de Frestas. No entanto, suas ações impactaram de início, mas depois não tomaram maior volume, posto que foram abrandadas pela própria desmoralização pública do governo federal.

A Trienal Frestas 2017 discutia fake news, mas promoveu fatos reais e, pouco antes da abertura, um vereador pastor entrou com ação no Ministério Público contra o grafite sobre o universo e o corpo feminino de Panmela Castro, acusando-o de criminoso e ofensivo às “mulheres de bem”. Rapidamente o caso caiu no ridículo, mas antecedeu a onda de moralismo acéfalo contra obras e museus que tomou o País do faz de conta. O desafio de organizar uma mostra pujante no interior, onde o circuito de artes e de centros culturais é ínfimo, foi muito positivo, mas há ainda bastante público por atrair; o investimento alto e o esforço esmerado de tantos profissionais envolvidos merecem ser contemplados. Arte é para todos e, na diversidade de uma mostra como esta, tal afirmação é uma verdade de fato.

Serviço
Frestas – Trienal de Artes: Entre Pós-Verdades e Fatos
Encerrada
Sesc Sorocaba
Rua Antônio Cândido Pereira, s/nº, Sorocaba, SP e outros locais da cidade
frestas.sescsp.org.br/2017

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