A forma e o risco

Após três edições de caráter mais experimental, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se consolida no circuito de eventos arquitetônicos internacionais

Diego Inglez de Souza

Publicado em: 03/02/2017

Categoria: Amantes, Da Hora

A Central Tejo, que abriga parte do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia e recebeu o módulo expositivo A Forma da Forma, na 4ª Trienal de Arquitectura de Lisboa (Fotos: Diego Inglez de Souza)

Entre outubro e dezembro de 2016, aconteceu a 4ª Trienal de Arquitectura de Lisboa, edição batizada de A Forma da Forma pelos curadores André Tavares e Diogo Seixas Lopes. As exposições, instalações e workshops tiveram lugar em museus, centros culturais, edifícios históricos e equipamentos públicos da região metropolitana da capital portuguesa. Após três edições de caráter mais experimental em termos de formato, ambições e objetos, a Trienal se consolida no circuito de eventos internacionais que debatem e pautam questões e caminhos para a arquitetura contemporânea.

A espinha dorsal da Trienal é uma espécie de tríade de exposições que confronta três dimensões fundamentais da arquitetura, não sem dissonâncias: o projeto e sua concepção, o processo de construção destes objetos na paisagem e os territórios, representados por uma coleção de visões de situações urbanas prováveis ou desejáveis. A clara definição destes eixos abriam para o visitante uma experiência múltipla: o programa e o calendário eram complementados por satélites, projetos associados e eventos que foram incorporados à estrutura da Trienal.

Entre o desenho e a obra

A exposição Obra, apresentada na brutalista sede da Fundação Calouste Gulbekian, é a mostra que apresenta conteúdo mais concreto. Jogar luzes sobre os canteiros de obra, expor suas entranhas e conflitos, abrindo as caixas pretas que cercam as espetaculares realizações modernas e contemporâneas é tão revelador quanto pouco usual no mundo das grandes exposições sobre arquitetura. De acordo com os curadores: “Da comunicação entre projecto e obra, da organização do tempo e do dinheiro, até à retórica política ou à excitação tecnológica, é na obra que tudo se joga”. Expõem-se os diversos processos construtivos, a partir da industrialização da ciência hennebiquiana do concreto armado, passando por realizações recentes e simbólicas para a arquitetura européia, chegando ao minucioso trabalho de assessoria à autoconstrução e estímulo à autogestão praticada pelos brasileiros da Usina. O documentário que apresenta a produção do grupo nos remete aos princípios elementares de uma arquitetura consequente: ser bem construída e socialmente justa inicialmente, para ser expressiva em seguida e em consequência deste engajamento na realidade concreta da obra.

Modelo 3D como ferramenta na obra da Casa da Música do Porto

Modelo 3D como ferramenta na obra da Casa da Música do Porto

 

Ao percorrer esta cuidadosa seleção, entrevemos as possibilidades de uma outra história da arquitetura vista a partir da história social dos canteiros mas também a possibilidade da crítica da arquitetura fora dos domínios das intenções do arquiteto-artista. Em uma análise exaustiva do processo que começa na encomenda e se encerra na apropriação de uma obra monumental como a Casa da Música do Porto, projetada pelo OMA de Rem Koolhaas, passando pelo desenho e pelo canteiro marcados pelo desrespeito aos prazos, custos e materiais, para além do trabalho, emergem questões dissonantes com o discurso dos arquitetos e dos tomadores de decisões que se empenham nestas realizações ambiciosas.

O vanguardismo utópico dos Archigram vira ambiguidade pragmática nas propostas de Cedric Price para a reorganização dos canteiros da McAppy em resposta ao movimento grevista no setor nos anos 1970. As ferramentas características da arquitetura ilustram os procedimentos e as deseconomias dos canteiros da empresa e apontam possibilidades de operações mais produtivas, longe de abalar as lógicas produtivas. Num tom mais divertido, na compilação de desenhos animados soviéticos e norteamericanos Coreographies, personagens voam e posam de maneira eufórica sobre placas de concreto pré fabricado ou caminham sonâmbulos sobre perfis metálicos içados por gruas em meio a skylines delirantes. A relação entre ideologia e tecnologia durante a guerra fria se revela com clareza, assim como uma certa confiança cega na técnica e no progresso.

Módulo expositivo A Forma da Forma

Módulo expositivo A Forma da Forma

 

Os riscos da forma

Já a exposição A Forma da Forma, que tal qual um “single” que dá nome a um Long Play, empresta seu nome a esta edição do evento. Trata-se de uma abordagem que comporta um certo risco, debruçando-se sobre a episteme mesma da arquitetura, na medida em que enfoca a concepção formal dos projetos arquitetônicos e suas interlocuções com o campo da arte e da própria arquitetura, seja através de uma espécie de atlas imaginário compilado pelo escritório Socks studio, seja através do espaço expositivo instalado nas margens do Tejo, uma espécie de colagem espacial elaborada pelas equipes dos escritórios Office KGDVS (Bélgica), Johnston Marklee & Associates (EUA) e Nuno Brandão Costa (Portugal) a partir dos seus próprios projetos.

Como diriam os lusos, aí tem piada: arquitetos americanos, belgas e um português estão na beira do rio, como na anedota. O que eles fazem? Tudo, menos arquitetura. Exercícios formais pra cá, pra lá, citações artístico-arquitetônicas a torto e a direito, alvenarias provisórias e painéis de gesso à vontade, gentilmente oferecidos pelo patrocinador e o que resulta é uma maquete 1:1, um mock-up de ambientes e espaços sem função, cadavre exquis espacial no qual uma sala de uma mansão chinesa se abre sobre o modesto cômodo de uma casa popular do Porto. Sinal dos tempos e da inutilidade sublime para alguns, exercício parnasiano para turistas ingleses, contraste de escalas e proporções talvez, jogo sábio e magnífico de volumes sob a luz, provavelmente não.

O novo MAAT instalado na beira do Tejo

O novo MAAT instalado na beira do Tejo

 

Para o público, a colagem das formas pareceu funcionar como objeto de fetiche, atração e estranhamento que completa o espetáculo formalista do novo edifício do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), projetado pela inglesa Amanda Levete. O novo MAAT surge antes como objeto na paisagem e mais tarde enquanto proposta curatorial ou museográfica, espécie de reinvenção ou repetição do exaurido modelo do Guggenheim de Bilbao.

As possibilidades de leitura dos conteúdos apresentados é múltipla e esta talvez seja a principal riqueza desta edição da Trienal. Já a reafirmação da dimensão formal da disciplina parece comportar alguns riscos. Como no caso dos neons sobre arranha-céus de Shangai que imprimem na paisagem urbana ‘I am what I am’, slogan de uma companhia de tênis inglesa mobilizado pelo Comitê invisível em A Insurreição que Vem (2007), corre-se o risco de isolar completamente a forma de seus conteúdos, premissas, contexto e concretização, transformando-a em linguagem abstrata: “Décadas de conceitos para aqui chegar, à tautologia pura”.

Cartazes da Trienal de Arquitectura nas ruas do centro de Lisboa

Cartazes da Trienal de Arquitectura nas ruas do centro de Lisboa

 

O mundo aos nossos olhos

A tríade de exposições principais da Trienal se completa com O Mundo aos Nossos Olhos, exposição que ocupou a Garagem Sul do Centro Cultural de Belém e que reuniu leituras prospectivas, analíticas e retrospectivas do fenômeno de urbanização galopante que acontece simultaneamente em diversas regiões do planeta, sob diferentes premissas, condições e formas. De acordo com os curadores do FIG Projects: “Os arquitectos não só têm ‘olhos’ para observar a cidade, mas também de investigação, necessários para a mapear e compreender.”

Trata-se de um vasto panorama de pesquisas, projetos e situações urbanas que procuram analisar o momento contemporâneo do fenômeno da urbanização no mundo através perspectiva dos arquitetos, sejam elas diagnósticos, projetos ou perspectivas no seu sentido amplo, incluindo ilustrações de distopias como A Petrópolis do Futuro, complexo urbanístico projetado por norteamericanos para explorar os recursos do pré-sal brasileiro. Algumas destas visões, ainda que possíveis e até mesmo sedutoras em termos de imaginário espacial e arquitetônico, se revelam bastante indesejáveis do ponto de vista ambiental ou mesmo político, o que recoloca a questão da função social da arquitetura, que deveria se emancipar tanto quanto possível dos delírios do capital.

O fato de inserir a capital portuguesa em uma geografia de ‘territórios temporários’ de debate em torno da arquitetura, da qual também fizeram parte, em 2016, Rotterdam, Oslo, Veneza e Istambul, com suas Bienais ou Trienais é uma conquista bastante importante da Trienal de Lisboa, instituição hoje consolidada que reflete a dinamização recente das atividades culturais da capital portuguesa. Promover o debate em torno das questões centrais da arquitetura contemporânea, suas práticas e reflexões de modo consistente e plural como nesta edição, é um mérito da equipe de curadores, hoje representada por André Tavares, jovem editor e pesquisador cuja trajetória reflete uma parte importante da multiplicidade de perfis envolvidos no campo disciplinar da arquitetura, ligada ao entendimento da arquitetura como exercício intelectual, como forma de conhecimento.

*Diego Inglez de Souza é arquiteto, urbanista e professor da Universidade Católica de Pernambuco e viajou a convite da Trienal de Arquitectura de Lisboa

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