Frans Krajcberg: O homem-árvore

Pinakotheke Cultural e AMAFrans realizam a visão do artista polonês naturalizado brasileiro de um sonho preto-e-branco

Juliana Monachesi

Publicado em: 25/07/2022

Categoria: artes visuais, Da Hora, Destaque

Série Flores e Folhas (1969), monotipia tridimensional de Frans Krajcberg [Foto: Jaime Acioli / Divulgação]

No marco do centenário de seu nascimento, Frans Krajcberg (1921-2017) ganha exposição com mais de 20 obras, divididas entre suas famosas esculturas feitas com madeira calcinada e as menos conhecidas – e bastante raras – monotipias tridimensionais, que Krajcberg fazia utilizando raízes, plantas e areia da praia como “matrizes” de impressões sem tinta em papel de alta gramatura. Acompanham as obras do artista polonês, que imigrou ao Brasil em 1948 deixando para trás uma vida destruída pela guerra, uma série de 15 fotografias, assinadas por Luiz Garrido, amigo e aprendiz do artista. A sequência de retratos de Krajcberg estava guardada em uma caixa de negativos no estúdio do fotógrafo e é exibida pela primeira vez na mostra Natureza em Preto e Branco, que abre hoje ao público na Pinakotheke Cultural do Rio de Janeiro.

Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke, conta que a frase que dá título à exposição ficou guardada em sua memória por muitos anos, desde que Krajcberg a pronunciou, no MAC-Niterói, em uma noite de setembro de 2011. O museu realizava mostra individual do artista em comemoração aos seus 90 anos e aos 15 anos de fundação do MAC. “Quando cheguei para a abertura, o Frans, assim que me viu, cochichou ‘Me tira daqui!’, porque ele não gostava dessas ocasiões sociais. Levei-o até um dos escritórios do MAC para que pudesse descansar um pouco. Ele se sentou e fechou os olhos. Algum tempo depois, voltou-se para Christiane Torloni, que havia chegado, e para mim, e falou ‘Dormi e, quando acordei, a natureza era preta e branca’. Nunca mais esqueci dessa imagem”, conta Perlingeiro. 

  • Vistas de Frans Krajcberg (1921-2017) – Natureza em preto e branco

Essa imagem ganha forma na Pinakotheke Cultural do Rio de Janeiro, tomada por trabalhos apenas nessas duas cores: brancos ou pretos ou branco-e-preto, caso das fotografias de Garrido. A única concessão é um retrato colorido de Krajcberg, da mesma série, e um filme documental exibido na última sala da galeria. Editado por Max Perlingeiro e Fabrício Marques, trata-se de um registro da sessão de fotos de Garrido no ateliê de Krajcberg em Nova Viçosa, Bahia, em 1996, originalmente filmado em Super 8, que o fotógrafo encontrou na mesma “caixa de negativos” em seu estúdio. Na edição, trechos dessa filmagem, que retratam um Krajcberg performer, cheio de disposição e vitalidade para fazer as poses mais delirantes, são entremeados pelas próprias fotos, como num encontro detetivesco do instantâneo no espaço-tempo distendido do filme. 

Luiz Garrido conta, em conversa com a seLecT, que conheceu Krajcberg em Paris, quando estudava fotografia, e que estabeleceu com ele uma relação mestre-discípulo, pois sempre levava as suas fotos para o artista ver e comentar. “Ele me ensinou a observar as coisas mais simples do cotidiano. Um dia me perguntou para que eu achava que serviam os bancos nas salas de museus. Respondi: ‘Para descansar?’, ao que Frans respondeu: ‘Não! Não são para você descansar, não. Eles servem para você se sentar e olhar com calma!’; então me aconselhou a fazer o mesmo quando estivesse andando pelas ruas. Olhar as composições de rua, o que ele chamava de ‘arte pobre’: desde as combinações de roupa das pessoas mais simples até os arranjos de objetos nas feiras ou outras composições involuntárias, e assim fui encontrando a minha própria forma de ver e de retratar o mundo.”  

Expostas ao lado de obras em papel ou esculturas de madeira ressignificada, as imagens de Garrido lançam luz sobre a relação do artista com seu entorno em Nova Viçosa: plantas, troncos de árvore, a areia da praia e um mangue em que Krajcberg se pinta de lama para a câmera do amigo. Emana dos retratos uma troca desierarquizada entre homem e natureza, uma relação fluida em que a pele de Krajcberg se confunde com a textura de uma folha seca, em que a sombra de seu corpo se projeta sobre a areia molhada, posando de homem-árvore. O ensaio fotográfico de Luiz Garrido é um achado, tesouro perdido por 25 anos que vem à luz agora e soma forças ao legado desse artista que escolheu o Brasil para fazer ecoar no mundo o grito pela preservação das florestas. 

Feita em colaboração com a Associação de Amigos de Frans Krajcberg, a exposição Natureza em Preto e Branco abre para o público hoje e segue em cartaz até 27/8.

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