Genealogia da abstração e da figuração

Thiago Martins de Melo e Amalia Pica atualizam discussões levantadas no século 20 pelo realismo social e o neoconcretismo

Luana Fortes
As formas geométricas da instalação de Amalia Pica A∩B∩C (2013) são as mesmas usadas pelo método de ensino Diagramas de Venn, que foi proibido durante a ditadura militar argentina (Foto: Daniela Uribe, Cortesia Herald St, Londres)

O realismo social, o concretismo e o neoconcretismo estão entre os grandes legados que a América Latina deixou para a história da arte ocidental, desconsiderados aqueles que possam ter sido ofuscados por processos de invisibilização. O século 20 foi marcado pelo enfrentamento entre abstracionistas e figurativistas, assim como por discussões acerca do caráter político dessas correntes. O realismo social nasceu comprometido com a preocupação social da classe trabalhadora, vinculado a uma ideologia comunista revolucionária anti-imperialista. A abstração do período pós-Segunda Guerra Mundial foi teorizada tanto como uma investigação formalista sobre a arte autônoma e de forma pura, representando um distanciamento de condições históricas, quanto como uma alegoria da crise das artes comprometidas com ideologias.

Diante do contexto da Guerra Fria e da polarização global entre capitalismo e comunismo, essas duas esferas acabaram submetidas a representações ideológicas de cada lado do conflito, independentemente do alinhamento político de seus expoentes. Enquanto a abstração foi associada à retórica anticomunista, o realismo social muito sucumbiu a ações propagandísticas de governos de linhas marxistas. Com a soberania dos Estados Unidos, as manifestações associadas ao figurativismo foram qualificadas como demasiadamente narrativas, demagógicas, nacionalistas ou de pouca qualidade. Passados 30 anos da queda do Muro de Berlim, a retomada da figuração e a problematização das questões levantadas pela abstração geométrica repercutem na obra de artistas contemporâneos como Thiago Martins de Melo e Amalia Pica.

O ovo da serpente e o crepúsculo da demofobia (2016), de Thiago Martins de Melo (Foto: Cortesia do artista)

 

O filho perdido do Muralismo
Convidado a realizar residências artísticas pelo México, o artista maranhense Thiago Martins de Melo tem viajado muito ao país nos últimos dois anos e é comum que os mexicanos relacionem seu trabalho ao Muralismo, um dos braços do Realismo Social na América Latina. “É uma relação de pintura, política, história e colonialismo. Eles fazem essa associação como se eu fosse o filho perdido do Muralismo no Brasil”, conta Martins de Melo à seLecT. Apesar de essa associação não ser direta e intencional, entre seus artistas preferidos estão os mexicanos José Clemente Orozco (1883-1949) e David Alfaro Siqueiros (1896-1974). “Meu pai é pintor e sempre gostou muito desses artistas. Quando aprendi a pintar, lembro que conheci os muralistas mexicanos justamente pela temática social e todo o engajamento que eles tinham com o Partido Comunista.”

Os elos que ligam a obra do maranhense com o Muralismo mexicano são vistos na predominância da pintura entre as linguagens com as quais trabalha; na larga escala; no aspecto realista e expressionista de suas imagens e na dimensão política dos signos que reúne. Diferentemente do Realismo Social, seus trabalhos partem de seu universo pessoal e dizem muito sobre suas relações de intimidade. Porém, nas pinturas disruptivas e altamente simbólicas de Thiago Martins de Melo encontram-se denúncias e posicionamentos políticos assertivos. Diante da abundância e da justaposição de imagens, as mensagens políticas sobressaltam em camadas que explicitam a mixórdia que é a identidade brasileira, latino-americana e ameríndia.

  • Memorial for Intersections 18 (2016) de Amalia Pica (Foto: Roman Maerz)
  • A∩B∩C (2013) ativada por performers durante a exposição (Foto: Daniela Uribe, Cortesia Herald St, Londres)

 

Conspiração pela abstração
A produção abstrata ganhou força na América Latina inicialmente pelas mãos do concretismo, na metade do século 20, tendo forjado na geometria um de seus principais pilares. O concretismo latino teve importantes textos e manifestos em Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, São Paulo e Rio de Janeiro, embebidos de um ânimo de desenvolvimento e futuro, aliados a ideias de modernidade e industrialização. Apesar de existirem diferentes compreensões acerca da definição conceitual do movimento, sua produção era considerada demasiadamente racionalista. Daí surgiu o neoconcretismo, que teve seu esplendor entre artistas residentes no Rio de Janeiro. O Manifesto Neoconcreto, assinado em 1959, diz: “Não concebemos a obra de arte nem como ‘máquina’ nem como ‘objeto’, mas como um quasi-corpus, isto é, um ser cuja realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que, decomponível em parte pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta, fenomenológica”.

O trabalho da argentina Amalia Pica é um grande exemplo de como esse pensamento permanece vivo e relevante até hoje. A artista tem uma gama de trabalhos que tratam dos Diagramas de Venn, método de ensino matemático usado para simbolizar graficamente a teoria dos conjuntos, que foi abolido durante a ditadura civil-militar da Argentina (1976-1983). O governo militar temia que ensinar nas escolas a representação do conceito de interseção poderia levar à união de cidadãos e a uma conspiração antiditadura.

Vista de relance, a instalação ABC (lê-se A interseção B interseção C), de 2013, poderia ser interpretada como uma abstração geométrica formalista, levada ao espaço em forma de instalação. Porém, além da questão conceitual do trabalho, que referencia o passado de repressão de liberdades, as geometrias coloridas e transparentes, posicionadas nas paredes, são frequentemente usadas como objetos de cena em ações. Pica convida um grupo de performers a caminhar pelo espaço, segurando essas formas, provocando a temida interseção de corpos e configurando diferentes formas de comunidade.

A instalação é um desdobramento da obra Venn Diagrams (Under The Spotlight), 2011, que traz dois círculos intersecionados, projetados por refletores de luz em uma parede de acordo com um sensor de movimento. O primeiro círculo, azul, acende quando uma única pessoa se aproxima do objeto. O segundo, vermelho, quando mais corpos ocupam o mesmo espaço. A obra de Amalia Pica acaba por confirmar o que a ditadura argentina enxergava como perigoso e potencialmente subversivo. A artista aponta para a beleza e eficácia da união na luta contra as tentativas de cerceamento da liberdade.

Se a rixa entre figurativismo e abstracionismo do século 20 levou a associações ideológicas fáceis, a produção contemporânea mostra que o potencial político da arte não recai na presença ou na falta de figuras. A exemplo da obra de Thiago Martins de Melo e de Amalia Pica, a arte é muito mais heterogênea e instigante do que já foi presumido.

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