Gente-Floresta

Editorial da edição #51 da seLecT, dedicada às comunidades amazônicas

Paula Alzugaray

Publicado em: Vol. 10, N 51, Julho/ Agosto/ Setembro 2021

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Fragmento de Xapiri (2012), de Gisela Motta, Leandro Lima, Laymert Garcia dos Santos, Stella Seara e Bruce Albert (Foto: Cortesia dos artistas)

Em uma imagem da série de infogravuras Natureza-Morta (2016-2019), de Denilson Baniwa, publicada nesta edição #51 da seLecT, a silhueta de um corpo indígena jaz sobre uma fotografia de satélite da floresta. Essa visão guarda relação melancólica com outra imagem aérea desta edição, Shadow on the Land, an Excavation and Bush Burial (2020) [Sombra na Terra, uma Escavação e Enterro de um Arbusto], intervenção pública de Nicholas Galanin, artista indígena do Alasca, na 22a Bienal de Sydney. A obra representa a sombra de uma estátua em homenagem a um colonizador britânico, cavada na terra e cercada por grades de isolamento, como se se tratasse da cena de um crime. Baniwa e Galanin são artistas ativistas, compartilham suas lutas decoloniais contra o apagamento histórico de povos originários. Com esses trabalhos, eles propõem contramonumentos aos símbolos da história oficial. “A sombra sobre a terra pode ser aplicada a quase todas as grandes estátuas coloniais em terras indígenas ou aborígenes e se encaixa bem nos movimentos sociais que acontecem em todo o mundo, como o Black Lives Matter”, diz Galanin.

Natureza-Morta (2016-2019), de Denilson Baniwa (Foto: Cortesia do artista)

Mas outro ângulo de visão pode ser aplicado ao indígena “carimbado” sobre a mata, além da remissão àquilo que foi apagado e enterrado nesta terra brasilis. A imagem tem o poder transformador de sugerir o contrário da morte: a marca indígena que reluz e permanece na epiderme da floresta. Ela ilustra a tese potente que embasa esta edição: a Floresta Amazônica como monumento talhado e cultivado pelos povos originários brasileiros. A artista e pesquisadora Anita Ekman, em seu ensaio sobre a floresta como invenção cultural, menciona estudos que apontam que 60% da Amazônia é antropogênica, isto é, foi construída e manejada por mãos e mentes indígenas.

Shadow on the Land, an Excavation and Bush Burial (2020) [Sombra na Terra, uma Escavação e Enterro de um Arbusto], intervenção pública de Nicholas Galanin

À luz da floresta-monumento, desenvolvemos esta edição sobre comunidades. Falamos da floresta-gente, talhada pelas comunidades dos artistas, ativistas, indígenas, afro-indígenas, barqueiros, seringueiros, ayahuasqueiros, e aqueles que compartilham outros modos de relacionar, trocar, habitar, construir e circular economicamente, resistindo coletivamente aos ciclos destrutivos de agropecuária e extrativismo mineral e vegetal.

Ressaltamos os movimentos de contracolonização propostos por expoentes da arte indígena internacional, entre eles Manuel Chavajay, Benvenuto Chavajay e Antonio Pichillá, escalados pela 22a Bienal de Arte Paiz, na Guatemala, que tem 50% de sua lista composta de artistas nativos. Entrevistamos o primeiro curador aborígene da história da Bienal de Sydney, Brook Garru Andrew, artista interdisciplinar com poderoso argumento sobre a função dos arquivos na luta decolonial: “São objetos poderosos que possibilitam um espelho para olhar para trás e corrigir algumas das devastadoras perseguições coloniais”.

Eles dialogam com o coletivo Mahku e sua estratégia de recuperação de terras por meio da venda de obras de arte; as organizações artísticas que brotaram em Marabá, entrecortadas pelo sentimento de indignação, envolvendo o artista paraense Marcone Moreira e o santista Mauricio Adinolfi; o colombiano Abel Rodríguez, que trabalhou como seringueiro, foi guia de floresta e agora integra a 34a Bienal de São Paulo – que, por sua vez, traz a maior representatividade de artistas indígenas da história da exposição – e a 23a Bienal de Sydney, em 2022, com curadoria de Jose Roca.

Nós, da seLecT, nos somamos a eles em suas estratégias coletivas de resistência para impedir a devastação das florestas, contra o racismo e os apagamentos históricos. Para construir esta revista-comunidade, a artista e designer Nina Lins concebeu um projeto gráfico em que uma matéria engata na outra, formando uma corrente de força e união. Contamos com um time de 11 colaboradores-ativistas, entre eles os artistas Dora Longo Bahia, Lenora de Barros e Guto Lacaz, criando cartazes para a campanha #florestaprotesta. E a Redação ganhou o precioso reforço de Denise Shnyder e Juliana Monachesi, de volta à revista. Na ilustração desta edição-comunidade, Ricardo van Steen compôs os retratos, que incluem o repórter Leandro Muniz, o revisor Hassan Ayoub, Cristina Dias, secretária de Redacão, e Nina Rahe e Meno del Picchia, responsáveis pela elaboração dos seis episódios da primeira temporada do podcast celeste, que iluminou as comunidades em torno da Rádio Floresta, das festas de aparelhagem, do coletivo Themônias, do grupo de poetas Anáguas, da luta Yanomâmi e dos rappers indígenas urbanos. Agradecemos também à nossa comunidade de leitores nesta luta.

Capa SeLecT #51

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