Geometrias Sagradas

Nas obras de Daiara Tukano, Clara Ianni e Alice Shintani, na 34ª Bienal, a tradição da pintura abstrata é questionada e reapresentada a partir da noite

Juliana Monachesi

Publicado em: Vol. 10, N 52 Outubro/ Novembro/ Dezembro 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Detalhes das “salas” dedicadas na Bienal à obra das artistas, respectivamente, a partir da esq., Daiara Tukano, Clara Ianni e Alice Shintani (Foto: Juliana Monachesi)

Novas abstrações surgiram no horizonte da arte contemporânea no século 21, sob uma miríade de discursos e modos diversos de abstrair. Da diversidade de agendas éticas que pautam a nascente pintura abstrata, uma ideia é comum à maioria dos artistas contemporâneos: demolir a ideologia formalista da tradição abstrata, contaminá-la de vida pulsante e espraiá-la no mundo como outras imagens possíveis. A abstração geométrica, mais rígida das tradições em questão aqui, parecia a última fronteira a ser atravessada nessa batalha de narrativas, e três artistas mulheres o fazem lindamente na atual edição da Bienal de São Paulo.

Daiara Tukano dedica-se à pintura abstrata desde muito antes de sua obra ganhar os holofotes do eixo Rio-São Paulo. Formada em artes visuais pela Universidade de Brasília, a artista começou a série de desenhos de figuras de mulheres guerreiras ao mesmo tempo que iniciou sua série Hori, da qual um grupo recente está exposto na Bienal. Hori, mirações, ou visões místicas, que permeiam a cultura visual do povo Tukano, emerge na exposição de maneira de fato visionária. As auras douradas ou prateadas que enevoam o centro das telas são disruptivas em relação a tudo o que vi de arte geométrica, como se emanassem a espiritualidade ali contida, convocando a ancestralidade geométrica da cestaria e da pintura corporal indígena. Leia-se, os povos originários do mundo já praticavam a construção geométrica milhares de anos antes de um grupo burguês “inventar” uma linguagem estética inovadora na Europa. E Daiara condensa na superfície de sua pintura toda essa outra história, que ficou de fora dos manuais de “história da arte”.

Uma geometria sagrada que podemos não saber decodificar, mas que imanta tudo ao seu redor, tem muito a nos dizer sobre o muito que ignoramos como “civilização”. Nesse sentido, a série de pinturas, uma das quais se intitula Ñamíriwi’i – Casa da Noite (2020) e produz o efeito óptico de circularidades pulsantes, onde se veem apenas linhas e triângulos, dialoga com Espelho da Vida (2020), o manto caminhante que está exposto perto da sala com a série Hori e que a artista vestiu em 2020 para uma ativação da exposição Véxoa, na Pinacoteca de São Paulo, onde também expôs telas “abstratas”.

Detalhes das “salas” dedicadas na Bienal à obra das artistas, respectivamente, a partir da esq., Daiara Tukano, Clara Ianni e Alice Shintani (Foto: Juliana Monachesi)

Nas proximidades do campo imantado encontramos obras de Clara Ianni e Alice Shintani, que também exploram as possibilidades discursivas da abstração geométrica ressignificada. Educação pela Noite (2020), de Ianni, projeta na parede formas que, de longe, evocam as fotoformas de Geraldo de Barros, mas, à medida que nos aproximamos, vão se esvaindo de materialidade. Sobre os retroprojetores de criam maquinicamente as geometrias, de perto, encontramos blocos de madeira pintados de dourado. Cubos e barras que a educadora italiana Maria Montessori desenvolveu para uso no início da escolarização das crianças, com o objetivo de que estas se apropriem do sistema de numeração e cálculo por meio da representação. Chamado, em pedagogia, de “material dourado”, o dispositivo é utilizado por Clara Ianni para refutar qualquer dúvida que ainda pese sobre o delírio de equivalência ou lastro entre imagem e realidade. A ética montessoriana dessacraliza a geometria da história abstrata ao produzir sombras distorcidas das “edificações” da tradição.

Menas (2015-2021), de Alice Shintani, põe em jogo a ética do trabalho, suas pinturas geométricas sobre papel cuidadosamente sanfonado por dobraduras que evocam a vida de vendedora ambulante que a artista levou durante alguns anos. As pinturas são expostas sobre caixas de papelão empilhadas, dessacralizando mais o estatuto do movimento de vanguarda eurocêntrico, que Shintani questiona também por meio da imantação da convivialidade entre ambulantes – que está no título do trabalho e nas noites mal dormidas pelo esforço braçal de produzir o sustento diário a cada noite na cozinha e a cada dia nas ruas da cidade –, num ciclo sem horizonte de possibilidades de findar, que se expressa nas marcas e slogans destacados nas embalagens que “sustentam” a obra. Nas três produções aqui reunidas, primeiro e sabiamente no projeto curatorial e na expografia da Bienal, aprendemos que todo cânone pode cair por terra e dar lugar a uma meditação sensível e incômoda que, felizmente, precisamos atravessar noite adentro até raiar, quem sabe um dia, um novo dia.

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