Gesto e silêncio

Luisa Duarte

Publicado em: 15/07/2015

Categoria: artes visuais, Crítica

Christian Rosa, em exposição na White Cube São Paulo, apresenta um vocabulário visual marcado pela repetição e um fluxo de criação típico da escrita automática que configura uma espécie de sistema de erros

Christian Rosa Kappo Or Kippi 2015 (medium Res)

Legenda: Obra ‘Kappo or Kippi’, 2015, tinta a óleo, carvão, lápis, resina e azeite de oliva. (Foto: Cortesia White Cube/Prudence Cumming Associated LTD)

Nascido no Rio de Janeiro, Christian Rosa é um artista que cresceu e se formou entre Viena e Los Angeles, cuja trajetória teve início em meados dos anos 2000. Os elos com a cultura e a arte brasileiras são distantes. Sua pintura, em um primeiro contato, evoca uma série de referências, tanto europeias quanto norte-americanas, nomes como o do alemão Albert Oehlen e o do americano Cy Twombly (1928-2011) são igualmente importantes para sua formação.

A presente exposição de uma nova série do artista na White Cube, em São Paulo, surge como prolongamento de Put Your Eye in Your Mouth, individual realizada por ele em março deste ano na sede da galeria em Londres. Aqui, serão exibidos novos trabalhos, produzidos especialmente para a mostra. Perceber como criações forjadas por um brasileiro em terras estrangeiras irão se relacionar com o contexto nacional é, portanto, uma das perguntas colocadas desde já para uma primeira exposição em seu país de origem.

Christian Rosa Black Cloud On My Head 2015 (medium Res)

Legenda: ‘Black Cloud on my Head’, 2015, tinta e bastão a óleo e spray. (Foto: Cortesia White Cube/Prudence Cumming Associated LTD)

A pintura de Rosa traz ao primeiro plano questões relativas ao desenho e ao traço. Seu processo de criação implica o acaso, o risco. A aparência de algo sem polimento guarda, nos trabalhos dele, o frescor de obras ainda em movimento. Esse modo de fazer, que não teme revelar seu mecanismo, é edificado por meio de um vocabulário visual marcado pela repetição, configurando uma espécie de sistema de erros. Há um espaço onde o desvio é o método. Quadrados, retângulos, manchas de cor, são ligados a fios orgânicos e emaranhados de maneira tortuosa, nada linear, mas, sim, repleta de tropeços. Suas telas, num equilíbrio tênue e delicado, parecem evocar um pensamento no qual gestos firmes e precários convivem de maneira insuspeitada.

Para o artista, o momento da falha torna-se traço constituinte da identidade claudicante da obra. O que parece estar em jogo é uma tensão entre cálculo e acaso. É daí que surge a associação entre sua pintura e o fluxo de criação típico da escrita dadaísta, automática, que se alia ao ato de criar sem revisões, dando valor ao que surge de maneira não planejada. Suas telas negociam, por fim, com o não dito. Aquilo que ganha forma possui o mesmo peso de espaços vazios, e o silêncio guarda sentidos. Desta equação deriva uma delicada aproximação com o desenho e sua forma de estar no mundo.

Serviço

White Cube São Paulo
Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550, Vila Mariana, São Paulo
Telefone: (11) 4329 4474
Até 22 de agosto.
De terça a sexta, das 11h às 19h. Sábados das 11h às 17h.
Entrada gratuita

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