Heranças bioculturais

A diversidade botânica da Amazônia é resultado da interação secular entre as comunidades indígenas e a natureza local

Jennifer Watling

Publicado em: 13/09/2021

Categoria: Destaque, Projetos especiais, Residência Editorial

Gavião (Foto: Edison Caetano)

Com sua abundância de vida natural e milhares de espécies de plantas e animais desconhecidas pela ciência, é fácil entender porque, ao longo da história, a Floresta Amazônica foi considerada parte de um reino separado do humano. Comparada com campos intensamente cultivados, cidades industriais pujantes e enormes edifícios de pedra que dominavam a maior parte da Europa entre os séculos 16 e 18, para os primeiros exploradores, as planícies tropicais pareciam um Jardim do Éden perdido e o destino de seus povos, vivendo em pequenas comunidades autônomas, era como o do homem primordial: à mercê do que Deus (ou a serpente) tivesse a oferecer.

A cada raspada da pazinha, arqueólogos estão desenterrando cada vez mais evidências que contestam essa visão. Em vastas áreas da Amazônia, grandes assentamentos pré-colombianos com até dez vezes o tamanho das atuais aldeias indígenas não são exceção, mas a regra, e, em muitos casos, só com os efeitos destruidores do desflorestamento moderno, os cientistas “descobriram” o que está abaixo da abóbada florestal.

Na Bolívia, montes de terra de até 20 metros de altura e 20 hectares de área rivalizam em tamanho com a maioria das pirâmides maias. No Acre, desenhos perfeitamente geométricos formados por valas de até 11 metros de largura e 3 metros de profundidade equivalem-se aos milenares monumentos de pedra europeus. Por toda a Amazônia, grandes depósitos de solos escuros extremamente férteis, chamados Terra Preta do Índio, que a ciência moderna tentou reproduzir sem sucesso, marcam os locais de antigos assentamentos. Os povos indígenas não são meros sujeitos de seu meio ambiente, mas o transformaram ativamente ao longo da história.

Como arqueobotânica, estudo vestígios de plantas para entender que recursos as pessoas comiam, usavam e cultivavam no passado e como interagiam com os ecossistemas em que viviam. A cruel ironia de ser uma arqueobotânica na Amazônia é que, embora saibamos que os povos indígenas empregavam uma abundância de plantas para fazer de tudo – de casas, roupas e ferramentas a cestos, resinas e instrumentos musicais –, o clima tropical e os solos ácidos fazem que nenhuma dessas coisas sobreviva até hoje. No cenário mais favorável, temos apenas fragmentos de madeira, sementes de frutos que, por acaso ou de propósito, foram queimadas e sobreviveram como carvão; fitólitos, que são estruturas microscópicas de sílica das células vegetais lançadas no solo quando as plantas — ou alimentos e outras coisas feitas delas — se decompõem; e restos de amido, que sobrevivem em recipientes de cerâmica e podem ser estudados para detectar quais plantas eram cozidas.

Identificar as espécies que produziram esses vestígios diferentes é muitas vezes uma tarefa monumental, pois há mais de 32 mil possibilidades. Além disso, os usos específicos dessas espécies muitas vezes são desconhecidos para nós. No entanto, a arqueobotânica, juntamente com os campos da genética vegetal e da (etno)ecologia estão revolucionando nossa compreensão da biodiversidade amazônica, mostrando que a natureza e a cultura são inseparáveis há pelo menos 12 mil anos.

Geoglifos no Acre (Foto: FC)

Complexo mosaico
Os sítios arqueológicos mais antigos conhecidos na Amazônia, como a Caverna da Pedra Pintada, no Pará, apresentam evidências de intensa exploração, e provavelmente manejo, de palmeiras, assim como o uso da castanha-do-pará e outros frutos pelos primeiros habitantes da floresta tropical. Na Bolívia, os primeiros grupos humanos a ocupar as vastas planícies de Llanos de Mojos construíram montes de terra e cultivaram abóbora, mandioca e outras raízes e tubérculos há pelo menos 10 mil anos. Cerca de 6 mil anos atrás, milho, feijão e provavelmente outras culturas chegaram de fora da Amazônia e foram cultivadas e transformadas em variedades locais. Por volta de 1492, pelo menos 83 espécies amazônicas tinham sido até certo ponto “domesticadas” por seus habitantes indígenas através de práticas que – diferentemente das percepções ocidentais desse processo – priorizavam a criação e a gestão da diversidade, mais que o controle da natureza.

Tais práticas deixaram legados ecológicos que podem ser reconhecidos hoje na grande riqueza das árvores frutíferas, plantas medicinais e outras espécies úteis, que podem se estender por quilômetros além dos limites dos sítios arqueológicos. Grupos indígenas e outros povos da floresta vivem nessas paisagens e contam com elas hoje para seu bem-estar físico e espiritual, preservando e transformando ainda mais sua biodiversidade de geração em geração. O que os olhos europeus viam como floresta virgem ao redor das aldeias indígenas que eles visitavam era provavelmente um complexo mosaico de pomares e campos em diferentes etapas de regeneração manejada.

A biodiversidade que os incentivos nacionais e globais buscam proteger hoje constitui a herança biocultural dos povos da Floresta Amazônica que foram os atores de sua construção durante muitos milhares de anos.

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Jennifer Watling é pesquisadora do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos (Arqueotrop), no Museu de Arqueologia e Etnologia – Universidade de São Paulo (MAE USP)

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