Heróis da resistência

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 04/11/2013

Categoria: Perfil, Reportagem

Mudança de integrantes, busca pela produção livre de modelos e luta constante para se custear são pontos em comum entre os alternativos

Atelier Aberto

Legenda: Fernanda Brenner (segunda da esq. para a dir.) e parceiras no Pivô, localizado no Edifício Copan (foto: Divulgação)

Nas frestas do mercado formal de arte, uma galera jovem, cheia de ideias e de vontade de experimentar, cansou de ficar de fora do grande baile dos museus e das galerias e está colocando em prática novos modelos e maneiras de pensar. Num movimento que tem seus primeiros antecedentes há cerca de 20 anos, os espaços independentes crescem e aparecem em várias cidades brasileiras. As duas máximas gerais são a busca por novas formas do fazer artístico e a batalha cotidiana pela sobrevivência.

Se o circuito tradicional caminha com um pé atado às demandas comerciais, esses núcleos tentam encontrar o equilíbrio entre a liberdade de premissas e a articulação de parcerias. Atualmente, ganham representatividade, aumentam em número e se profissionalizam, cada um à sua maneira, produzindo formas criativas de gestão.

Dois pioneiros: Torreão e Ateliê Aberto

Na ativa desde 1997, o Ateliê Aberto, de Campinas, é um dos precursores desse modelo antimodelo. Teve como referência outro projeto fundamental, o Torreão, que funcionou em Porto Alegre entre 1993 e 2009. Sob o comando dos artistas Elida Tessler e Jailton Moreira, o Torreão abrigava projetos de site specific, desenvolvia as atividades de ateliê, escola e centro de estudos.

Pode-se dizer que foi a pedra fundamental de todos os espaços independentes que surgiriam no Brasil depois. Seu fechamento deu-se porque a torre que ocupava foi deixada pelos proprietários em herança para uma instituição religiosa. Já o Ateliê Aberto migrou duas vezes. O endereço atual, no Cambuí, não tem o ônus do aluguel.

A atual sede foi adquirida por Samantha Moreira e a sócia Maíra Costa Endo, as quais, em 2010, puseram a mão no bolso para a compra do imóvel, sem ajuda de patrocinadores ou dinheiro do Ateliê. Com isso, não só as contas melhoraram: a grade de programação pôde ser definida com regularidade e surgiu o programa de residência. “A cada seis meses nos reunimos para discutir novas soluções, para ver o que está funcionando bem e quais podem ser as alternativas para custear os nossos projetos”, explica Endo. Dessas conversas surgiram a colocação do Ateliê Aberto como produtora e montadora de exposições de terceiros como, por exemplo, o Centro Cultural Banco do Brasil, e o desenvolvimento remunerado de projetos externos para a inscrição em editais e leis de fomento.

Ter uma gestora entre os sócios trouxe o aperfeiçoamento do processo de profissionalização, que começou há cerca de cinco anos, com a abertura de empresa. “É um desafio pagar todos os impostos corretamente”, diz Endo. Este é o primeiro ano em que o espaço conseguiu custear toda a sua programação por meio de edital da Funarte, órgão ligado ao Ministério da Cultura, e de captação pelo ProAC (programa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo).

Casa Tomada: contaminação

Da experiência do Ateliê Aberto é possível extrair um fio condutor entre os independentes: a transitoriedade de integrantes e as mudanças na gestão ao longo do percurso; a busca por um espaço de produção e/ou de exibição livre de amarras a modelos estanques; a constante procura por ações que custeiem os projetos sem condicionar as premissas conceituais. Neles, primeiro vem a ideia, depois se busca a forma de custeá-la. “Tem gente que começa com mil patrocinadores, que começa com o conceito; nós começamos com o espaço”, conta Tainá Azeredo, fundadora e atual gestora da Casa Tomada, em São Paulo.

O espaço deve à casa em que está localizado sua existência e resistência. “Nós só existimos porque temos esse lugar, e assim conseguimos bancar as despesas. Sem ele, nem teríamos começado.” É emprestado pela arquiteta que o criou, com a condição de ser conservado e de ter as contas pagas.

O carro-chefe da agenda da Casa Tomada ainda é a Residência Ateliê Aberto (homônima ao organismo de Campinas por puro acaso, pois Azeredo não os conhecia à época da fundação, em 2009), cuja tônica é abrigar a produção multidisciplinar de artistas e pesquisadores de meios de expressão distintos, como visuais, arquitetura, moda, cinema e música. Lá, eles produzem lado a lado trabalhos que podem se “contaminar” entre si, resultando em obras híbridas e experimentais, sem a obrigação de atenderem a uma forma previamente concebida, embora não fiquem alojados no local. O resultado é sempre uma exposição cujas premissas e formato serão desenvolvidos ao longo do processo.

Parceiros e apoiadores são a tábua de salvação, assim como o programa Amigos da Casa, inspirado no modelo do Clube de Colecionadores do MAM, em que o ingressante paga um determinado valor ao ano, de R$ 150 a R$ 3 mil, e leva uma obra de tiragem que varia de acordo com o preço. Se completasse os 360 associados previstos, o recurso pagaria todas as despesas anuais. “No ano passado, conseguimos 50 amigos, o que já ajudou muito”, diz.

Pivô: um ambiente de liberdade

A ocupação de um local cedido em comodato também motivou a criação do Pivô, que nasceu em 2012 como uma associação cultural de arte e pesquisa. Desde então, funciona como residência de artistas e plataforma de exibições. Mas as intenções da diretora-fundadora Fernanda Brenner e seus associados vai muito além disso, pois se propõe a criar e ampliar, a cada novo projeto implantado, uma rede de profissionais e atividades interconectadas. Daí a escolha do título Pivô para nomear um lugar flexível e intermediário entre campos.

A aproximação entre arte, urbanismo e arquitetura é um dos focos mais intensamente explorados até aqui. Não poderia ser diferente. O Pivô está instalado em três extraordinários andares de um cartão-postal de São Paulo, o Edifício Copan. O espaço – ainda levantando fundos para reforma – ficou abandonado durante 20 anos. Hoje, sua ocupação por um projeto de intercâmbio artístico coincide com um movimento de recuperação de espaços de convivência do Centro de São Paulo. “Existe uma demanda desse tipo de ambiente na capital e temos de estar conectadas com processos de urbanização que estão acontecendo na cidade”, diz Brenner, que teve entre suas fontes de inspiração o projeto original do PS1, de Nova York, antes de ser incorporado pelo MoMA. Modos de financiamento são diversos e incluem parcerias com instituições e galerias – como a Mendes Wood durante um ano –, programas especiais e leilões, como o que ocorreu em 2012, a partir da doação de obras de 56 artistas nacionais e internacionais.

Phosphorus: lampejos criativos

Situado no coração histórico da capital paulista, o Phosphorus ocupa, desde o fim de 2011, um casarão antigo ao lado do Solar da Marquesa e da Catedral da Sé. O que move a artista e curadora Maria Montero é “o desejo de um lugar para o encontro, sítio de reuniões, ambiente de convivência e plataforma de desenvolvimento de projetos colaborativos (…), uma experiência livre de amarras institucionais ultrapassadas”, afirma ela no web site do Phosphorus. Quando o brechó Juisi by Licquor deixou o endereço que ocupava nos Jardins para se instalar no prédio de 1890, tornando-se a Casa Juisi, Montero encontrou ali o espaço que precisava para fomentar seu projeto de residências artísticas e iniciativas que incluem a exibição de filmes, exposições, festas e cozinha experimental. Parcerias com galerias são algumas das estratégias que garantem oxigenação, diálogo e financiamento.

Pipa e Ateliê 397: coisas que fazemos por prazer

Leilões com obras doadas, parcerias e aluguéis de espaços. Tudo isso dá a dimensão da criatividade da economia do setor, que faz malabarismos para se viabilizar. Afinal, obter a autorização para captação de verba por meio de leis de incentivo fiscal como o ProAC e a Rouanet não garante o pote de ouro no fim do arco-íris. Que o digam o Ateliê 397 e o Atelier a Pipa, agraciados com tais recursos e sem ver um centavo autorizado, por não acharem interessados no investimento.

Para preencher a lacuna da verba incentivada, o Ateliê 397 tem soluções divertidas, como o leilão esporádico Surpraise, a lojinha Michê (com o subtítulo “coisas que fazemos por dinheiro, mas com muito prazer”) e um projeto de múltiplos. Todas as obras vendidas são doadas por artistas e galeristas. “Não representamos artistas, não somos uma galeria, não visamos lucro”, explica Thaís Rivitti, sócia do espaço ao lado de Marcelo Amorim. Ela define a missão do espaço como “um local para fugir da institucionalização do mercado e dar sentido a uma atuação profissional no campo da arte”, soando como epíteto de quase todo o segmento.

Atelier_pipa

Legenda: Evento do Atelier a Pipa, no RJ, para onde está expandindo suas atividades (foto: Divulgação)

Nesse sentido, a programação traz conversas com artistas consagrados, exposições de gente nova e publicações que vão de livros de artista a textos de curadores e pesquisadores. Mesmo a lojinha Michê, que trabalha com os artistas em sistema colaborativo ou de doação nos objetos utilitários inusitados, como cangas de estampas eróticas e porta-níqueis de crochê simulando vaginas e seios, é uma reflexão sobre o sistema de arte e não quebra a premissa do ateliê.

Tour de force

Por meio de um edital da Funarte, a exposição Espaços Independentes – A Alma É o Segredo do Negócio reuniu no início deste ano o Ateliê Aberto, a Casa Tomada, o Atelier Subterrânea (Porto Alegre), a Casa Contemporânea (SP) e a polêmica e divertida antigaleria Casa da Xiclet (SP). Um tour de force para reunir um pedaço da turma, em que o cubo branco foi gradualmente ocupado pelos núcleos no decorrer do período expositivo, com uma abertura que se confundiu com a finissage, no dia derradeiro.

Além do evento presencial, a mostra gerou um catálogo e a publicação Espaços Independentes, primeira compilação de organismos do gênero, sinal de uma incipiente organização do setor no sentido de buscar soluções conjuntas de visibilidade. Foram listados no total 18 espaços, alguns já com a data de óbito. Essa efemeridade pontual dificulta um mapeamento mais consistente da área, mas é a consequência da maleabilidade dos esquemas experimentais e também o sinal da dificuldade de sobrevivência financeira.

“Tentamos fazer um site, algo como o Espaço dos Espaços, para os organismos terem uma representatividade, uma agenda conjunta, tentamos até inscrevê-lo em leis. O pessoal se entusiasmou, mas no fim a ideia acabou morrendo na praia”, conta Luciana Felippe, que começou o Atelier a Pipa, em 2010, ao lado de Fernanda Izar. As cariocas alugaram a casa na Vila Madalena como ateliê para ambas, mas foram expandindo as atividades para um grupo de estudos e acompanhamento de artistas que conta com a supervisão do curador paulistano Mario Gioia, workshops e exposições em parceria com galerias e outros espaços, além de aluguel de salas para ateliês de terceiros.

A dupla vem realizando algumas dessas atividades também na capital fluminense, onde são cada vez mais comuns espaços como o Barracão Maravilha, coletivo que subverte a ideia de ateliê para pensar um espaço de criação coletiva sem a pecha da tradição francesa, administrado por Zé Carlos Garcia, Natali Tubenchlak, Robson Viana e Hugo Richard. Na ativa desde 2008, recebem neste ano os dois artistas do seu primeiro programa internacional de residência, o suíço Flurin Bisig e a belga Manu Engelen.

.Aurora: a união faz a força

O .Aurora (lê-se Ponto Aurora), com dois meses de existência, é um dos entusiastas do lema “a união faz a força”. Com foco maior na difusão e comercialização dos trabalhos dos próprios integrantes, mesclados a iniciativas de inclusão de novos artistas sem exigência de representatividade no mercado, seus membros pensam formas de promover a articulação dos espaços localizados no Centro de São Paulo, como o Pivô e o Phosphorus.

“Pensamos em promover um guia que mostre o circuito cultural independente no Centro da cidade, porque aqui é onde isso acontece mais abertamente”, diz Francesco Di Tillo, italiano de Bolonha que fundou o espaço na Rua Aurora ao lado de outros sete artistas e escritores. Recém-chegados ao baile, ainda experimentam formas de difusão dos próprios trabalhos, de comunicação com o entorno em um projeto que traz artistas de outros espaços para exibir trabalhos em suas janelas, como também já faz a Casa Tomada. “Há um deslumbre quanto a esse boom do mercado”, diz Bel Falleiros, que crê que o “mercado ainda não acolhe trabalhos que não sejam claramente vendáveis”. Ainda assim, mesmo na pesquisa de uma arte mais experimental e não vinculada a tendências mercadológicas, há uma preocupação em se posicionar dentro do mercado também. “Queremos vender, claro, mas não sabemos muito bem como trazer o público interessado para cá, é tudo muito novo.”

Com todas as vicissitudes e diferenças, esses heróis da resistência vêm arejando a sistematização da arte e difundindo o seu fazer experimental. Apesar das difíceis condições de sobrevivência, os espaços independentes são fundamentais para estimular a circulação e a interação entre artistas, mais ou menos estabelecidos comercialmente, e o público. São essenciais, também, para gerar uma reflexão sobre o próprio meio artístico e a arte de realizar projetos para além dos limites do capital.

Reportagem publicada originalmente na edição impressa #14.

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