Hilda Hilst e a feminilidade acabrunhante

Quando pensamos em Hilda por uma ótica de gênero e literatura encontramos tamanha incerteza que somos jogados num lugar de desconforto

Ana Lima Cecilio
Retrato de HIlda Hilst (Fotos: Acervo Instituto Hilda Hilst)

“Ó, as mulheres! Que sensíveis e doces,
que lúdicas ladinas imaginosas e torpes! Mulheres!”

                Hilda Hilst, Contos d’escárnio

Hilda Hilst passou a vida queixando-se da falta de leitores. Nos diários e em entrevistas, a queixa comum, depois de lançar um livro ou estrear uma peça, era: “Não aconteceu nada”. E, de repente, acontece tudo: com o anúncio da Flip de que seria Hilda a homenageada da sua 16ª edição foi possível acompanhar nas redes sociais as comemorações do público, que não foram vistas tão calorosas, por exemplo, com a homenagem à também poeta Ana Cristina Cesar, ou com Lima Barreto, outro chamado de “injustiçado” na história da literatura, para ficarmos apenas nas edições mais recentes. O público, é fácil notar, é de jovens, principalmente jovens mulheres, que demonstram voracidade em conhecer mais a obra. Assim, talvez o que 2018 possa oferecer a Hilda de mais importante é esse estranho ser que ela buscou a vida toda: leitores.

Hilda Hilst é autora de obra vasta e consistente, que lançou seus braços em diversos gêneros. Entretanto, possivelmente Hilda seja mais conhecida hoje pela personagem que criou. Ainda jovem, transitava nos bares mais badalados de São Paulo elegantíssima em vestidos do estilista Denner. De uma viagem longa à Europa resta um relato um tanto enfeitado de um encontro com Marlon Brando, um breve namoro com Dean Martin e um semiflerte com o milionário Howard Hughes. Ganhou elogios de Cecília Meireles e todo um poema de Carlos Drummond de Andrade. Aos 36 anos, entediada com a frenética vida social e, também, em busca de espiritualidade para sua criação, constrói para si a Casa do Sol, em Campinas, e passa a viver lá, vestindo uma personagem bastante diferente: a escritora excêntrica retirada, que recusa o burburinho para se dedicar à literatura.

Quando pensamos em Hilda por uma ótica de gênero e literatura, buscando o lugar que ela ocupa como mulher, encontramos tamanha incerteza que somos jogados num lugar de desconforto. Sim, Hilda foi transgressora, e disso não há dúvida. Construiu para si um caminho autônomo de liberdade absolutamente inédito para uma mulher da sua geração. Em plena maré alta de uma nova onda do feminismo, é natural buscarmos as causas do atual interesse por ela – e, claro, por sua obra – no fato de Hilda, simplesmente, ser mulher. Movimentos de leitores como Leia Mulheres, e grandes fenômenos editoriais, como a tetralogia A Amiga Genial, da italiana Elena Ferrante, ou do livro de poemas Outros Modos de Usar a Boca, da canadense Rupi Kaur, apontam muito claramente uma geração de jovens que está em busca de narradoras femininas, na tentativa de encontrar reconhecimento e identidade. Pensando assim, Hilda, espécie de veterana, cairia como luva, não? Não.

Nascida em 1930, Hilda foi criada por uma mãe extremamente libertária e independente para que trilhasse o mesmo caminho. A mãe deu a melhor educação, para que a filha “nunca precisasse de homem” e, mesmo tendo recusado seguir adiante com o diploma de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco, Hilda pôde caminhar com certo conforto com o mapa que a mãe traçou – mesmo sendo poeta, e poeta, se não obscura, sempre relativamente circunscrita num círculo de iniciados. Mas o mais importante é notar que Hilda sempre fez o que quis, como quis, com quem quis. E essa trilha de liberdade de uma mulher escritora talvez seja o que há de mais feminista em sua trajetória.

É bastante óbvio olhar Hilda como uma mulher surpreendente para uma geração que ainda não havia rompido as amarras que a década de 1970 romperia, e que bancou uma trajetória individual com paixão inaudita. Já a presença da mulher na obra de Hilda, entretanto, obedece a um movimento curioso. Nos poemas, é sempre a mulher que fala. É de imaginar que essa mulher recusa o lugar de donzela, e que faz, por si mesma, em versos afrontosos, a busca do amor. Em Júbilo, Memória e Noviciato da Paixão (1974), por exemplo, belíssima reunião de poemas amorosos, é marcante o eu lírico feminino, que mergulha na conquista do amado e não mede esforços para chamar sua atenção: “Ama-me. Embora eu te pareça/ Demasiado intensa. E de aspereza./ E transitória se tu me repensas”.

seLecT expandida: leia o poema Dez Chamamentos Ao Amigo em bit.ly/poema-hilda

Invertendo os papéis de gênero da relação amorosa clássica, Hilda busca o amado como Dante buscou Beatriz. E a busca é legitimamente feminina, com todas as armas de que dispõe, fazendo-se mulher imensa, mágica e misteriosa. Não é simplesmente dar voz à musa, mas cantar um muso, homem do mundo, num universo que poucas vezes viu tal inversão.

Lygia Fagundes Telles, Olga Bilenky, Hilda Hilst e José Luis Mora Fuentes

 

Já na prosa, se a maior parte dos seus narradores são homens, e tratam as mulheres com muito pouca paciência, relegando-as a uma posição tradicional, e deixando bem claro que, quando elas não são extremamente fracas, são aborrecidas. Quase mal-humorada, sem pendor algum para a solidariedade feminina, Hilda bota na boca de seu personagem narrador de Estar Sendo. Ter Sido frases como: “O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres, mas como adoram o dinheiro as cadelonas!” Assim, a mulher, em grande parte da prosa de Hilda, veste a roupa clássica do ser delicado, cheio de firulas, que exige demais do homem, fazendo-o perder-se de sua busca legítima do absoluto por miudezas fúteis. Ainda em Estar Sendo. Ter Sido, essa visão pouco cortês vem inteira: “Pra quê você quer essa mulher de volta? São raras as mulheres engraçadas, a maior parte das vezes você pega sempre uma Jocasta, umas lamuriosas meio falsas…”.

Apesar disso, a narradora de maior destaque de Hilda é Hillé, do monumental A Obscena Senhora D, que surge imensa e forte, madura e sábia, como se a personagem se gabasse da qualidade de mulher mais cara à criadora: a sensatez, a lucidez, a inteligência.

Muito há que se investigar sobre a presença da mulher na obra de Hilda Hilst, e talvez para o feminismo de hoje – urgente, vigoroso, atravessado por uma necessidade de certeza que não admite vacilos (masculinos ou femininos) – a posição da autora de Qadós, de Contos de Escárnio, de Rútilo Nada (todas ficções cujos protagonistas são homens) apresente um feminismo contemporaneamente capenga, porque simplesmente nunca esteve em seu horizonte a consagração da mulher, ou nem mesmo sequer uma criação que buscasse a identificação do leitor consigo enquanto mulher. Aliás, Hilda nunca levantou bandeiras, nunca participou de movimentos sociais, não expôs de forma alguma reivindicações. Se é verdade que ela era adepta de uma espécie de humanismo essencial, e sentia como que na própria carne as injustiças globais, a fome das crianças, a Guerra do Vietnã, por personalidade e uma contravenção essencial, nunca foi capaz de se filiar a movimento nenhum. Entretanto, sua conduta disruptiva, que afirmava no dia a dia das suas relações uma forma de ser, é, em si, uma bandeira.

Descompasso entre discurso e ação? Talvez, se olharmos com nossos olhos de século 21. Mas a força desse binômio vida/obra em Hilda Hilst é inegável: no seu feminismo torto, ela não reivindicava exatamente um lugar para as mulheres, mas exigia com muita veemência um lugar para ela, Hilda, entre os espaços tradicionalmente masculinos. Hilda Hilst não é “representante de uma geração”, do mesmo modo como não pode ser considerada matriz de nenhum movimento poético ou literário. Se sua literatura ganha cada vez mais espaço, e é importante discuti-la, é interessante lê-la como indissociável da vida, e havemos de buscar em sua obra pistas não exatamente para “desvendar um enigma”, mas para lê-la, compreendê-la e dar-lhe os leitores que ela buscou durante toda a vida. 

Luciana Domschke interpreta Hilda Hilst, no filme de Gabriela Greeb (Foto: Divulgação)

Transcendência de gêneros no cinema
O projeto Hilda Hilst Pede Contato, de Gabriela Greeb, atravessa tantas fronteiras quantos gêneros literários foram transpostos pela obra de Hilst. É documentário, ficção, filme de arte, instalação e livro. Com previsão de estreia em festivais nacionais e internacionais em 2018, propõe um viés original e insuspeito de leitura da prosa, da poesia e da vida de Hilst, a partir do fascínio que a escritora nutria pela morte. “Hilda não só transgride gêneros como também transcende a própria vida”, diz Greeb à seLecT. A voz de Hilda Hilst em gravações realizadas entre 1974 e 1979, em busca de contato com o além, é o fio condutor do projeto, que acaba por se oferecer como um canal de comunicação, tão almejado pela escritora. PA
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