Histórias no Masp

Exposições do museu voltam-se para o passado, mas demonstram uma preocupação com o presente e expectativa para o futuro

Adriano Pedrosa
Vista do núcleo Retratos na exposição Histórias Afro-Atlânticas, Masp, 2018 (Foto: Eduardo Ortega, Masp)

Quais outras histórias a arte pode contar além da história da arte? Que outros personagens, temas e narrativas além de estilos, movimentos, escolas, períodos da própria disciplina? Como podemos nos acercar de histórias mais plurais, inclusivas, múltiplas e diversas? Para além das histórias do renascimento ou do barroco, do impressionismo e do expressionismo, da abstração e da figuração, do construtivismo e da pop art, da arte conceitual ou da minimalista? É possível considerar várias histórias: da infância, da sexualidade, da loucura e do delírio, das mulheres e do feminismo, da imigração e da colonização, as histórias afro-atlânticas ou indígenas. Os temas são vastos e devem incluir muitos territórios, períodos, mídias e objetos.

Histórias abrangem narrativas ficcionais e não ficcionais, factuais ou míticas, micro e macro, podem ser escritas ou orais, políticas, culturais, pessoais, muitas vezes têm caráter marginal, subterrâneo, e são inescapavelmente preliminares, processuais, incompletas, parciais, fragmentadas, até mesmo contraditórias. Histórias, portanto, são distintivamente polifônicas, especulativas, abertas, impermanentes, em fricção. Há um aspecto canibalizante no termo – elas podem devorar tudo e, de fato, seu próprio contrário (mesmo a história da arte tradicional e seu cânone pode constituir uma das muitas camadas de nossas histórias).

Como museu localizado no Sul Global e possuidor da mais importante coleção de arte europeia no Hemisfério Sul, o Masp encontra-se numa posição privilegiada para questionar a primazia do cânone. Talvez seja o único museu fora da Euro-América que de fato conta com bons exemplos do cânone europeu e, portanto, pode tentar desafiá-lo ou descolonizá­lo. Estamos aqui no campo da investigação e especulação, aprendendo, desaprendendo e experimentando durante o processo. Decerto não há uma receita para descolonizar o museu, e há diversos entendimentos do que isso possa se constituir. O que parece certo é que sempre se pode descolonizar mais.

Este é o contexto maior da programação do Masp em torno das histórias. Algumas histórias têm sido abordadas: da infância em 2016, da sexualidade em 2017, do afro-atlântico em 2018, do feminismo e das mulheres em 2019, da dança em 2020, e dos indígenas em 2021. À medida que conseguimos conceituar a programação com mais tempo e recursos, ela torna-se cada vez mais complexa, com vários participantes trazendo suas vozes, e o museu em si torna-se uma plataforma mais do que uma instituição com uma única voz monolítica e autoritária. Vastas e complexas, as histórias são desenvolvidas ao longo de um ano, com exposições monográficas, bem como uma grande coletiva, ela própria desafiando cronologias, hierarquias e distinções estabelecidas entre períodos, estilos, escolas e meios. Cada seção das coletivas pode expressar as diferentes vozes dos artistas e dos curadores, dando um acento distinto para cada uma delas. A programação das histórias inclui dois ou três seminários internacionais organizados com vários anos de antecedência, bem como publicações, oficinas, exibições de filmes ou vídeos, cursos, palestras e projetos externos. A programação de trilhas sonoras é especialmente reveladora por convidar várias pessoas para falar sobre as obras da coleção do museu ̶ de críticos, curadores, acadêmicos, historiadores e crianças – o que permite criar um arquivo de várias vozes em eterna expansão. Os catálogos de nossas diferentes histórias são acompanhados de antologias que oferecem tanto uma seleção de textos apresentados nos seminários quanto outros artigos. Com seu caráter polifônico e multivalente, é desse modo que se constituem as diferentes histórias no Masp  ̶  muito mais um ponto de partida do que de chegada. Como histórias, elas se voltam necessariamente para o passado, mas com uma preocupação em relação ao presente e uma expectativa para o futuro: para que logo despertem discussões, debates e dúvidas, e sejam elas mesmas reconsideradas, revistas e reescritas.

Uma versão mais longa deste texto está publicada no catálogo Histórias Afro-Atlânticas, Vol. 1, Masp, Instituto Tomie Ohtake, 2018

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