Homens ao mar

Bairros, cidades e principados vislumbram a realização de sonhos de liberdade e de bases exploratórias em alto-mar

Nina Gazire

N° Edição: 5

Publicado em: 11/07/2012

Categoria: A Revista, Reportagem

Um dos navios projetados para abrigar o Blueseed.

O sonho de uma ilha própria é uma das mais antigas ambições da humanidade. Não é de hoje que as ilhas estão entre os destinos preferidos do turismo de luxo. Mas a vida alheia ao mundo urbano e civilizado não é destino só daqueles que buscam paraísos individuais e intransferíveis. Antes de estar associada às comunidades independentes, a colonização dos oceanos já tinha sido considerada pela ficção científica e chegou a ser seriamente cogitada por governos de países como os EUA e o Japão durante a década de 1960.

No ano de 1966, com incentivo do governo japonês, o visionário arquiteto norte-americano Buckminster Fuller idealizou o projeto de uma cidade flutuante que ficaria localizada na Baía de Tóquio. A empreitada resolveria, segundo Fuller, a questão da falta de espaço nas metrópoles superpovoadas do Japão e estaria livre da especulação imobiliária. As cidades flutuantes de Fuller nunca se concretizaram, devido ao seu alto custo para a época, mas estabeleceram as bases técnicas para a construção de habitações em alto-mar (seasteading), posteriormente usadas na criação das excêntricas ilhas artificiais construídas no estuário da cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Os princípios do seasteading, neologismo que combina sea (mar) com homesteading (habitação), aparecem em grandes obras como o Aeroporto Internacional de Kansai, em Osaka, no Japão, que ocupa uma ilha artificial. Mais que os custos, um dos maiores empecilhos à construção das cidades flutuantes são as questões legais e a suscetibilidade às catástrofes naturais. Muitos projetos estão em áreas propensas a terremotos e furacões.

Do ponto de vista legal, segundo leis estabelecidas pela convenção das Leis Marinhas Internacionais, a zona de economia de um país permanece válida em uma extensão de 200 milhas náuticas – ou seja, 370 quilômetros de distância desde o continente. Por esse motivo, o reconhecimento de comunidades livres em águas internacionais torna-se altamente suspeito. Questões como essas levaram as comunidades flutuantes a serem repensadas sob o ponto de vista da mobilidade. Muitos projetos das décadas de 1980 e 1990 idealizaram navios-cidades que teriam passe livre em águas de diferentes países, porém, obedecendo às leis locais de onde estivessem atracados, como o projeto Blueseed. Conheça esse e outros projetos que vislumbram a realização não apenas de sonhos de liberdade, mas também de bases exploratórias em alto-mar.

Freedom ship

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O Freedom ship é o projeto de um meganavio com mais de 1km de comprimento e capacidade para 50 mil pessoas.

Freedom Ship é um projeto de cidade flutuante proposto na década de 1990. Ganhou esse título por seu estilo de vida “livre”, embora sua estrutura não corresponda à de um navio convencional, mas seja formada por uma série de barcaças interligadas. Ainda irrealizado por falta de patrocínio, o Freedom Ship deverá ser uma enorme embarcação com mais de 1 quilômetro de comprimento, capacitada para abrigar 50 mil pessoas. Além disso, o meganavio teria uma pista de pouso para aviões e helicópteros e lojas duty-free.

O complexo navegaria continuamente pelo mundo, estacionando regularmente em portos de grande escala. Sua estimativa de custo era de US$ 6 bilhões em 1999 e saltou para US$ 11 bilhões em 2002. Isto justifica o alto preço das cabines, que variam de US$ 120 mil a US$ 7 milhões. Já o preço do condomínio mensal está estimado entre US$ 442 e US$ 11 mil, valores que aproximam o Freedom Ship de uma ilha resort de alto luxo para poucos.

Principado de Sealand

Sealand

Fundado pelo ex-major britânico Paddy Roy Bates, o Principado de Sealand é uma entidade não reconhecida, localizada em HM Fort Roughs, antiga base naval da Segunda Guerra Mundial localizada a 10 quilômetros da costa de Suffolk, na Inglaterra. Desde 1967, Roy autointitulou-se rei e vive com seu filho, o príncipe Michael Bates of Sealand, além da equipe de segurança e funcionários responsáveis pela manutenção.

Sealand não é oficialmente reconhecida por nenhum Estado soberano, mas possui várias operações comerciais próprias, como a emissão de moedas, selos postais e passaportes nacionais. Em 2007, o “país” foi colocado à venda. O Pirate Bay, site sueco que busca arquivos do tipo Torrent (protocolo que permite transferências de arquivos muito grandes, como filmes, de forma, rápida) tentou comprar Sealand. A iniciativa aconteceu depois que a Suécia iniciou uma dura política em defesa dos direitos autorais. Mas o negócio não chegou a ser a realizado e Sealand está atualmente empenhada no lançamento de um cassino online.

Blueseed

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O objetivo desse barco gigante, financiado por Peter Thiel, fundador do Paypal e sócio do Facebook, não é o de aliviar a superpopulação em terra, mas o de ajudar empresas internacionais que queiram fazer negócios nos EUA sem perder tempo com a burocracia. O barco-cidade ficará estacionado a 12 milhas da Baía de São Francisco, distância que corresponde ao fim do mar territorial americano, e poderá abrigar cerca de mil pessoas. Elas poderão dar andamento aos seus negócios desde a embarcação, enquanto esperam pelo trâmite burocrático necessário para a abertura de uma empresa nos EUA.

O Blueseed será acessível por ferry e helicóptero e o aluguel de apartamentos e escritórios terá um custo de US$ 1,2 mil. Ainda em desenvolvimento como empresa startup, o projeto busca mais investidores. O início das atividades desse centro financeiro aquático está previsto para 2013.

Triton City e Treta City

Triton

As cidade flutuante de Tetra, um dos projetos pioneiros do arquiteto norteamericano Buckminster Fuller, nos anos 1960.

Depois de ter o financiamento do projeto de uma cidade flutuante no Japão suspenso, o arquiteto norte-americano Buckminster Fuller iniciou outras atividades comissionadas pelo governo americano. O Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA interessou-se pela proposta de Fuller, que propôs que as cidades flutuantes sirvam também como bases exploratórias de petróleo em alto-mar.

Com apoio e consultoria da Marinha, algumas das cidades flutuantes de Fuller chegaram a ser iniciadas. Entre elas destacam-se a Triton City, que teria capacidade para abrigar 5 mil habitantes em alto-mar, e a Tetra City, que ficaria localizada na Baía de São Francisco, e cuja forma tetragonal seria resistente a terremotos.

* Publicado originalmente na #select5.

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