Ideias revisitadas na MADE

Exposição sobre o arquiteto Phillip Johnson celebra o funcionalismo e as geometrias do design feito à máquina

Luana Fortes
Hilary Lewis, diretora criativa da fundação norte-americana The Glass House

Hillary Lewis, diretora criativa da fundação The Glass House, que ocupa a casa que o arquiteto norte-americano Phillip Johnson construiu em 1949 e onde viveu por 50 anos, em Connecticut, EUA, está em São Paulo. Ela é a curadora da mostra Machine Art: Revisited, na MADE (Mercado.Arte.Design), feira de design que será inaugurada para convidados nesta terça, 26/6/18. Em entrevista à seLecT, ela relaciona a liberdade formal e a riqueza artesanal presentes no design brasileiro hoje ao pensamento da última fase de Johnson. Lewis dará uma palestra na sexta 28/6.

Você está encarregada de montar na MADE um espaço em memória da exposição Machine Art, de Philip Johnson, no MoMA. O que podemos esperar desse espaço?

Hillary Lewis Os visitantes verão imagens de arquivo da exposição original Art Machine, de 1934, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York e com curadoria de Philip Johnson. Estamos revisitando as ideias de Johnson mais de seis décadas depois, quando seus sentimentos em relação à beleza essencial da geometria pura e do funcionalismo mudaram. Quando ele havia ampliado sua concepção de beleza. Depois de ter sido um grande proponente da mais simples das formas geométricas, Johnson, no final de sua vida, tornou-se muito mais aberto à geometria não-euclidiana e orgânica. A exposição está repleta de citações de Johnson, Alfred Barr – o diretor fundador do Museu de Arte Moderna e outras figuras importantes da década de 1930, incluindo a famosa aviadora americana Amelia Earhart, que foi uma das juradas da exposição em 1934. Deve dar aos espectadores a oportunidade de sentir como era quando a empolgação com hélices de avião e rolamentos de esferas de fábrica era algo novo. Naquela época, os Estados Unidos estavam nas profundezas da Depressão. Deve ter sido algo bastante estimulante para o público ver objetos cotidianos como tubos de laboratório e panelas de cozinha apresentados como importantes inovações artísticas. Alguns desses produtos custam menos de US$ 1.

No catálogo da exposição, Johnson afirma que “imitações industriais de objetos artesanais são paródias e o verdadeiro artesanato perdeu seu vigor original”. Você poderia comentar essa afirmação?

Naquela época, Johnson achava que havia pureza e sinceridade na maneira como as máquinas criavam formas “perfeitas”, livres de evidências tradicionais do artesanato. Tendo passado algum tempo na Bauhaus, na Alemanha, na década de 1920, ele se apaixonou pela ‘estética feita à máquina’. Em 1934, ele rejeitou as criações feitas à mão, considerando-as antiquadas. A exposição celebrava tanto o funcionalismo quanto as oportunidades geométricas possibilitadas pelos objetos feitos à máquina. Essencialmente, Johnson defendia a pureza platônica da estética da máquina: sua geometria essencial, cubos, esferas e cones, como descrito e anunciado pelo filósofo Platão, poderiam ser mais puramente produzidos pela máquina do que pela mão, dado o elemento óbvio de imperfeições à mão.

A casa do arquiteto Phillip Johnson em Connecticut (EUA), conhecida como Glass House. Foto de Robin Hill

De que maneiras podemos perceber a influência de Johnson no design industrial hoje? Esses aspectos são visíveis no design contemporâneo brasileiro?

Perto do fim de sua vida, por volta de 2000, Johnson se voltou à sua postura filosófica e estética de 1934 e considerou-a um pouco ingênua. Ele declarou que “a liberdade” era agora muito maior em arquitetura e design e que sua antiga paixão pelo feito-a-máquina estava fora de sintonia com as grandes possibilidades da era atual. Ele viu o que outros designers estavam fazendo, figuras como Frank Gehry e Zaha Hadid, e tentou projetar de maneira semelhante. Foi uma grande mudança para um homem que viveu desde 1949 em uma caixa de vidro, a Casa de Vidro de New Canaan, em Connecticut! Sem dúvida, a liberdade formal, assim como o requintado elemento artesanal presente no design brasileiro hoje, se relaciona ao pensamento posterior de Johnson. Basicamente, na década de 1990, ele estava mais aberto a formas além da geometria tradicional. Então, ele teria achado seu próprio projeto de 1934, Machine Art, um pouco simplista.

Que designers e arquitetos brasileiros chamam sua atenção hoje?

Existem tantos! Não posso esperar para passar a semana na MADE e mergulhar em todas as ideias de design em São Paulo! Mas só para citar alguns, eu começaria com o arquiteto e designer Isay Weinfeld, que agora está fazendo um trabalho novo e excitante em Nova York, bem como em São Paulo. Sua obra e compreensão da riqueza de materiais são incríveis. Sou apaixonada pelo trabalho de Paulo Mendes da Rocha há anos, estou ansiosa para revisitar alguns de seus prédios e finalmente chegar a outras pessoas que não conheço enquanto estiver na cidade. Os extraordinários Fernando e Humberto Campana sempre me surpreendem com suas inovações e justaposições. Há uma verdadeira alegria e prazer em seu trabalho. Finalmente, recentemente me tornei mais familiarizada com o elegante trabalho de Roberta Rampazzo. É maravilhoso ver quantos designers jovens e criativos transformam do Brasil a sua casa. É fantástico que organizações como a MADE deem ao público a oportunidade de ver tantas coisas novas de uma só vez!

Serviço
MADE (Mercado.Arte.Design), Machine Art after Philip Johnson
De 27/6 a 1/7/18
Pavilhão da Bienal
Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – São Paulo
mercadoartedesign.com

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