Identidades latinx

Rodrigo Moura, novo curador chefe do Museo del Barrio quer promover interação entre legados culturais porto-riquenho, latinx e latino-americano

Paula Alzugaray
Retrato de Rodrigo Moura (Foto: Gnz Marroquin)

O nova-iorquino El Museo del Barrio anuncia a contratação de Rodrigo Moura como curador chefe e inicia as comemorações de seu 50º aniversário com a exposição Culture and the People: El Museo del Barrio, 1969-2019, a partir de 11/4. Fundado no final dos anos 1960 por educadores, artistas e ativistas porto-riquenhos, no bairro do East Harlem, o museu tem o mexicano Patrick Charpenel como diretor executivo e assume pela primeira vez em seus quadros um curador brasileiro. Rodrigo Moura foi diretor artístico do Inhotim e atuou como curador de arte brasileira do Masp. Durante a montagem de sua última curadoria em São Paulo, ele conversou com seLecT.

Como o Museu pode continuar cumprindo seu papel junto à sua comunidade sem necessariamente ser “bairrista”? Que redes podem ser criadas?
O museu tem que se repensar a partir dessas perguntas: como pode se manter fiel à sua missão original, à sua raiz, e como isso pode ser desdobrado. A comunidade porto-riquenha está no coração da história do museu, mas ele abriu a sua missão pra outras comunidades latinas e para a América Latina há 25 anos. Ele se relaciona com porto-riquenhos, latinx [leia-se latinex, com uso do x para neutralidade de gênero] e latino-americanos. Essas três camadas de identidade cultural se relacionam entre si e se relacionam num lugar específico, que é Nova York. Então espero propor, como uma visão curatorial pro museu pros próximos anos, que esse legado cultural porto-riquenho seja pensado dentro de uma ecologia mais complexa que é a relação da cidade com suas comunidades, com Porto Rico e com a América Latina – com suas heranças africanas, indígenas e europeias. Nova York tem sido ao longo das ultimas décadas desse século um verdadeiro hub pra essas identidades culturais.

Eu sou um curador branco, mas o museu tem uma responsabilidade muito importante em ser uma referencia anti-racista e não branca nos Estados Unidos. Questionar a whitness [branquitude] do mundo da arte sempre foi seu horizonte. O que a gente espera com essa visão curatorial é que esses valores de diversidade, de defesa das populações marginalizadas, dos direitos dos imigrantes, anti-racistas etc, possam ser renovados numa plataforma global, onde esses legados culturais possam dialogar em exposições internacionais. O museu tem uma história de ativismo extraordinária. Artistas como Rafael Ortiz e Marta Moreno Veja se juntaram pra fundar um museu que não era só de arte, mas da cultura – que precisava resistir ao apagamento das raízes culturais. Me parece que essa é uma tarefa pra ser feita até hoje!

E que relações podem ser criadas com outras instituições nova-iorquinas, como por exemplo o Bronx Museum e o Studio Harlem?
Nova York tem essa ecologia de museus. O Studio Museum, que é fundamental para os artistas afro-americanos, está num processo de renovação, com uma nova sede. O Museu do Bronx tem um curador chefe que é brasileiro, o Sergio Bessa. O Bronx e o Studio Museum do Harlem com certeza são museu próximos, no sentido de que são ligados a grupos historicamente marginalizados pela história da arte, que é branca e masculina. Esses museus exercem suas missões como maneira de confrontar esse status quo. O Museu del Barrio fica no East Harlem, antigo Spanish Harlem, que está sofrendo um processo de gentrificação e especulação imobiliária forte, de certa maneira deslocando as populações tradicionais, associadas à história do museu. Esse é mais um motivo importante pro museu se pensar como um ponto de referencia dos legados culturais que estão em sua origem.

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