Imersão em cor

Galeria Luisa Strina apresenta novas obras do celebrado artista conceitual Cildo Meireles e a grande instalação Pling Pling, mostrada na Bienal de Veneza de 2009

Marion Strecker

N° Edição: 19

Publicado em: 14/08/2014

Categoria: A Revista, Crítica

Quem tem o projeto da instalação Pling Pling em seu computador e se responsabiliza pela execução da obra na Galeria Luisa Strina é o artista belga Trudo Engels. Ou melhor, é (ou são) Various Artists, o codinome que esse artista assumiu desde que decidiu “morrer” em 2009 e se transformar num coletivo de 24 identidades artísticas diferentes. Até o nome Pling Pling é do belga.

A autoria da obra, entretanto, é de Cildo Meireles, reconhecido internacionalmente como um dos pioneiros da arte conceitual, movimento que ganhou o mundo desde os anos 1960 e mudou profundamente o entendimento da arte. As ideias tornaram-se mais importantes do que a execução da obra, que não precisa mais ser construída pelas mãos do artista. O autor pode delegar essa atividade a quem tenha habilidade técnica específica.

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Salas da instalação Pling Pling, de Cildo Meireles (fotos: Cortesia Galeria Luisa Strina)

 

“Expliquei para ele por telefone a ideia da coisa”, contou Cildo Meireles à seLecT durante uma visita a seu ateliê numa rua sem saída do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. “Ele é hipermeticuloso, adora matemática, cria sistemas numéricos”, fala Cildo sobre seu amigo de longa data, desde que Engels serviu como seu assistente numa exposição na Bélgica, em 1989. “Mandei um sketchzinho, um rascunho, mas ele fez toda a coisa em computador. Na verdade, dei as dimensões. Eu queria trabalhar sempre com dízima periódica: 3,33… metros e as portas 1,1111… por 2,2222… de altura. E cada sala – são seis, interligadas – de uma cor diferente: as três primárias e as três complementares”, descreve.

“Eu tinha batizado a peça de Plim Plim, que era uma brincadeira com a Globo. Quando o Trudo me mandou as plantas finais, digitais, veio grafado Pling Pling. Achei legal porque ficava uma coisa chinesa e fugia da possível reação da Globo e tal, algum tipo de encheção de saco. Aí mantive o Pling Pling. E é também uma homenagem a uma peça do Waltércio Caldas de que eu gosto muito, que se chamava Ping-Ping e era ligada a pingue-pongue”, conta Cildo.

Essas revelações e a torrente de associações não fecham nem limitam o entendimento da obra. O visitante fará uma imersão em cada cor, ao entrar nas salas monocromáticas iluminadas por uma luz difusa. Cada cor despertará em cada espectador emoções específicas, que não serão necessariamente as mesmas, a depender da formação cultural e das vivências pessoais de cada um. Nem mesmo há uma definição unívoca de quais sejam as cores primárias, exceto o conceito de que delas derivam as secundárias. Se, para muitos, as cores primárias são o vermelho, o azul e o amarelo, conforme o difundido no século 18 e amplamente utilizado na indústria gráfica, os irmãos Lumière patentearam o próprio método de fotografia colorida, no início do século 20, em que as cores primárias eram laranja, verde e violeta. Com a invenção da televisão, nos anos 1920, veio o sistema de pontos coloridos RGB (sigla em inglês para vermelho, verde e azul), usado também em outros dispositivos eletrônicos, como computadores, scanners e câmeras digitais.

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Salas da instalação com monitores que ora transmitem a mesma cor da sala, ora a cor complementar (Fotos: Cortesia Galeria Luisa Strina)

Em cada sala monocromática, com paredes e chão pintados, haverá um monitor ligado a um computador oculto. Na maior parte do tempo, cada monitor vai transmitir a cor da própria sala. Mas em algum momento, no monitor programado numa divisão temporal também baseada em dízima periódica, surgirá a sua cor complementar. “Na sala violeta, o monitor é violeta na maior parte do tempo e, no outro período, ele muda para o laranja, que é o complementar do violeta”, explica Cildo.

A instalação foi apresentada originalmente na Bienal de Veneza, em 2009. Esta será sua segunda montagem. A individual na Luisa Strina ficará em cartaz de 21 de agosto a 27 de setembro, em São Paulo, e também trará obras recentes, como Esfera Invisível (2012), um cubo de alumínio maciço medindo 50 x 50 x 50 cm, diâmetro de 25 cm e peso irrelevante, na descrição do artista. Aberto o cubo, “a esfera torna-se duplamente invisível”, comenta com seu humor peculiar, já que a esfera é um vazio no interior do cubo.

Esta é a primeira individual do artista depois das retrospectivas no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, e no Hangar Bicocca, em Milão. Quando imergirmos na cor e virmos de relance a próxima sala da exposição, talvez não estejamos preparados para o que será estarmos imersos em outra cor. Fica uma dica extraída das Sentenças sobre Arte Conceitual de Sol LeWitt, de 1969: “Existem muitos elementos envolvidos numa obra de arte. Os mais importantes são os mais óbvios”.

A Seção Vernissage é parte de um projeto realizado em parceria com galerias de arte, que prevê a publicação de um texto sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

*Publicada originalmente na #select19.

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