Imprensa livre e hackeada

Obras que articulam a produção, a distribuição e o controle da informação, realizados entre 1950 e 2000, compõem Arte-veículo

Paula Alzugaray
Frame de A Situação (1978), videoperformance de Geraldo Anhaia Mello (Foto: Divulgação)

“A situação social, político, econômica e cultural brasileira…”, começa Geraldo Anhaia Mello, na posição clássica do âncora de telejornal, antes de dar um gole de cachaça. Em oito minutos diante da câmera, até que termine de beber todo o conteúdo da garrafa, o artista desconstrói a pose, repetindo a mesma frase sem desfecho. O vídeo A Situação, de 1978, é uma das primeiras obras de videoarte realizadas no Brasil, e é um tapa na cara do público, ao encenar a situação social, política, econômica e cultural sem solução que acontece hoje, 40 anos depois. A obra é um dos cerca de 200 trabalhos expostos em Arte-veículo, curadoria de Ana Maria Maia, no Sesc Pompéia, em São Paulo.

A mostra é o resultado de uma pesquisa de cinco anos sobre intervenções artísticas em meios de comunicação desde os anos 1950 até os anos 2000. Ao longo do processo, a pesquisa rendeu um livro (feito com uma Bolsa de Estímulo às Artes Visuais, em 2014, quando a Funarte ainda apoiava as artes visuais) e também uma curadoria para uma revista digital que traçava um panorama do sistema das artes brasileiro para o público internacional (Plataforma, 2014, edição seLecT e Latitude). Ana Maria Maia inseriu na publicação obras-anúncios, ocupando espaços que seriam destinados à publicidade, caso a revista não tivesse tido um único patrocinador. O tempo prolongado de pesquisa se reflete diretamente no resultado desta exposição, que se afirma como um dos mais potentes e completos exercícios de reflexão sobre as relações entre a arte e os veículos de comunicação. Vai de Glauber Rocha a Leonilson, passando por Eduardo Coutinho, Lenora de Barros, Eder Oliveira e o coletivo a Revolução não será Televisionada.

Clandestinas (1975), intervenção gráfica de Antonio Manuel sobre capas do jornal O Dia (Foto: Mario Maillaux)

 

Os trabalhos estão divididos em sete diferentes estratégias adotadas por artistas para se relacionar com a mídia de massa brasileira. São elas: perder-se, sair às ruas, duelar, hackear, ouviver, ficcionalizar e experimentar a linguagem. Embora se possa dizer que em muitos casos as relações entre arte e mídia sejam “amigáveis” – em casos de trocas de papéis, experimentações e negociações –, as ações hackers são preponderantes na exposição. No núcleo “hackear” estão reunidos basicamente coletivos de mídia tática que surgiram nos anos 2000. Porém, os hackers se espalham por todo a generosa área de convivência do Sesc Pompéia, e se comunicam ao logo dos maravilhosos lagos comunicantes da arquitetura de Lina Bo Bardi.

“Ocupar um espaço à revelia do que está programado para ele é hackear”, define Ana Maria Maia. “Assim sendo, Flávio de Carvalho é um hacker original, ao se infiltrar no programa de entrevistas de Tonia Carreiro, na televisão, para disseminar seu programa moderno”. Antonio Manuel e Cildo Meireles, posicionados no núcleo “perder-se”, que diz respeito às infiltrações em grandes sistemas, também podem ser considerados hackers antes dos hackers. Manuel com a ação Clandestinas (1975), em que modifica as chamadas de capa de um reparte do jornal O Dia, disseminando frases non sense para o grande público, como Pintor Ensina Deus A Pintar, ou Pintor Mostra Pós-arte. E Cildo com seu seminal Inserção em Circuitos Ideológicos, em que coloca para circular frases de ativismo político em produtos de consumo de massas. Nas mãos desses artistas, a imprensa se torna, à sua revelia, inquestionável território de liberdade.

Experiência nº4: Filmagem nas selvas amazônicas! (1958), anúncio de Flávio de Carvalho publicado em jornal não identificado (Foto: Divulgação)

 

Serviço
Arte-veículo
Sesc Pompeia
Rua Clélia, 93 – São Paulo
Até 2/12/2018
sescsp.org.br

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