Inhotim respira

Instituto planeja pavilhão para Yayoi Kusama, enquanto Robert Irwin, David Lamelas e outros estão em três novas exposições

Márion Strecker
I’m Here, But Nothing (2000), de Yayoi Kusama, em exposição no Inhotim. Foto: William Gomes, Inhotim

Numa semana em que São Paulo fervia com inúmeros eventos em torno da 33a. Bienal de São Paulo, a quinta-feira 6/9 foi dia de festa no Inhotim (MG). Três exposições temporárias foram abertas e houve apresentação de performances de David Lamelas e da dupla Marcellvs L. e Daniel Löwenbrück.

Do artista norte-americano Robert Irwin (1928) foi montada a instalação Black3(2008). Lamelas (1946), argentino radicado em Nova York, mostrou sua performance Time, em que o artista, com o relógio de pulso em mãos, informa em voz alta a hora exata e convida uma pessoa a cada minuto a dizer a hora exata também, obrigando o público a prestar atenção no tempo.

O artista conceitual argentino David Lamelas durante a performance Time, no Inhotim. Foto: BL

Na mesma Galeria Lago,  em que realizou a performance, o conceitual Lamelas expõe as obras Untitled (Falling Wall), de 1993/2018, Límite de una Proyección I (1967) e Situación de Cuatro Placas de Aluminio (1966).

Instalação Límite de Una Proyección I, de David Lamelas, em exposição no Inhotim. Foto: Edouard Fraipont, Inhotim

Ainda na mesma galeria há uma sala da artista japonesa Yayoi Kusama (1929), com a instalação I’m Here, But Nothing, de 2000. Como é sabido, Kusama sofre alucinações desde criança e é obcecada com bolinhas. A instalação mostra o interior de uma casa em que bolinhas coloridas aparecem em todos os elementos da decoração, inclusive as plantas. O público é convidado a entrar nesse ambiente fabuloso. A previsão é que o pavilhão seja construído no ano que vem.

“A gente tem a sensação de ter conseguido um feito incrível, com as dificuldades todas do momento, não só nossas mas do país inteiro. Conseguir chegar aqui foi lindo, e principalmente trazendo artistas da qualidade desses que estão sendo inaugurados”, disse à seLecT Antonio Grassi, diretor-executivo do Inhotim.

Kusama não veio para a abertura, mas já recebeu para análise o projeto executivo de um pavilhão só seu que o Inhotim pretende construir com patrocínio da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), controlada pela família Moreira Salles. O pavilhão de Yayoi Kusama está previsto para o final de 2019. Grassi estima que custará um valor entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões.

Na Galeria Praça, foi aberta a exposição Paul Pfeiffer, Ensaios Vitruvianos, com duas obras desse artista nascido no Havaí. São elas Vitruvian Figure (2008) e o vídeo Empire (2014). A primeira é uma maquete de cerca de três metros de altura que reproduz o estádio olímpico de Sidney. Em vez de assentos para 80 mil espectadores, como o original, o artista colocou 1 milhão de assentos. No vídeo Empire Pfeiffer se apropria do título de filme de Andy Warhol, que registrou por 24 horas com câmera parada o Empire State Building, de Nova York, para filmar um ninho de marimbondos desde o início da construção até o abandono final.

Na Galeria Fonte, a exposição Para Ver o Tempo Passar é inteiramente dedicada à videoarte. Entre os artistas que aparecem ali estão Rineke Dijsktra, Jorge Macchi, Marcellvs L., Mario García Torres, Peter Coffin, John Gerrard, Phil Collins e Susan Hiller.

Instalação Overground, de Marcellvs L., em exposição na Galeria Fonte, em Inhotim. Foto: William Gomes, Inhotim

Inhotim é o maior centro de arte contemporânea da América Latina. Fica em Brumadinho (a 60 km de Belo Horizonte), foi aberto ao público em 2006 e já recebeu mais de 3 milhões de pessoas. A área de visitação tem 140 hectares, inclui mata nativa, cinco lagos ornamentais e um jardim botânico de 4,5 mil espécies de plantas. Só de palmeiras são 1.500 espécies.

O Inhotim abriga em19 pavilhões permanentes e 4 galerias de exposições temporárias. As obras que ali estão são na grande maioria da coleção de arte do empresário da área de mineração e siderurgia Bernardo Paz. Ele começou a colecionar arte contemporânea em 1998, com a compra de uma obra de Tunga. Em 2002, o empresário criou o Instituto Cultural Inhotim e fundou a empresa Horizontes Ltda, para gerir o acervo exposto no Inhotim. Outras empresas de Paz injetaram dinheiro na Horizontes. Em 2008, o empresário recebeu na feira de arte Arco, em Madri, o prêmio de Melhor Colecionador do Ano.

Em novembro passado, Bernardo Paz deixou a presidência do Inhotim. O empresário responde em liberdade a duas condenações ocorridas em 2017, uma de 9 anos de prisão por lavagem de dinheiro e outra de 5 anos de prisão por evasão fiscal. Por isso ele pode comparecer à inauguração das novas exposições temporárias ocorrida no último dia 6 de setembro.

Suas condenações no ano passado alarmaram o setor artístico, que tem o Inhotim em alta conta. É preciso lembrar que desde 2008 o Inhotim é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Suas contas estão dissociadas das empresas de Paz.

Além de recorrer das condenações sofridas, Paz aguarda decisão sobre a proposta de acordo para que 20 obras da sua coleção que estão no Inhotim sejam transferidas ao Governo de Minas para quitar dívidas de ICMS de R$ 500 milhões relativas a suas empresas. Entre as obras que seriam repassadas estão Celacanto Provoca Maremota e Linda do Rosário, de Adriana Varejão, ex-mulher do empresário, Glove Trotter e Inmensa, de Cildo Meireles, e Gigante Dobrada, de Amílcar de Castro.

Hoje a coleção tem mais de 400 obras, incluindo instalações de Hélio Oiticica, Matthew Barney (no momento interditada para manutenção), Chris Burden, Dan Graham, Olafur Eliasson e Yayoi Kusama, entre muitos outros artistas estrangeiros e brasileiros.

Vitruvian Figure, maquete do estádio olímpico de Sidney feita por Paul Pfeiffer com 1 milhão de assentos, no Inhotim. Foto: William Gomes, Inhotim

Essas são as primeiras exposições do Inhotim sob a direção artística do norte-americano Allan Schwartzman, que assumiu a função em fevereiro do ano passado e tem prazer em expor “artistas de importância internacional que influenciaram significativamente a história da arte”.

Ele vem aconselhando o empresário na concepção de sua coleção e nas compras no mercado de arte desde antes de o Inhotim existir.

Crítico e historiador da arte, Shwartzman é co-líder da divisão de Belas Artes da casa de leilões Sotheby’s e foi sócio-fundador da Art Agency, Partners, vendida para a Sotheby’s. Já foi curador do New Museum de Nova York. Há 15 anos presta consultoria a colecionadores.

Schwartzman continua a morar em Nova York e conta com a ajuda da diretora-adjunta María Eugenia Salcedo, funcionária do Inhotim desde 2004 e egressa do setor de arte-educação, área na qual o Inhotim faz questão de atuar, especialmente com a comunidade local.

Serviço
Instituto Inhotim
Rua B, 20, Brumadinho, MG
www.inhotim.org.br
tel. (31) 3571-9700 e 3194-7300

 

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