Instituições em contextos de precariedade social

Inhotim e Usina de Arte tornaram-se fundamentais para a economia de suas comunidades locais

Leandro Muniz
Sem Título (2019) de Robert Irwin (Foto: William Gomes)

O Inhotim e a Usina de Arte são instituições instaladas em contextos de vulnerabilidade social que foram transformados econômica e culturalmente após a implementação desses projetos. Ambas compartilham de um passado colonial e de seus resquícios no presente – o nome Inhotim é derivado de “nhô Tim”, um antigo proprietário inglês das fazendas da região, e a própria arquitetura das casas na Usina de Arte são indícios dessa história. O museu e jardim botânico em Minas Gerais, desde 2002, aposta na coleção de grandes instalações com forte apelo fenomenológico, enquanto o projeto em Pernambuco, desde 2015, investe no fomento principalmente de artistas nordestinos, ainda que esteja se abrindo para um diálogo internacional. 

No início de 2019, o rompimento de uma barragem de mineração na região de Brumadinho deixou cerca de 300 mortos e feridos. Os atingidos pela tragédia estão sendo indenizados em dinheiro pela mineradora Vale S.A., sem um apoio social ou psicológico mais detido. Entre as ações assumidas em resposta pelo Inhotim está a gratuidade para os moradores locais, permitindo o uso do museu como parque público, uma iniciativa tomada pela nova diretora-executiva da instituição, Renata Bittencourt (confira entrevista da diretora à seLecT). Como forma de manter um posicionamento otimista diante das tragédias recentes, o Inhotim também inaugurou novas obras, em novembro, além de uma exposição coletiva sobre a escultura contemporânea e a reabertura de pavilhões que estavam em restauro.

Sem Título (2019), do californiano Robert Irwin, foi adquirida há cerca de cinco anos, ainda na forma de projeto, e só agora sua construção foi viabilizada. O trabalho é uma espécie de catedral moderna aberta, na qual estruturas com portas e janelas de concreto terminam em triângulos de vidro apontando para o céu. “É um trabalho símbolo de Inhotim, porque é sobre percepção. Ele costura algumas premissas de arte como experiência, que é a linha mestra da coleção”, diz o curador Douglas de Freitas à seLecT

A obra de Irwin está situada no ponto mais alto do terreno, alguns metros acima de Beam Drop (1984-2015), do norte-americano Chris Burden, na qual uma série de vigas de metal foi lançada por guindastes em uma poça de cimento. No texto A Invenção de Inhotim: Uma Paragem Para A Arte Contemporânea, a pesquisadora Maria Angélica Melendi analisa este trabalho que foi feito em Nova York nos anos 1980 em uma região de especulação imobiliária, e depois destruído. Refeita em Inhotim, a obra funciona como uma “ruína de nada”, segundo a autora.

Obras comissionadas para um jardim botânico também estão na base do projeto da Usina de Arte. Assim como em Inhotim, a Usina de Arte também distribui bancos do artista Hugo França pela instituição. Mas entre as diferenças entre os projetos podemos pautar como a história do lugar está materialmente presente no esqueleto da antiga usina de açúcar, hoje desativada por obsolescência.

Na Usina de Arte não há limites claros entre o que é a instituição e a cidade, já que a programação acontece na paisagem e nos estabelecimentos comerciais do município. O trabalho Átrio (2017), de Marcelo Silveira, por exemplo, é uma reprodução em escala 1×1 do pátio interno da “casa-grande” dos proprietários da Usina em uma das colinas do terreno. O espaço privado é reproduzido no espaço público, problematizando as ambiguidades que a centralização de poder pode exercer em uma comunidade.

Átrio (2017) de Marcelo Silveira (Foto: Andréa Rêgo Barros)

Além das obras que se tornam atrativo para turistas, a Usina de Arte promove um festival anual, com curadoria dos artistas José Rufino e Fábio Delduque, residências, shows e oficinas. Na quarta edição do festival, realizada em novembro de 2019, a programação de shows contou com nomes como Arnaldo Antunes, Santanna, o Cantador e outros iniciantes, como Thiago Martins. Entre as oficinas com convidados estavam a artista Leda Catunda e o estilista Dudu Bertholini, que trabalharam com as crianças e adultos do lugar.

O pesquisador Nei Vargas investiga instituições de arte contemporânea no Brasil que foram formadas a partir de coleções privadas. Para ele, o Inhotim e a Usina de Arte podem ser descritos como “museus de territórios”, por suas dimensões e influência na comunidade local. “Ninguém cria instituições como estas sem um desejo genuíno de construir algo importante e inovador, mas as políticas de implantação e funcionamento nem sempre se revelam profícuas, gerando certo desconforto em suas comunidades”, diz em entrevista à seLecT (confira entrevista completa). 

Inhotim e Usina de Arte tornaram-se fundamentais na economia local, por fomentar o turismo, a geração de renda, empregos e intercâmbios culturais. As dimensões espetaculares de Inhotim possibilitam a produção e manutenção de obras de grande escala em condições ideais. A Usina gera intercâmbios e mobiliza uma comunidade que passa a encontrar alternativas econômicas. Ambas se tornaram fundamentais na reativação econômica e cultural de seus contextos. Que o debate crítico e público torne cada vez mais qualificadas suas relações com as pessoas que vivem diretamente os impactos de sua atuação.

Serviço
Inhotim
Rua B, 20, Brumadinho | inhotim. org.br

Usina de Arte
Rodovia PE 99, km 10, Água Preta | usinadearte.org

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.