Inteligência selvagem

Em individual na Galeria Superfície, Gerty Saruê projeta um mundo que parecia da ordem do impossível

Paula Alzugaray

Publicado em: 09/09/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Obra de Gerty Saruê [Foto: Divulgação]

Brasília ainda nem estava em construção e São Paulo tinha uma população de perto de 2,3 milhões de pessoas quando Gerty Saruê aportou por aqui, em 1954, em êxodo da Segunda Guerra Mundial, com passagem pela Bolívia. Havia apenas dez anos, tinha sido criada a comissão para a construção do campus da Universidade de São Paulo, a Cidade Universitária. Em 1964, quando a artista realizou sua primeira individual em uma galeria paulistana, os prédios da Faculdade de Educação e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas estavam em construção. É do canteiro de obras da USP a fotografia que Gerty considera a melhor que já realizou, e funcionou como matriz para uma serigrafia (sem título) editada em 1977. Um trabalhador descendo uma escadaria, talvez do Velódromo, equilibrando uma barra de metal nos ombros. “Eu gostaria de fazer uma escada que se perde nas nuvens e não se vê mais, que não termina”, declara Gerty Saruê na entrevista a Paula Borghi e Rita Monteiro, publicada no catálogo de sua individual Engrenagem Máquina, Corpo Ar, na Galeria Superfície. 

Gerty queria ter estudado filosofia, mas tornou-se artista quando chegou em São Paulo. Foi o crítico Anatol Rosenfield, com quem fez um curso livre de filosofia, quem disse que ela tinha uma inteligência selvagem, porque nunca estudou formalmente. Sua observação crítica do crescimento imobiliário dos anos do “milagre econômico” deu visualidade às falhas do sistema. Gráficos, planilhas, memorandos e projetos de engenharia de uma sociedade mal apoiada sobre o hipercrescimento sem planejamento social constituem a matéria-prima de sua obra plástica e gráfica. A visualidade selvagem que ela deu às estéticas do capital está em cada uma das monotipias, serigrafias, colagens, impressões digitais e outros ensaios gráficos e digitais produzidos com as técnicas de reprodução mais arrojadas do momento em que foram criados. 

Em plena atividade criativa, a artista concebeu para esta mostra, aos 92 anos, a instalação Ar (2022), em que insufla às paredes da galeria a capacidade de respirar. Talvez do mesmo desejo de construir uma escada sem fim surja agora a capacidade de transferir vida a um corpo arquitetônico, projetando um mundo que parecia da ordem do impossível.

Serviço:
Gerty Saruê – Engrenagem Máquina, Corpo Ar
Até 24/9, Galeria Superfície, Rua Oscar Freire, 240

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