Isso é início disso e muito mais

Primeiro projeto do Paço das Artes fora de sua sede, individual de Lenora de Barros tem como fio condutor o gesto performático

Felipe Stoffa

N° Edição: 30

Publicado em: 22/07/2016

Categoria: A Revista, Review

Frame do vídeo Estudos para Facadas (2012), de Leonora de Barros

Entre experimentação e performance, entre o poema e o gesto, conferindo materialidade à palavra, o trabalho de Lenora de Barros está ligado a uma constante dobra antropofágica. O projeto curatorial de Priscila Arantes para a mostra ISSOÉOSSODISSO, estabelece um recorte performático que se define como um ponto singular, presente em toda a produção da artista.

Logo no começo da exposição – que conta com cerca de 20 obras em duas salas da Oficina Oswald de Andrade –, nos deparamos com um trabalho que reverbera, de alguma maneira, em todos os outros ali apresentados. Procuro-me (2001-2003), publicado inicialmente no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo, foi posteriormente exposto na forma de cartazes na fachada do Centro Universitário Maria Antônia, em 2002.

Na contramão das expectativas – mas que se desenvolveu como uma casualidade positiva –, o trabalho foi pichado por um grupo denominado Art Attack. Em vez de recuperá-los do suposto ato vândalo, Lenora os utilizou como matéria-prima para seguintes pesquisas, como Procura-se Linguagem (2007), da série Retalhação. Esse mesmo processo de fragmentação também se irrompe em Poema (1979), dialogando com Língua Vertebral (1998), e no vídeo No País da Língua Grande, Dai Carne a Quem Quer Carne (2006).

A segunda sala da mostra contém outra faceta de seu trabalho, pouco mencionada até então. Ali estão cinco vídeos, inclusive o que deu nome à exposição, ISSOÉOSSODISSO (2016), videoperformance em que a artista, sentada, quebra pedaço por pedaço um esqueleto de plástico, enquanto repete, ao jogá-los no chão: “Isso é osso disso”. Nos outros quatro vídeos – da série Não Quero Nem Ver (2005) –, o gesto antropofágico revela-se em uma violência subjetiva, que ecoa pelo espaço.

Os ciclos de recomeços e de desdobramentos de um trabalho em outros são gestos claramente discutidos e percorridos nesta exposição. Entretanto, Procuro-me parece ir além. Ao mesmo tempo que é a continuação de projetos anteriores, essa obra sugere um movimento inverso, de autodevoração. Quando um trabalho concebe outro, a matéria-prima é o próprio trabalho.

Serviço
Lenora de Barros – ISSOÉOSSODISSO
Paço das Artes – Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – São Paulo
Até 30/7
http://www.pacodasartes.org.br/

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