Jaider Esbell e a sobreposição de mundos

Série A Guerra dos Kanaimés materializa a compreensão macuxi de que a realidade sobrepõem passado, presente e futuro

Leandro Muniz

Publicado em: Vol. 10, N 50, Abril/ Maio/ Junho 2021

Categoria: A Revista, Destaque

Série Kanaimé, de Jaider Esbelll (Foto: Marcelo Camacho)

Sobre um fundo preto opaco feito com tinta acrílica, Jaider Esbell desenha com Posca (caneta também de base acrílica que permite uma cobertura homogênea) diversos seres sobrepostos por suas texturas e transparências. A série A Guerra dos Kanaimés, produzida entre 2019 e 2020, é composta de 11 telas de 145 x 110 cm – o que provoca no espectador um embate corporal com a imagem – e foi apresentada na exposição Vento, primeira de uma série da 34ª Bienal de São Paulo.

O fundo preto enfatiza a sensação de um mundo espectral, enquanto as cores brilhantes dos desenhos trazem vibração à imagem, criando uma atmosfera entre o lisérgico e o cosmológico. O aspecto vazado dessas figuras alterna constantemente no olhar o foco entre os seres isolados e justapostos. As texturas remetem a padronagens e parecem oscilar entre o efeito descritivo de materiais, como tecidos e plantas, e a tentativa de tornar visíveis as sensações. Em alguns trechos da pintura, as linhas verticais sugerem a palha de uma roupa, o desenho geométrico da pele de um sapo, ou a atmosfera celeste. Em outros, as entidades flutuantes sobre a paisagem parecem nos olhar fixamente, em um trânsito entre o concreto e o imaginário, o material e o espiritual.

Série Kanaimé, de Jaider Esbelll (Foto: Marcelo Camacho)

Na cosmogonia Makuxi (população originária do estado de Roraima, perto da fronteira com a Colômbia e a Venezuela), o Kanaimé é um ser ligado à metamorfose que dialoga com o mundo imaterial e da magia. Quando incorpora em uma pessoa, ela torna-se outra criatura, um predador ou protetor. Também está diretamente ligado à questão social e a uma maneira muito própria de fazer justiça, em geral de modo violento, mas justificado no contexto. “Esse é um tema que trabalho desde 2011, no início da minha produção pictórica”, diz Jaider Esbell à seLecT. “Ao ser convidado pela Bienal, vi essa questão do conflito na forma da política atual que nos submete a forças e valores externos, que são hegemônicos. Há uma guerra de mundos, de fato, por territórios, por modos de pensar e por recursos.”

Nas cosmogonias indígenas, não há separação entre as coisas do mundo, o indivíduo e o coletivo, o espiritual e o material. Se, em suas primeiras pinturas, Esbell construía a imagem por blocos de cor homogêneos, nesta série recente, o procedimento de sobreposição de texturas e imagens materializa o trânsito entre diversas dimensões. “Os mundos material e imaterial na nossa cultura são muito facilmente transpostos. O subconsciente, a magia e o espiritual são campos de disputa e estão em conflito.”

Série Kanaimé, de Jaider Esbelll (Foto: Marcelo Camacho)

Intermundos

Uma operação recorrente na produção indígena atual é a transposição de imagens ligadas às suas etnias e clãs, em especial os grafismos, para técnicas, digamos, ocidentais, como a pintura em tela. Se as padronagens aplicadas na pele, nos tecidos e nas cerâmicas têm conexão com a vida prática, inclusive com funções específicas, de proteção ou mudança de ciclo, a história da pintura (sobre tela) está diretamente ligada à tradição ocidental da arte. É uma linguagem que pressupõe distância entre espectador e obra, emissão e recepção de mensagem, além de todo um sistema institucional e econômico que separa a arte da experiência integral do dia a dia – diferentemente do fazer indígena.

Série Kanaimé, de Jaider Esbelll (Foto: Marcelo Camacho)

Em entrevista para a 34ª Bienal de São Paulo, Esbell aponta como reivindica a autoria, de um traço ou linguagem próprios, sem se apropriar de um símbolo coletivo para fins individuais, ainda que, evidentemente, esse imaginário e essa estética grupal estejam na base de sua obra. Para além da transposição imediata do imaginário indígena para as técnicas ocidentais, suas pinturas recentes criam uma temporalidade comprimida e não linear pela ênfase em um aspecto interno da produção pictórica: a construção por camadas. A série A Guerra dos Kanaimés materializa a compreensão Makuxi de que a realidade tem várias dimensões que se interconectam e se sobrepõem umas às outras, com elementos do passado, do presente e do futuro em simbiose e retroalimentação.

A pintura recente de Jaider Esbell faz a passagem entre esses diversos modos de operar, encontrando sínteses próprias de vocabulário e posicionamento crítico. A linguagem e o imaginário do trabalho demonstram o tempo como a simultaneidade e a interação entre os campos subjetivo e social, mágico e político, em um trânsito entre mundos.

Série Kanaimé, de Jaider Esbelll (Foto: Marcelo Camacho)

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