Jonathas de Andrade

Giselle Beiguelman

Publicado em: 13/06/2014

Categoria: exposições on-line, Portfólio

Muito além de um museu para chamar de seu

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Legenda: Exposição de cartazes do Museu do Homem do Nordeste (2013) de Jonathas de Andrade na Galeria Vermelho (foto: Edouard Fraipont)

Há artistas que sonham em entrar para a coleção de um museu. Outros que criam seus museus imaginários e pessoais. O alagoano Jonathas de Andrade, no entanto, optou por outra via: fazer uma versão alternativa de um museu existente, o Museu do Homem do Nordeste. Projeto de Gilberto Freyre de 1979, hoje sob os auspícios da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, o museu é dedicado a preservar e difundir o patrimônio cultural do Nordeste brasileiro.

O acervo, com mais de 15 mil itens, tem uma coleção variada que vai de açucareiros de ricas porcelanas do século 16, passando por ex-votos, instrumentos de percussão, de tortura aos escravos, carruagens nobres, cachaças, adereços de festas populares, enfim, um mundo de elementos que não cabem na coleção do próprio Andrade. Seu museu busca, critica e ironiza a vontade de identificar o homem nordestino em si.

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Legenda: Um dos homens que posaram para o artista, a partir de chamadas feitas em classificados de jornal (foto: Edouard Fraipont)

A cara do Nordeste

A partir de uma série de anúncios classificados em jornais locais, o artista avisava: “Procuro moreno forte, trabalhador, feio ou bonito – para fotografia do cartaz do Museu do Homem do Nordeste”. Dezenas deles compareceram. A diversidade das imagens, nas quais homens fortes, frágeis, altos, baixos, brancos, pardos, negros, posam em situações variadas, põe em pauta o clichê e reforça uma hipótese: o Nordeste é uma paisagem em aberto e está em todo lugar.

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Legenda: Em exposição na Bienal de Lyon, Nego Bom É 1 Real (2013) integra o projeto do Museu do Homem do Nordeste, de Jonathas de Andrade, transformando o bordão de venda dos ambulantes e a receita de um doce típico em dispositivo crítico das relações interssociais e raciais brasileiras (foto: Blaise Adilon)

Micropolíticas cotidianas

Onipresente na obra de Andrade é também a verve micropolítica e uma contestação em forma de ousadia que parece buscar, acima de tudo, outras narrativas da história e da cultura. Em Nego Bom É 1 Real, as estratégias perversas das relações de compadrio e o mascaramento das tensões raciais que se perpetuam no Brasil, especialmente na Região Nordeste, aparecem de forma insuspeita e sutil.

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Legenda: Imagem da intervenção urbana Primeira Corrida de Charretes do Recife, que ocupou o centro da cidade como se fosse um cenário de bangue-bangue tropical (foto: Josivan Rodrigues)

Muito além da ficção

Item de destaque no acervo do Museu do Homem do Nordeste são os jogos de confrontar a ordem, a partir de rituais inusitados. Ação-limite desse projeto foi o verdadeiro levante promovido por Andrade, conclamando à Primeira Corrida de Charretes do Recife. Proibidos de circular no espaço urbano, cavalos e burricos voltaram às ruas em um happening planejado, com autorizações oficiais, a partir de uma discreta subversão. Andrade simplesmente mentiu às autoridades, informando que o que ocorreria seria apenas para figurar em uma “cena de filme”.

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Legenda: Tombamento (2013), realizado na Casa de Vidro de Lina Bo Bardi (foto: Cortesia do artista)

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Legenda: O Clube (2010), fotografias captadas em Alagoas, refletem sobre os destinos quase trágicos da arquitetura modernista nacional (fotos: Cortesia do artista)

Fora da ordem

Caetano Veloso escreveu e cantou que “aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína”. Poderia ter dedicado a canção às insistentes investidas de Jonathas de Andrade em seus embates com o patrimônio modernista brasileiro, constantemente vilipendiado pela natureza tropical e pela paradoxal cultura do descaso público e privado que impera por estas praias.

*Portfólio publicado originalmente na edição #16

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